(Ver: Capítulo II - Capítulo III - Capítulo IV- Capítulo V - Capítulo VI - CapituloVII - Capítulo VIII)
O calor era tanto, que Virgílio preferiu dar um mergulho no riacho antes de tomar o caminho de volta pra casa. Até que cruzasse a floresta, já seria noite e só poderia entregar as ervas ao farmacêutico na manhã seguinte, sendo assim, não adiantava correr. Enquanto se banhava, o rapaz sonhava com sua promoção no laboratório de ervas medicinais que Nilo havia criado. Nilo, um homem calado e prudente, passara toda a sua vida utilizando as ervas que eram abundantes na mata que ladeava a vila. Desde menino, costumava medicar os animais domésticos com seus chás, curando-os dos mais diversos males. Nunca se soube muito bem a lógica que Nilo usava para prescrever esta ou aquela planta para o doente, mas, quando conseguiu curar o gato de Eulália, que insistia em latir por ter nascido e crescido em meio a cinco cães, ninguém mais duvidou de sua competência médica, e de seus conhecimentos químicos. Quando conheceu Virgílio, percebeu logo que se tratava de alguém a quem poderia passar seus conhecimentos, pois tanto um quanto o outro eram capazes de passar dias seguidos juntos, sem quase proferir um palavra, e mesmo assim se entenderem. Durante todo o tempo em que conviviam, Virgílio nunca fizera uma pergunta sequer a Nilo. Cumpria suas obrigações, muitas delas assumidas naturalmente, sem que Nilo tivessse dado instruções para tal.
A água do riacho era potável, e, apesar de na vila haver poços de água pura em todas as casas, Virgílio semanalmente levava quatro litros do regato, junto com as ervas, para que Nilo pudesse preparar seus elixires. Depois de se refrescar, Virgílio retomou a caminhada em direção à vila. O sol já começava a se pôr, e o burburinho das aves em revoada para seus ninhos era quase ensurdecedor. Havia sons de todo o tipo. O barulho era confuso, mas era possivel distinguir um insitente choro de bebê que se manteve estável, até mesmo quando as demais aves silenciaram. Virgílio seguia rapidamente em direção àquele som, apressando-se cada vez mais, até chegar ao local onde, mais tarde, seria inaugurado um grande abrigo e um horto com todas as espécies de plantas curativas da região. Foi preciso pisar num ouriço para se certificar do que seus olhos viam: uma gigantesca cobra enroscada formando um berço que aninhava confortavelmente um bebê de aproximadamente oito meses. O rapaz ainda podia ver um fio de leite que escorria da boca da criança que, agora, já dormia profundamente.
Quando Virgílio chegou na vila, já estava escuro, as ruas estavam desertas, e o aroma de comida tomava conta de todas as casas. Ao ver a figura do marido entrando pela porta da sala, Elza pôde perceber que ali entrava apenas o corpo do esposo, pois seus pensamentos estavam em outro lugar. Trouxe-lhe uma caneca de sopa quente, na esperança de trazê-lo de volta ao mundo, mas só quando ouviu os berros assustados da esposa, foi que Virgílio percebeu que já estava em casa. Assustado, contou para a mulher o que vira na mata. Elza não conseguia compreender por que o marido não trouxera a criança para casa, mas Virgílio insistia em dizer que acreditava ter feito a coisa certa. Depois de muita insistência da mulher, o marido prometeu que, no dia seguinte, voltaria lá, e resgataria o bebê. Elza imprecou contra o marido toda espécie de desdita, até que, assustado, e temendo os desconjuros da mulher, Vírgilio resolveu procurar sua mãe, Iná, que era a parteira do povoado e entendia um pouco de tudo. Em poucos minutos, um pequeno grupo formado por quatro homens e três mulheres penetrava na mata munido de armas redes e mamadeira de leite. Quando chegaram ao local, a meia-luz da lua cheia permitiu que presenciassem uma cena que mais tarde seria tema de muitos desenhos e pinturas da região: A cobra segurava o bebê em um ninho formado por seu próprio corpo enrolado, e o alimentava com uma espécie de leite que descia de sua lingua diretamente para a boca da criancinha. A criança, sob a luz da lua, parecia ainda mais clara do que durante a tarde, quando Virgílio a encontrou pela primeira vez. Por duas horas, os moradores da vila observaram o animal enchendo o bebê de cuidados, até que ele adormecesse novamente. Voltaram, e se reuniram na praça principal do povoado, em meio a uma avalanche de opiniões a respeito do ocorrido. O fato é que todos concordavam que o bebê não deveria ser afastado da cobra, mas ninguém ousava dizer isso claramente.
