(Ver: Capítulo I - Capítulo II - Capítulo III - Capítulo IV- Capítulo V - Capítulo VI - Capítulo VIII)
Os dias quentes e ensolarados facilitavam muito a vida de Madalena, que gostava de deixar as fraldas de seu pai quarando por algumas horas, para que mantivessem a brancura das nuvens numa quente manhã de verão. Filha única do Dr. Josué, conhecido como o “médico do afeto” pelos moradores da cidade, cresceu em meio a desenganos e mortes dos pacientes, que não chegavam a tempo de receberem os abraços terapêuticos de seu pai. Madalena não conheceu sua mãe. Iná, a parteira, quando chegou a sua casa, só tivera tempo de salvar a menina, que ainda aguardava no ventre morto de Corina.
Josué não poupou esforços para dar à filha, uma vida onde a falta da mãe fosse mais suplantada possível. A menina era cercada de afeto por seu pai e pelos quatro avós, que, ainda vivos, moravam com ela. Os avós contavam-lhe histórias do passado, durante todo o tempo, com o objetivo de distrair a menina da pergunta sobre o infortúnio que levara sua mãe. Madalena gostava de trocar as dentaduras dos quatro, que, durante à noite, ficavam em potes de cerâmica com seus nomes gravados, justo para evitar o engano matinal.
A menina se divertia com a babel das dentaduras, e depois sentava para que os avós contassem, durante o café da manhã, a história da invasão marinha, e do abandono dentário que a cidade sofrera muitos anos antes de Madalena nascer. Depois do café, Saturnino, seu avô paterno, a levava para conhecer o grande vaso que continha todos os dentes de todos os antigos moradores da cidade. Contava com saudosismo o quanto tinha sido difícil para eles, a decisão de extraí-los. Mas o medo de morrerem sufocados por algum dente que se soltasse durante a noite, como acontecera com o falecido Osvaldo, falava mais alto, e todos decidiram pelas reluzentes dentaduras. Mesmo por que deveriam estar atentos à invasão dos seres abissais, que queriam levar os potes de cerâmica que as mulheres da cidade faziam, e, por isso, não podiam se preocupar com a perda de dentes, enquanto combatiam na guerra de defesa, que só acontecia durante seus sonhos.
Sempre que contavam essa história para a neta, os quatro podiam sentir o cheiro da canja, que tomava conta da cidade na época em que era o único alimento nutritivo e seguro para os dentes frouxos da população, fazendo com que a cidade batesse os recordes de consumo das aves. Ravena, sua avó materna, acreditava que as galinhas tentaram reagir e se vingar, anos depois, através da avó de Virgílio, dando conselhos descabidos à mulher. Já Osvino, pai da falecida mãe de Madalena, sustentava a crença de que o marinheiro que costumava raptar e desaparecer com as mulheres da cidade, como fez com a gêmea Alves, era o último sobrevivente dos seres abissais, e que, depois da derrota, estaria perdido, pulando de sonho em sonho de mulheres, raptando-as para as profundezas, e escravizando-as na confecção dos potes.
Mas o que Madalena mais gostava era de ver seus avós brigando, querendo deter a versão mais fiel à história contada. Nunca se entendiam nessas horas, e, no final, se ofendiam e ficavam sem se falar diretamente um com o outro, só se comunicando através da menina, até chegar a hora da refeição seguinte, quando agiam como se nada tivesse acontecido. E assim cresceu Madalena, vendo seus amados avós partirem um a um, e deixarem impresso nela, todo afeto que puderam amealhar durante a vida, e toda sabedoria que traziam de tantas gerações de antepassados.
Os limites impostos pela condição de ancião a Josué inspiraram a filha a tornar em infância e velhice de seu pai. Madalena pintou nas paredes do quarto do pai, árvores frutíferas, céu azul, flores, animaizinhos, e tudo o quanto pudesse dar ao quarto o ambiente de frescor, alegria e renovação. Josué pouco podia se mover, devido às complicações reumáticas e artrites que se instalaram nas juntas do médico. As refeições tinham que ser levadas à sua boca por Madalena, que cuidava do pai como de um bebê. O doutor parecia gostar disso. A capacidade de fala, o raciocínio e a memória de Josué se mantiveram preservados.
Madalena convenceu o pai a substituir, em suas falas, os verbos conjugados no passado (condizentes a um octagenário), por conjugação no futuro (típica das criancinhas). Sendo assim, quando deveria dizer que, enquanto médico, prescrevia aos clientes abraços terapêuticos, Josué substituía por “quando eu for médico, prescreverei para os meus pacientes, abraços terapêuticos”. Levou algum tempo para o médico se habilitar na tarefa da conversão verbal, mas achou tão divertido, que dominava a técnica com destreza, e até se divertia com a expressão daquelas pessoas que vinham à sua casa conversar.
