Quando perdemos a pessoa amada (ou acreditamos que perdemos), mais do que a perda da pessoa, sofremos a perda de nós mesmos nela. Quando temos alguém que amamos, e nos ama, esse alguém se torna um espelho, onde podemos ver no reflexo de nós mesmos, uma pessoa bonita, querida, amada. O ser amado nos dá uma imagem bonita de nós e isso é bom, a gente se ama um pouco mais com isso. Quando perdemos o ser amado, é como se perdêssemos a nossa imagem linda que tanto amávamos. É como se o espelho se virasse de costas, e nós quiséssemos desesperadamente virar novamente a face para nós. É difícil sair por aí sabendo que nossa imagem anda perdida a procura de nós, ou que nós mesmos andamos por aí à procura do nosso reflexo. E quando isso acontece, temos a sensação de estarmos passando ao largo das coisas do mundo e da vida, como se não mais fizéssemos parte de absolutamente nada. Aos poucos, vamos nos desapegando de tudo e de todos como se só existisse a nossa orfandade em relação à nossa alma perdida no espelho do outro. Mas tudo isso passa, creia em mim.
Como a dor de parto, perder um amor é nascer pra uma nova vida, e nascer dói. Perder um amor é termos que trilhar novas estradas e redesenhar sozinhos nosso futuro, e projetos outrora feitos a dois. Isso dói e assusta demais, como nos doeu, e não lembramos, no dia em que fomos postos no mundo desamparados, onde só buscávamos uma única coisa: as manifestações maternas.
Meu amigo, a nossa capacidade de adaptação é tamanha que pouco sabemos do que podemos resistir. Sua alma foi ferida e está inflamada e inchada, mas acredite, ela vai desinchar e ficará apenas uma cicatriz para que você possa sempre lembrar o quanto somos frágeis e fortes ao mesmo tempo, servindo de estímulo para o enfrentamento de novas vicissitudes.
Torço pra que aconteça o melhor pra você. Mas o melhor, lembre-se, não temos a onipotência de saber o que é.
Já diz o velho ditado: "O que é do homem, o bicho não come"... O que tiver que ser será.
Um beijo da Helena
3 comentários:
Puxa Claudinha... esse texto não foi feito pra mim, mas tbem caiu como uma luva...em poucas palavras vc. diz mt... Parabéns e Obrigado por sua amizade "Helena"! Bjs
Resposta de um amigo à carta...
Nada como a lucidez de espírito para escrever palavras tão estimulantes a um amigo... Concordo que dor acompanha o “descortinar” de um novo “grande” momento em nosso “devir”. Grande não em volume ou extensão... grande em importância ou, metaforicamente me expressando, em profundidade... Um novo mergulho nas águas do existir... Como cada vez mais fundo... mais ousado... maior o frio inicial. Mergulhar onde jamais nos aventuramos antes... descobrir novas paisagens... depurar a visão... sair da obviedade da claridade... abandonar o tépido conforto de uma homeostática cotidianicidade... Nos afastarmos do “sol” social para ingressarmos no “espaço interior”... Cada vez mais profundamente... onde, para enxergarmos, teremos que desenvolver luz própria... típica dos seres das profundezas... Nada de ver com olhos emprestados ou roubados... Nada de sentir com sentidos de outrém. Nada de metades... Nem “caras” e nem “baratas”... Unicidade em si mesmo, isso sim... Um espelhar-se em si... Um egoísmo salutar, antes de um egocentrismo... Um voltar a si... Um estar em si... Libertar-se de mais alguns grilhões que já se afundavam na própria carne... Que eram mais do que assimilados pelo corpo, assimiladores do espírito... Ainda que a disjunção cartesiana não seja tão degustável pelo meu crítico paladar, à ela apelo como um recurso fortalecedor à proeminência cognitiva, sem a qual nosso comportamento se assemelharia ao de alguém em estado comatoso. Assim... um viva a razão! Ou melhor, à meta-razão! A razão das razões! Ao que nos faz pensar... Ao que nos move rumo ao esclerimento... À não inércia! Um viva à angústia! Que, como diz Comte-Sponville, é o motor de nossa ação! Um viva à dor! O alarme que nos desentorpece e nos faz sentirmos vivos!
Resposta de um amigo à carta...
Nada como a lucidez de espírito para escrever palavras tão estimulantes a um amigo... Concordo que dor acompanha o “descortinar” de um novo “grande” momento em nosso “devir”. Grande não em volume ou extensão... grande em importância ou, metaforicamente me expressando, em profundidade... Um novo mergulho nas águas do existir... Como cada vez mais fundo... mais ousado... maior o frio inicial. Mergulhar onde jamais nos aventuramos antes... descobrir novas paisagens... depurar a visão... sair da obviedade da claridade... abandonar o tépido conforto de uma homeostática cotidianicidade... Nos afastarmos do “sol” social para ingressarmos no “espaço interior”... Cada vez mais profundamente... onde, para enxergarmos, teremos que desenvolver luz própria... típica dos seres das profundezas... Nada de ver com olhos emprestados ou roubados... Nada de sentir com sentidos de outrém. Nada de metades... Nem “caras” e nem “baratas”... Unicidade em si mesmo, isso sim... Um espelhar-se em si... Um egoísmo salutar, antes de um egocentrismo... Um voltar a si... Um estar em si... Libertar-se de mais alguns grilhões que já se afundavam na própria carne... Que eram mais do que assimilados pelo corpo, assimiladores do espírito... Ainda que a disjunção cartesiana não seja tão degustável pelo meu crítico paladar, à ela apelo como um recurso fortalecedor à proeminência cognitiva, sem a qual nosso comportamento se assemelharia ao de alguém em estado comatoso. Assim... um viva a razão! Ou melhor, à meta-razão! A razão das razões! Ao que nos faz pensar... Ao que nos move rumo ao esclerimento... À não inércia! Um viva à angústia! Que, como diz Comte-Sponville, é o motor de nossa ação! Um viva à dor! O alarme que nos desentorpece e nos faz sentirmos vivos!
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