Quando, no dia seguinte, o padre e o escrivão, que era uma espécie de xerife, foram notificados dos acontecimentos da noite anterior, e disseram que a melhor solução seria matar a cobra e trazer o bebê, Berenice, a rezadeira – que estivera durante a noite junto com o grupo observando a cobra – protestou em voz alta, afirmando que seria um pecado contra Nossa Senhora Virgem Santíssima se matassem aquela cobra, pois ela sabia reconhecer muito bem uma mãe alimentando seu filho, e ninguém lhe tiraria da cabeça que aquela serpente era a mãe da criança sob alguma espécie de feitiço. Após interrogar o grupo a respeito de todos os detalhes, Calisto, o escrivão, estava convencido da maternidade da cobra visto o amor maternal imenso pelo bebê, que todos declaravam ter presenciado.
Durante as semanas seguintes, grupos eram escalados para observar todos os movimentos da cobra e do menino. Nilo encadernava os relatórios dos grupos com o mesmo cuidado que dispensava às plantas medicinais que Virgílio lhe trazia semanalmente. Não levou muito tempo para que todos acreditassem na versão de Berenice a respeito da maternidade do ofídio. Muitos apelaram para Nilo, na esperança de que o químico preparasse algum elixir que desfizesse o encanto, mas Nilo se negava entrar nas artes da feitiçaria, respondendo que isso seria tarefa para a rezadeira.
O padre Clemente e a professora Dagmar fizeram todos os preparativos para o batizado do menino. Seu nome seria Augusto, nome do avô de Virgílio, que desaparecera nas matas à procura de ervas para curar a esposa, que desde que parira o pai de Virgílio, insistia em conversar com as galinhas, e seguir todas as intruções descabidas que as aves lhe davam, inclusive a de proibir que se consumissem ovos em sua casa. O batizado de Augusto seria ministrado na própria clareira, onde a criança vivia com sua mãe, que recebeu o nome de Júlia, em homenagem à viúva de Demósio, o ferreiro. Demósio morrera no ano anterior à beira do rio, em consequência de uma queda que levou sua cabeça de encontro às pedras. Júlia, com quem era recentemente casado, ao saber da morte do marido, se dirigiu ao escritório do escrivão Calisto, doou seus bens à comunidade, e seguiu mata adentro apressada, certa de que seu marido não poderia esperar por muito tempo na eternidade. A última pessoa com quem Júlia falou foi com Madalena, a doceira, de quem comprou um bolo de milho, dizendo que levaria para o marido antes que esfriasse. Na ocasião, Madalena não entendeu, ao certo, o que Júlia temia esfriar, se o bolo, ou o corpo de Demósio. Só mais tarde, quando encontraram o corpo da mulher boiando no rio, é que Madalena entendeu que era o bolo que deveria chegar quente.
Na ocasião do batizado, todos os moradores das redondezas já estavam familiarizados com os novos vizinhos. A mães costumavam deixar seus bebês brincarem com Augusto, e levavam leite e papa para que a serpente pudesse alimentar seu filhinho, sem precisar mais buscar o leite nas mamas de fêmeas selvagens. Algumas mulheres passavam horas conversando com Júlia, que era um ótima ouvinte. Calisto, o escrivão, usava algumas horas do dia pesquisando, em registros de toda natureza, alguma pista que desse indícios da origem de Augusto e sua mãe sucuri, mas não encontrava nada, nem mesmo nas cidades vizinhas.