Numa manhã de domingo, quando voltava para casa após a missa, disse à filha: - Preciso de um escrevedor! Não conseguirei reter meu livro por muito tempo na memória. As palavras se perdem como pérolas de um colar que arrebenta, enquanto sua dona baila no salão. Lá estava Madalena, que fazia todas as vontades do pai, à procura de um escrevedor para o médico. O livro de Josué se chamaria “O Persistente Passado Presente No Futuro”.
Durante o percurso, o médico lembrava o momento em que o livro fora concebido. Folheava um álbum de retratos, quando se deparou com a foto de um amigo que se encontrava enfermo, e, tomado por uma intensa consternação, pensou: “Eis a futura foto de um antepassado”. E, olhando para sua própria foto, constatou que, à revelia do tempo, ele também seria um antepassado, e exclamou em voz alta: - Oh! Deus, eu sou o pretérito do futuro!
A tarefa de procurar um escrevedor para o livro de seu pai levou Madalena às ruas. Seu relacionamento com as pessoas da cidade, na maioria das vezes, se limitava à missa dominical, à venda de doces, e ao ofício de auxiliar seu pai nos atendimentos que fazia, quando ainda trabalhava. Pela primeira vez, Madalena olhou o povoado como algo real, pois, até então, a cidade e seus moradores existiam, para ela, como cenário e personagens das estórias que seus avós contavam. Caminhou até o fim da rua principal, onde ficava a biblioteca, antiga residência de Augusto e sua mãe, a cobra Júlia. Durante o trajeto, passou pela praça, que, segundo seus avós, teria sido o local onde a população se reunia, durante as noites insones, anos atrás, antes de solucionarem o problema da epidemia de queda dos dentes. Lembrou do pote de cerâmica que estava guardado em sua casa, junto com todas as coisas de seus avós, e pensou: “Foi real...”. Chegando à biblioteca, Madalena parou para admirar a tela que Fanuel, o pintor, fazia no extenso muro branco que cercava a casa. Pensou: Por que não pintar também a invasão marinha e a epidemia de queda dos dentes? Enquanto criava em sua tela mental a imagem dos seres marinhos invasores, ouviu Elpídia que, de pé na porta de entrada, cumprimentava a visitante, com um sorriso anfitrião e acolhedor nos lábios. Madalena entrou e, durante um copo de mate gelado, expôs o problema que à trouxera lá.
Depois de ouvir o relato da doceira, Elpídia não tinha dúvidas de que a pessoa mais indicada para a tarefa de escrevedor do livro seria Abiné, que terminava, nessa manhã, a pintura do último cômodo da casa. Madalena ficou entusiasmada com a idéia de Elpídia. Nada melhor do que um poeta para escrever o relato de seu pai, ainda mais se tratando de uma pessoa que recebera, desde criança, os abraços terapêuticos do doutor.
Elpídia chamou Abiné à sua salinha, e Madalena fez ao bêbado, a proposta de trabalho. Abiné fez duas imposições, para fazer a escrita de Josué: que pudesse levar consigo, Assunta, sua amada; e que Madalena fizesse sempre guloseimas para o lanche. A mulher não só aceitou a proposta, como também se sentiu envaidecida pela escolha de Abiné. Ao sair da biblioteca, ficou por mais alguns minutos observando as mãos de Fanuel, que, com o pincel, desenhava a vida daquele lugar enterrado no fim do mundo, e, ao mesmo tempo, prescindindo dele, por que a cidade não precisava do mundo para existir. As estrelas faziam mais falta ao povoado, do que os demais continentes e suas populações.
Enquanto dava banho em seu pai, a moça contava que, na noite seguinte, começariam as sessões de escrita em sua casa, e pedia ao pai que escolhesse sempre o lanche que seria servido durante as reuniões literárias. O doutor estava satisfeito! Poderia contar ao mundo tudo o que descobrira sobre a dança que o tempo fazia em torno dos Homens, sobre a existência de três em um só, e sobre a Santísima Trindade do Tempo,: Passado, Presente, Futuro. A idéia de rever o doutor também deixava Abiné entusiasmado, e Assunta adorou poder contar com uma programação tão agradável todas as noites.
Madalena deitou seu pai na cama, deu-lhe a chupeta para proteger os dentes do bruxismo, e beijou-o na testa, como fazem as mães zelosas. Enquanto olhava o pai, que ingressava num sono profundo, sussurou: - Precisamos mais das estrelas, do que dos continentes e suas populações...
