sábado, 23 de junho de 2007

O Enterro da Cobra (Capítulo II) - Helena

As chuvas, que persistiam por mais de três semanas, obrigavam os moradores a criarem rotinas para se adequarem à estação molhada. As mulheres improvisavam em suas casas, cordas atravessadas formando uma espécie de varal, onde pudessem estender as roupas lavadas. Os homens aproveitavam o aguaceiro para limpar as paredes externas das casas e prepará-las para a pintura de cal ao final das chuvas. O calor era tanto, que as mães deixavam que seus filhos brincassem no aguaceiro a tarde toda. Com isso, as crianças desenvolviam as habilidades criativas em escultura, usando a lama que se depositava por toda a cidade.
Era uma época boa para Valter, o caranguejo domesticado de Carmen, a mulher do padeiro. Carmen prendia uma corrente bem comprida na tenaz do animal, e o deixava aproveitar a lama das ruas. A corrente era usada, não por medo que Valter fugisse, mas sim, por sua dona nunca ter confiado no sentido de orientação do animal, cujas patas nunca o levavam para frente.
Três anos antes, quando Arlindo chegou em casa com um grande amarrado de caranguejos a serem preparados para a festa anual de São Floriano, que protegia a cidade das enchentes na estação das chuvas, a mulher do padeiro desconhecia os laços de amizade que se criariam entre ela e o animal. Pela manhã, limpou, temperou e cozinhou os bichinhos. Carmen e a empregada garantem ter contado e recontado cada um dos caranguejos que foram colocados na panela. Mas, ao fim da festa, quando foi preparar um chá antes de dormir, ela ouviu um ruído vindo do quintal, e lá encontrou um dos animais dentro de uma caixa vazia de fogos de artifício usados durante as festividades.
Depois dessa noite, por mais seis vezes, o crustáceo fugiu de ser transformado em alimento. Foi quando Carmen adotou-o como animal de estimação, dando a ele o nome de Valter, para que todos lembrassem de que se tratava de uma pessoa merecedora de respeito como outra qualquer. Quando o padre Clemente permitiu a entrada de Júlia na igreja durante as missas dominicais, Carmen não esperou para polir o casco de Valter e levá-lo também semanalmente para aprender com os sermões edificantes do pároco.
Arlindo, o padeiro, desde que sua esposa se encantara pelo animal, desenvolveu uma antipatia gratuita pelo bicho. Foram inúmeras as tentativas de Arlindo para demover a esposa da idéia de manter o animal, inclusive incriminando-o por pequenos desastres domésticos que o próprio padeiro causava. Por duas vezes, a mulher encontrou o marido na iminência de cozinhar Valter junto com outros caranguejos que ele havia comprado, para justificar o engano. Por fim, Carmen rogou uma praga que se Arlindo pusesse em risco a vida de Valter, para o resto da vida todos os seus pães iriam solar, e ainda pediu que Berenice, a rezadeira,reconhecesse firma da praga rogada.
Desde esse dia, Arlindo saía de qualquer lugar onde Valter estivesse, até que, por volta das duas horas de uma tarde de sábado quente, o padeiro tirava uma soneca na varanda da frente, refugiando-se do calor. Foi Valter quem primeiro viu o incêndio que se precipitava no quintal, e, por não haver outra solução, foi até a varanda chamar Arlindo, que dormia na rede com uma das orelhas pra fora. O animal pinçou o lóbulo gorducho da orelha de Arlindo, e não mais largou. O homem pulava pela casa, lançando todas as maldições possíveis sobre o caranguejo, até que chegou à cozinha e avistou o incêndio. Neste momento, esqueçou o bicho agarrado à sua orelha e chamou a vizinhança para ajudá-lo a combater o fogo.
Depois de o incêndio debelado, Arlindo foi até o laboratório, na esperança de que Nilo tivesse algum remédio que fizesse caranguejo abrir as tenazes, mas Carmen ameaçou o farmacêutico, caso o animal sofresse algum dano colateral. A mulher foi tão mordente, que Nilo preferiu encaminhar o pequeno paciente para a rezadeira. Lá chegando, Berenice fez umas ladainhas que tinham por objetivo convencer o crustáceo largar a orelha do infeliz. Depois disso, mandou os três para casa, dizendo que a reza surtiria efeito dentro de uma semana no máximo. Arlindo saiu da casa da rezadeira certo de que Valter propositadamente ateara fogo no quintal, de modo a aprisioná-lo em sua pinça, lembrando sempre das tendências incendiárias do caranguejo, por gostar de dormir numa caixa de rojões que exalava cheiro de pólvora seca.
Depois de três dias, o marido de Carmen acabou se acostumando com o ornamento. Durante seu trabalho na padaria, Arlindo utilizava a outra pinça de Valter para prender lembretes e panos que usava para enxugar suor, ou limpar as mãos, sem falar das pontas das patinhas que o lhes serviam para limpar os dentes. Depois de conviverem juntos quatro meses exatos, Arlindo acabou se afeiçoando de tal forma ao animal, que nem lembrava da reza de Berenice. O cuidado com o pequeno cascudo era tal, que foi aí que Arlindo confeccionou uma corrente fina com uma alça adequada, para que Valter pudesse passear pela cidade durante as chuvas, sem correr o risco de, na volta, andar para o lado errado. As crianças costumavam manter Valter por perto, para utilizá-lo na confecção das esculturas, desenhando com suas pinças os acabamentos finais das obras de arte.
Foi por essa época que Augusto pôs fim à sua ansiedade amorosa, declarando-se para Lilás, num dia em que ambos ficaram presos no abrigo do horto, durante oito horas consecutivas de chuvas. A moça, apesar de surpresa com a revelação, confessou também nutrir intenso sentimento pelo rapaz. Nessa tarde, eles tiveram tempo e isolamento suficientes para assistir, na tela imaginária da parede do barracão, a vida comum compartilhada pelo casal, seus filhos, netos e bisnetos. Lilás podia ouvir a musica tocando enquanto caminhava para o altar, onde Augusto a esperava. No ritmo da música, a moça encenava sua marcha nupcial, puxada por Valter, que, à frente, levaria as alianças do casal presas em suas tenazes. Não houve um momento sequer em que tiveram de se preocupar em como fazer a revelação a todos do namoro dos dois, pois, para todos os moradores da cidade, o casal já namorava desde sempre, e há muito as bodas já eram esperadas.
________________________________________Continua...

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