O estio terminava e logo começariam as chuvas. Preocupados com o futuro dos dois, os moradores da vila construíram uma casa na rua principal, para que Júlia e Augusto pudessem se abrigar. Muitos ainda insitiam em tentar desfazer o feitiço que encantou Júlia, e devolver-lhe a humanidade perdida, mas a maior parte dos moradores já havia se acostumado com a condição ofídica da mãe de Augusto. A bem da verdade, a cobra vinha facilitando uma boa parte das atividades e tarefas do povoado. Sua capacidade de se erguer a regiões mais altas, permitia que Júlia participasse da limpeza das fachadas dos prédios públicos, da manutenção da iluminação das ruas, e da colheita de frutos em árvores. As crianças também adoravam montar a cobra e passear pelas ruas da vila. Muitos diziam que Augusto dominava a linguagem das cobras. Mas o menino nunca quis falar sobre o assunto, ficando isso apenas entre ele, e sua mãe.
Foi difícil convencer o padre Clemente a aceitar que Júlia assistisse às missas. Para isso, foi preciso que Berenice o alertasse dos perigos de ali se encontrar uma cristã enfeitiçada por alguma força do mal, mas abençoada por Deus pela maternidade que desempenhava com louvor. Sendo assim, toda semana, depois que todos entravam na igreja, Júlia se acomodava nos últimos bancos e participava da missa dominical.
Augusto era um rapaz bom e honrado. Seu senso de justiça trazia pessoas das cidades vizinhas em busca de sua ajuda na resolução de situações de impasse. E, como todos já previam, o filho de Júlia tornou-se o dirigente do lugarejo. Muitas moças do lugar sonhavam com o privilégio de desposar Augusto, mas o rapaz era irremediavelmente apaixonado por Lilás, que recebera esse nome devido à estranha coloração do céu durante o seu nascimento. Lilás, moça bonita e prendada, sétima filha de Nilo e Martina, nascera quando o filho mais novo do casal se preparava para servir ao exército na capital. Martina participou da missão do resgate de Augusto, quando ainda acreditavam que o menino corria risco de vida com a cobra. Foi dela o primeiro leite humano levado numa mamadeira, naquela noite, para alimentar a criança. Lilás e Augusto cresceram juntos e partilharam o mesmo leite. Nas noites insones de sua filha, Martina a entregava para que Júlia cuidasse da dor de barriga da menina, que só passava quando a cobra a suspendia numa espécie de laço formado por sua cauda. Quando moça, Lilás confeccionava roupas, toucas e agasalhos em tricô para enfeitar e proteger Júlia do frio. Foi ela que criou o banho semanal de Júlia que era dado pelas crianças da cidade munidas de escovas sabonetes, baldes e mangueiras de água. Depois do banho, as meninas passavam águas-de-cheiro fabricadas por Assunta, no laboratório de Nilo, com ervas que colhiam nas matas que ladeavam a vila.
O amor de Augusto por Lilás o acompanhava desde a infância, quando o menino caçava joaninhas coloridas, e vagalumes no mato, e os colocava em vidros separados para embelezar o quarto de Lilás durante o dia, e iluminá-lo durante a noite. O que o menino não sabia é que sua amada tinha, desde pequena, uma imensa afinidade com os animais, e libertava os insetos pela janela dos fundos de sua casa, pedindo aos bichinhos que prometessem se deixar encontrar por Augusto novamente, para que ele pudesse presenteá-la no dia seguinte.
A paixão de Lilás pelo animais era tanta que, depois de crescida, se tornou a maior amiga de Júlia. As duas ficavam juntas por horas a fio, e nunca se soube o que faziam. Mas foi a moça que alertou a todos do advento da morte de Júlia.
Numa tarde de domingo, depois de ter passado horas com a mãe de Augusto, Lilás se encaminhou à igreja e disse ao padre Clemente que precisava reunir algumas pessoas e fazer uma anunciação. Com a igreja cheia, a moça informou que era chegada a hora da morte da cobra, que, por vinte anos, fizera parte da comunidade. Relatou que havia sido incumbida dos preparativos do funeral que a propria Júlia planejara.