Josué não poupou esforços para dar à filha, uma vida onde a falta da mãe fosse mais suplantada possível. A menina era cercada de afeto por seu pai e pelos quatro avós, que, ainda vivos, moravam com ela. Os avós contavam-lhe histórias do passado, durante todo o tempo, com o objetivo de distrair a menina da pergunta sobre o infortúnio que levara sua mãe. Madalena gostava de trocar as dentaduras dos quatro, que, durante à noite, ficavam em potes de cerâmica com seus nomes gravados, justo para evitar o engano matinal.
A menina se divertia com a babel das dentaduras, e depois sentava para que os avós contassem, durante o café da manhã, a história da invasão marinha, e do abandono dentário que a cidade sofrera muitos anos antes de Madalena nascer. Depois do café, Saturnino, seu avô paterno, a levava para conhecer o grande vaso que continha todos os dentes de todos os antigos moradores da cidade. Contava com saudosismo o quanto tinha sido difícil para eles, a decisão de extraí-los. Mas o medo de morrerem sufocados por algum dente que se soltasse durante a noite, como acontecera com o falecido Osvaldo, falava mais alto, e todos decidiram pelas reluzentes dentaduras. Mesmo por que deveriam estar atentos à invasão dos seres abissais, que queriam levar os potes de cerâmica que as mulheres da cidade faziam, e, por isso, não podiam se preocupar com a perda de dentes, enquanto combatiam na guerra de defesa, que só acontecia durante seus sonhos.
Sempre que contavam essa história para a neta, os quatro podiam sentir o cheiro da canja, que tomava conta da cidade na época em que era o único alimento nutritivo e seguro para os dentes frouxos da população, fazendo com que a cidade batesse os recordes de consumo das aves. Ravena, sua avó materna, acreditava que as galinhas tentaram reagir e se vingar, anos depois, através da avó de Virgílio, dando conselhos descabidos à mulher. Já Osvino, pai da falecida mãe de Madalena, sustentava a crença de que o marinheiro que costumava raptar e desaparecer com as mulheres da cidade, como fez com a gêmea Alves, era o último sobrevivente dos seres abissais, e que, depois da derrota, estaria perdido, pulando de sonho em sonho de mulheres, raptando-as para as profundezas, e escravizando-as na confecção dos potes.
Mas o que Madalena mais gostava era de ver seus avós brigando, querendo deter a versão mais fiel à história contada. Nunca se entendiam nessas horas, e, no final, se ofendiam e ficavam sem se falar diretamente um com o outro, só se comunicando através da menina, até chegar a hora da refeição seguinte, quando agiam como se nada tivesse acontecido. E assim cresceu Madalena, vendo seus amados avós partirem um a um, e deixarem impresso nela, todo afeto que puderam amealhar durante a vida, e toda sabedoria que traziam de tantas gerações de antepassados.
Os limites impostos pela condição de ancião a Josué inspiraram a filha a tornar em infância e velhice de seu pai. Madalena pintou nas paredes do quarto do pai, árvores frutíferas, céu azul, flores, animaizinhos, e tudo o quanto pudesse dar ao quarto o ambiente de frescor, alegria e renovação. Josué pouco podia se mover, devido às complicações reumáticas e artrites que se instalaram nas juntas do médico. As refeições tinham que ser levadas à sua boca por Madalena, que cuidava do pai como de um bebê. O doutor parecia gostar disso. A capacidade de fala, o raciocínio e a memória de Josué se mantiveram preservados.
Madalena convenceu o pai a substituir, em suas falas, os verbos conjugados no passado (condizentes a um octagenário), por conjugação no futuro (típica das criancinhas). Sendo assim, quando deveria dizer que, enquanto médico, prescrevia aos clientes abraços terapêuticos, Josué substituía por “quando eu for médico, prescreverei para os meus pacientes, abraços terapêuticos”. Levou algum tempo para o médico se habilitar na tarefa da conversão verbal, mas achou tão divertido, que dominava a técnica com destreza, e até se divertia com a expressão daquelas pessoas que vinham à sua casa conversar.
Numa manhã de domingo, quando voltava para casa após a missa, disse à filha: - Preciso de um escrevedor! Não conseguirei reter meu livro por muito tempo na memória. As palavras se perdem como pérolas de um colar que arrebenta, enquanto sua dona baila no salão. Lá estava Madalena, que fazia todas as vontades do pai, à procura de um escrevedor para o médico. O livro de Josué se chamaria “O Persistente Passado Presente No Futuro”.
Durante o percurso, o médico lembrava o momento em que o livro fora concebido. Folheava um álbum de retratos, quando se deparou com a foto de um amigo que se encontrava enfermo, e, tomado por uma intensa consternação, pensou: “Eis a futura foto de um antepassado”. E, olhando para sua própria foto, constatou que, à revelia do tempo, ele também seria um antepassado, e exclamou em voz alta: - Oh! Deus, eu sou o pretérito do futuro!