Foi uma festa inesquecível, além da inauguração da área de cultivo de ervas na clareira onde fora residência de Júlia e Augusto nos primeiros meses. Tudo transcorreu como Júlia planejara. Lilás foi diligente na execução de todas as tarefas determinadas pela cobra.Após o enterro, Lilás entregou ao padre Clemente uma caixa onde havia uma carta e um anel. Na carta estava escrito: “Vou de encontro a ele, para que meu filho tenha um pai ao nascer”. O anel tinha as iniciais JL: Júlia Linhares. Júlia Linhares, viúva de Demósio, deixara na beira do rio antes de se afogar, uma caixa com o bilhete e o anel, para que pudessem saber seu paradeiro, caso não encontrassem seu corpo. Estava grávida de seis meses, e ninguém sabia. Acontece que, quando a mulher pulou no rio, suas contrações se iniciaram e, ali dentro da água, nascera Augusto, segundos antes de sua mãe morrer. A cobra, que a tudo assistia, guardou a caixa e cuidou do bebê prematuro, até o dia de sua morte. Augusto decidiu transferir o ossos do casal Linhares para a mesma sepultura de Júlia, sua mãe por amor.
A água do riacho era potável, e, apesar de na vila haver poços de água pura em todas as casas, Virgílio semanalmente levava quatro litros do regato, junto com as ervas, para que Nilo pudesse preparar seus elixires. Depois de se refrescar, Virgílio retomou a caminhada em direção à vila. O sol já começava a se pôr, e o burburinho das aves em revoada para seus ninhos era quase ensurdecedor. Havia sons de todo o tipo. O barulho era confuso, mas era possivel distinguir um insitente choro de bebê que se manteve estável, até mesmo quando as demais aves silenciaram. Virgílio seguia rapidamente em direção àquele som, apressando-se cada vez mais, até chegar ao local onde, mais tarde, seria inaugurado um grande abrigo e um horto com todas as espécies de plantas curativas da região. Foi preciso pisar num ouriço para se certificar do que seus olhos viam: uma gigantesca cobra enroscada formando um berço que aninhava confortavelmente um bebê de aproximadamente oito meses. O rapaz ainda podia ver um fio de leite que escorria da boca da criança que, agora, já dormia profundamente.
Quando Virgílio chegou na vila, já estava escuro, as ruas estavam desertas, e o aroma de comida tomava conta de todas as casas. Ao ver a figura do marido entrando pela porta da sala, Elza pôde perceber que ali entrava apenas o corpo do esposo, pois seus pensamentos estavam em outro lugar. Trouxe-lhe uma caneca de sopa quente, na esperança de trazê-lo de volta ao mundo, mas só quando ouviu os berros assustados da esposa, foi que Virgílio percebeu que já estava em casa. Assustado, contou para a mulher o que vira na mata. Elza não conseguia compreender por que o marido não trouxera a criança para casa, mas Virgílio insistia em dizer que acreditava ter feito a coisa certa. Depois de muita insistência da mulher, o marido prometeu que, no dia seguinte, voltaria lá, e resgataria o bebê. Elza imprecou contra o marido toda espécie de desdita, até que, assustado, e temendo os desconjuros da mulher, Vírgilio resolveu procurar sua mãe, Iná, que era a parteira do povoado e entendia um pouco de tudo. Em poucos minutos, um pequeno grupo formado por quatro homens e três mulheres penetrava na mata munido de armas redes e mamadeira de leite. Quando chegaram ao local, a meia-luz da lua cheia permitiu que presenciassem uma cena que mais tarde seria tema de muitos desenhos e pinturas da região: A cobra segurava o bebê em um ninho formado por seu próprio corpo enrolado, e o alimentava com uma espécie de leite que descia de sua lingua diretamente para a boca da criancinha. A criança, sob a luz da lua, parecia ainda mais clara do que durante a tarde, quando Virgílio a encontrou pela primeira vez. Por duas horas, os moradores da vila observaram o animal enchendo o bebê de cuidados, até que ele adormecesse novamente. Voltaram, e se reuniram na praça principal do povoado, em meio a uma avalanche de opiniões a respeito do ocorrido. O fato é que todos concordavam que o bebê não deveria ser afastado da cobra, mas ninguém ousava dizer isso claramente.
Quando, no dia seguinte, o padre e o escrivão, que era uma espécie de xerife, foram notificados dos acontecimentos da noite anterior, e disseram que a melhor solução seria matar a cobra e trazer o bebê, Berenice, a rezadeira – que estivera durante a noite junto com o grupo observando a cobra – protestou em voz alta, afirmando que seria um pecado contra Nossa Senhora Virgem Santíssima se matassem aquela cobra, pois ela sabia reconhecer muito bem uma mãe alimentando seu filho, e ninguém lhe tiraria da cabeça que aquela serpente era a mãe da criança sob alguma espécie de feitiço. Após interrogar o grupo a respeito de todos os detalhes, Calisto, o escrivão, estava convencido da maternidade da cobra visto o amor maternal imenso pelo bebê, que todos declaravam ter presenciado.
Durante as semanas seguintes, grupos eram escalados para observar todos os movimentos da cobra e do menino. Nilo encadernava os relatórios dos grupos com o mesmo cuidado que dispensava às plantas medicinais que Virgílio lhe trazia semanalmente. Não levou muito tempo para que todos acreditassem na versão de Berenice a respeito da maternidade do ofídio. Muitos apelaram para Nilo, na esperança de que o químico preparasse algum elixir que desfizesse o encanto, mas Nilo se negava entrar nas artes da feitiçaria, respondendo que isso seria tarefa para a rezadeira.
O padre Clemente e a professora Dagmar fizeram todos os preparativos para o batizado do menino. Seu nome seria Augusto, nome do avô de Virgílio, que desaparecera nas matas à procura de ervas para curar a esposa, que desde que parira o pai de Virgílio, insistia em conversar com as galinhas, e seguir todas as intruções descabidas que as aves lhe davam, inclusive a de proibir que se consumissem ovos em sua casa. O batizado de Augusto seria ministrado na própria clareira, onde a criança vivia com sua mãe, que recebeu o nome de Júlia, em homenagem à viúva de Demósio, o ferreiro. Demósio morrera no ano anterior à beira do rio, em consequência de uma queda que levou sua cabeça de encontro às pedras. Júlia, com quem era recentemente casado, ao saber da morte do marido, se dirigiu ao escritório do escrivão Calisto, doou seus bens à comunidade, e seguiu mata adentro apressada, certa de que seu marido não poderia esperar por muito tempo na eternidade. A última pessoa com quem Júlia falou foi com Madalena, a doceira, de quem comprou um bolo de milho, dizendo que levaria para o marido antes que esfriasse. Na ocasião, Madalena não entendeu, ao certo, o que Júlia temia esfriar, se o bolo, ou o corpo de Demósio. Só mais tarde, quando encontraram o corpo da mulher boiando no rio, é que Madalena entendeu que era o bolo que deveria chegar quente.
Na ocasião do batizado, todos os moradores das redondezas já estavam familiarizados com os novos vizinhos. A mães costumavam deixar seus bebês brincarem com Augusto, e levavam leite e papa para que a serpente pudesse alimentar seu filhinho, sem precisar mais buscar o leite nas mamas de fêmeas selvagens. Algumas mulheres passavam horas conversando com Júlia, que era um ótima ouvinte. Calisto, o escrivão, usava algumas horas do dia pesquisando, em registros de toda natureza, alguma pista que desse indícios da origem de Augusto e sua mãe sucuri, mas não encontrava nada, nem mesmo nas cidades vizinhas.
O estio terminava e logo começariam as chuvas. Preocupados com o futuro dos dois, os moradores da vila construíram uma casa na rua principal, para que Júlia e Augusto pudessem se abrigar. Muitos ainda insitiam em tentar desfazer o feitiço que encantou Júlia, e devolver-lhe a humanidade perdida, mas a maior parte dos moradores já havia se acostumado com a condição ofídica da mãe de Augusto. A bem da verdade, a cobra vinha facilitando uma boa parte das atividades e tarefas do povoado. Sua capacidade de se erguer a regiões mais altas, permitia que Júlia participasse da limpeza das fachadas dos prédios públicos, da manutenção da iluminação das ruas, e da colheita de frutos em árvores. As crianças também adoravam montar a cobra e passear pelas ruas da vila. Muitos diziam que Augusto dominava a linguagem das cobras. Mas o menino nunca quis falar sobre o assunto, ficando isso apenas entre ele, e sua mãe.