A tarefa de procurar um escrevedor para o livro de seu pai levou Madalena às ruas. Seu relacionamento com as pessoas da cidade, na maioria das vezes, se limitava à missa dominical, à venda de doces, e ao ofício de auxiliar seu pai nos atendimentos que fazia, quando ainda trabalhava. Pela primeira vez, Madalena olhou o povoado como algo real, pois, até então, a cidade e seus moradores existiam, para ela, como cenário e personagens das estórias que seus avós contavam. Caminhou até o fim da rua principal, onde ficava a biblioteca, antiga residência de Augusto e sua mãe, a cobra Júlia. Durante o trajeto, passou pela praça, que, segundo seus avós, teria sido o local onde a população se reunia, durante as noites insones, anos atrás, antes de solucionarem o problema da epidemia de queda dos dentes. Lembrou do pote de cerâmica que estava guardado em sua casa, junto com todas as coisas de seus avós, e pensou: “Foi real...”. Chegando à biblioteca, Madalena parou para admirar a tela que Fanuel, o pintor, fazia no extenso muro branco que cercava a casa. Pensou: Por que não pintar também a invasão marinha e a epidemia de queda dos dentes? Enquanto criava em sua tela mental a imagem dos seres marinhos invasores, ouviu Elpídia que, de pé na porta de entrada, cumprimentava a visitante, com um sorriso anfitrião e acolhedor nos lábios. Madalena entrou e, durante um copo de mate gelado, expôs o problema que à trouxera lá.
Depois de ouvir o relato da doceira, Elpídia não tinha dúvidas de que a pessoa mais indicada para a tarefa de escrevedor do livro seria Abiné, que terminava, nessa manhã, a pintura do último cômodo da casa. Madalena ficou entusiasmada com a idéia de Elpídia. Nada melhor do que um poeta para escrever o relato de seu pai, ainda mais se tratando de uma pessoa que recebera, desde criança, os abraços terapêuticos do doutor.
Elpídia chamou Abiné à sua salinha, e Madalena fez ao bêbado, a proposta de trabalho. Abiné fez duas imposições, para fazer a escrita de Josué: que pudesse levar consigo, Assunta, sua amada; e que Madalena fizesse sempre guloseimas para o lanche. A mulher não só aceitou a proposta, como também se sentiu envaidecida pela escolha de Abiné. Ao sair da biblioteca, ficou por mais alguns minutos observando as mãos de Fanuel, que, com o pincel, desenhava a vida daquele lugar enterrado no fim do mundo, e, ao mesmo tempo, prescindindo dele, por que a cidade não precisava do mundo para existir. As estrelas faziam mais falta ao povoado, do que os demais continentes e suas populações.
Enquanto dava banho em seu pai, a moça contava que, na noite seguinte, começariam as sessões de escrita em sua casa, e pedia ao pai que escolhesse sempre o lanche que seria servido durante as reuniões literárias. O doutor estava satisfeito! Poderia contar ao mundo tudo o que descobrira sobre a dança que o tempo fazia em torno dos Homens, sobre a existência de três em um só, e sobre a Santísima Trindade do Tempo,: Passado, Presente, Futuro. A idéia de rever o doutor também deixava Abiné entusiasmado, e Assunta adorou poder contar com uma programação tão agradável todas as noites.
Madalena deitou seu pai na cama, deu-lhe a chupeta para proteger os dentes do bruxismo, e beijou-o na testa, como fazem as mães zelosas. Enquanto olhava o pai, que ingressava num sono profundo, sussurou: - Precisamos mais das estrelas, do que dos continentes e suas populações...
Continua...

1 comentários:
Helena escreve do jeito que fala: corporifica as palavras, cuidadosa e meticulosamente, dando-lhes nuances, cores, gestos, cheiros, sabores, vozes e silêncio... É uma autêntica contadora de estórias (ou serão histórias?)... Lendo e relendo Helena, chego imaginá-la criança, descobrindo-se numa cidade, num bairro, numa rua, numa casa... No quintal dos fundos da casa, descobre, no muro, um buraco corroído pelo tempo (o mesmo tempo que tudo corrói), por onde enxerga o mundo... Helena cresce, silenciosa e visionária, vislumbrando a humanidade, pela fresta rente ao muro... Sabe que não precisa mais do muro, que já não se mostra tão alto, imponente... Mas isso é mero detalhe, para Helena menina contadora de estórias, que se perde e se acha, diante de retrovisores e geladeiras, bailes e amores, bibliotecas e quintais, tempo e espaço, medos e desejos humanos... A cidade, o bairro, a rua, a casa, o quintal, até o muro (mais ainda) corroído pelo tempo permanecem lá, enquanto Helena viaja, e nos faz viajar...
...eis um dos teus livros, Helena - o primeiro a contar tuas tantas vidas...
beijo da Nara
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