Foi difícil convencer o padre Clemente a aceitar que Júlia assistisse às missas. Para isso, foi preciso que Berenice o alertasse dos perigos de ali se encontrar uma cristã enfeitiçada por alguma força do mal, mas abençoada por Deus pela maternidade que desempenhava com louvor. Sendo assim, toda semana, depois que todos entravam na igreja, Júlia se acomodava nos últimos bancos e participava da missa dominical.
Augusto era um rapaz bom e honrado. Seu senso de justiça trazia pessoas das cidades vizinhas em busca de sua ajuda na resolução de situações de impasse. E, como todos já previam, o filho de Júlia tornou-se o dirigente do lugarejo. Muitas moças do lugar sonhavam com o privilégio de desposar Augusto, mas o rapaz era irremediavelmente apaixonado por Lilás, que recebera esse nome devido à estranha coloração do céu durante o seu nascimento. Lilás, moça bonita e prendada, sétima filha de Nilo e Martina, nascera quando o filho mais novo do casal se preparava para servir ao exército na capital. Martina participou da missão do resgate de Augusto, quando ainda acreditavam que o menino corria risco de vida com a cobra. Foi dela o primeiro leite humano levado numa mamadeira, naquela noite, para alimentar a criança. Lilás e Augusto cresceram juntos e partilharam o mesmo leite. Nas noites insones de sua filha, Martina a entregava para que Júlia cuidasse da dor de barriga da menina, que só passava quando a cobra a suspendia numa espécie de laço formado por sua cauda. Quando moça, Lilás confeccionava roupas, toucas e agasalhos em tricô para enfeitar e proteger Júlia do frio. Foi ela que criou o banho semanal de Júlia que era dado pelas crianças da cidade munidas de escovas sabonetes, baldes e mangueiras de água. Depois do banho, as meninas passavam águas-de-cheiro fabricadas por Assunta, no laboratório de Nilo, com ervas que colhiam nas matas que ladeavam a vila.
O amor de Augusto por Lilás o acompanhava desde a infância, quando o menino caçava joaninhas coloridas, e vagalumes no mato, e os colocava em vidros separados para embelezar o quarto de Lilás durante o dia, e iluminá-lo durante a noite. O que o menino não sabia é que sua amada tinha, desde pequena, uma imensa afinidade com os animais, e libertava os insetos pela janela dos fundos de sua casa, pedindo aos bichinhos que prometessem se deixar encontrar por Augusto novamente, para que ele pudesse presenteá-la no dia seguinte.
A paixão de Lilás pelo animais era tanta que, depois de crescida, se tornou a maior amiga de Júlia. As duas ficavam juntas por horas a fio, e nunca se soube o que faziam. Mas foi a moça que alertou a todos do advento da morte de Júlia.
Numa tarde de domingo, depois de ter passado horas com a mãe de Augusto, Lilás se encaminhou à igreja e disse ao padre Clemente que precisava reunir algumas pessoas e fazer uma anunciação. Com a igreja cheia, a moça informou que era chegada a hora da morte da cobra, que, por vinte anos, fizera parte da comunidade. Relatou que havia sido incumbida dos preparativos do funeral que a propria Júlia planejara.
Foi uma festa inesquecível, além da inauguração da área de cultivo de ervas na clareira onde fora residência de Júlia e Augusto nos primeiros meses. Tudo transcorreu como Júlia planejara. Lilás foi diligente na execução de todas as tarefas determinadas pela cobra.Após o enterro, Lilás entregou ao padre Clemente uma caixa onde havia uma carta e um anel. Na carta estava escrito: “Vou de encontro a ele, para que meu filho tenha um pai ao nascer”. O anel tinha as iniciais JL: Júlia Linhares. Júlia Linhares, viúva de Demósio, deixara na beira do rio antes de se afogar, uma caixa com o bilhete e o anel, para que pudessem saber seu paradeiro, caso não encontrassem seu corpo. Estava grávida de seis meses, e ninguém sabia. Acontece que, quando a mulher pulou no rio, suas contrações se iniciaram e, ali dentro da água, nascera Augusto, segundos antes de sua mãe morrer. A cobra, que a tudo assistia, guardou a caixa e cuidou do bebê prematuro, até o dia de sua morte. Augusto decidiu transferir o ossos do casal Linhares para a mesma sepultura de Júlia, sua mãe por amor.
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