"O maior mentiroso é aquele que finge acreditar nas mentiras que os outros dizem"
Helena
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Farelos...
"A maior alegria dos pais são os netos"
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"A maior felicidade dos pais, são as lembranças"
Helena
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"A maior felicidade dos pais, são as lembranças"
Helena
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Meu amigo HSTR - Helman
(ou... Entendi, Mas Não Concordo)
( a respeito do seu comentário no meu texto postado em 22 de abril de 2009)
Creio meu amigo, que a loucura esteja presente em toda e qualquer criatura humana. O que difere de uma pessoa para a outra, é o quanto ela já rompeu com aquela parte que chamam de "sanidade". É fato que quando ela romper definitivamente ela nunca mais falará a respeito de sua própria loucura , visto que este será seu estado natural, não lhe restando a crítica "sã. A questão, na minha opinião é claro, não é o quanto somos loucos, mas sim o quanto ainda temos de "são" para administrarmos satisfatoriamente, essas nossas duas faces, e nos tornarmos, ao menos, toleráveis socialmente. Quanto ao "enaltecer a loucura", citado no seu comentário, isso vai depender das lentes que se usa quando se lê um texto. Onde você enxergou "enaltecimento" eu escrevi “dor”. Não falávamos ali sobre "loucos" vítimas de transtornos patológicos. Falávamos, sim, de loucuras internas. Loucuras internas são aquelas que persistiram por não conseguirmos dominá-las no árduo combate que travamos durante a construção de nossas personalidades. Durante o processo de nossa formação, nossas figuras parentais, nos injetam doses maciças de algo que não somos nós e, durante esse processo, precisamos estar todo o tempo em conflito entre o “eu” e o “eu do outro”. É claro que não saímos impunes dessa batalha! Criamos um mundo de fantasias para que possamos transitar entre essas duas dimensões do “eu”. A essas fantasias dou o nome de “loucuras”. Aquilo que muitas vezes rotulamos em outra pessoa como um “desagradável comportamento”, muitas vezes é um dos aspectos da sua (dela) loucura. Quando, por amor, tentamos nos adequar ou, até, adotarmos idêntico comportamento (que não é naturalmente nosso), pode vir a ocorrer aquilo que menciono no meu texto, que foi a razão do seu comentário postado. Confesso que estranhei a sua escolha nos adjetivos usados em seu comentários. Mais pareciam comentários de alguém indignado com algo tão simples e comum. Talvez sua própria “loucura” seja totalmente avessa e esse tipo de uso do termo, julgado por você, como algo “clichetizado”, quando sua crítica poderia ter, de minha parte, o mesmo adjetivo. Mas sou obrigada a concordar quando você fala do que há de poético nesse tipo de loucura, mas até mesmo sobre isso eu gostaria de dizer que, mais uma vez na minha opinião, não existe poesia sem loucura nem a loucura (seja ela qual for) sem poesia, pois ambas se encontram emaranhadas entre si no nosso mundo interno chamado sensibilidade. Talvez tudo que falei seja clichê, ou talvez sejam clichês seus comentários sobre tudo o que falei, mas, parafraseando o louco-poeta, William Shakespeare, “Há mais loucura no mundo ‘são’ do que supõe a sua ‘sã’ filosofia”
Com carinho
Helena
Obs.: acho que já podemos dizer que retornamos às nossas trocas (risos carinhosos)
Com carinho
Helena
Obs.: acho que já podemos dizer que retornamos às nossas trocas (risos carinhosos)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
A DESCOBERTA DO ÓBVIO
"O amor é um colírio que cega."
Helena
(que coisinha mais clichê!)
"Não tente acompanhar minha loucura, você vai acabar se perdendo."
Helena
(bom, agora melhorou um pouco!)
Helena
(que coisinha mais clichê!)
"Não tente acompanhar minha loucura, você vai acabar se perdendo."
Helena
(bom, agora melhorou um pouco!)
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Alguma coisa me fez lembrar ....
Eu escrevo para quem?
Voltei hoje a esse blog onde, mais me escondo do que me exponho.
Voltei por que reparei, por acidente, que havia um novo comentário, nos meus textos.
Gozado como as coisas são! De repente lembrei que sou escritora. De fato, não me acostumo com essa idéia de ser escritora, mas você me lembrou disso postando no meu blog. Tenho o hábito de me perder em meus pensamentos com tanta dedicação que minhas mãos e disposição não conseguem acompanhar escrevendo. Outro dia eu estava pensando no que Adriana Calcanhoto falou na letra de sua música "Esquadros": "Eu canto para quem?". Eu poderia dizer o mesmo "Eu escrevo para quem?", ou, "Eu escrevo por que", ou, "Eu escrevo pra que? "... Tive uma grande amiga (ela era pequenina no tamanho, mas grande demais pro meu coração) ela tentou me desvendar... Tarefa árdua por certo, pois sempre essa tentativa nos conduz para o julgamento ou, pior, para o veredicto. Talvez ela, por amor, tenha tentado acompanhar minha loucura e deixou de lado a dela, e posso garantir: loucura abandonada vira um mostro que, na maioria das vezes, devora tudo ao seu redor. Sim ela seguiu a minha loucura e se perdeu e não se achou ali. E, perdida, com medo, desesperada, não conseguia voltar... e me culpou por isso. Retornando às pressas pra sua própria loucura ela me entrega os resultados de sua aventura, me apresentando a uma outra dimensão de mim mesma, fruto da sua própria imaginação, e criado na experiência insana de tentar deixar de ser ela. Sim, ela deixou de ser ela, pois precisou largar sua pesada bagagem pelo caminho enquanto me seguia tentando me acompanhar em círculos, por que loucura caminha em círculos. Foi quando de repente ela percebeu que girava insanamente num carrossel que não era o dela e, por isso, estava incapacitada de desligar pra descer e tomar ar. Ela insistiu em permanecer na roda, tenho certeza, toda vez que o giro lançava-a (lançava-a que palavra ridícula! eu poderia escrever lançava ela), ela pulava de volta na tentativa recursiva de desligar, e examinar meticulosamente as partes da engrenagem. Por fim, cansada e frustrada, antes do seu salto final, deixou uma granada de sentimentos contidos na esperança de destruir de vez o carrossel, e jamais correr o risco de tentar voltar. Os danos da explosão não foram capazes de parar a roda, os danos não atigiram o eixo, que sou eu... e a roda continua girando e girando e girando e girando e girando ... até quando?
Voltei hoje a esse blog onde, mais me escondo do que me exponho.
Voltei por que reparei, por acidente, que havia um novo comentário, nos meus textos.
Gozado como as coisas são! De repente lembrei que sou escritora. De fato, não me acostumo com essa idéia de ser escritora, mas você me lembrou disso postando no meu blog. Tenho o hábito de me perder em meus pensamentos com tanta dedicação que minhas mãos e disposição não conseguem acompanhar escrevendo. Outro dia eu estava pensando no que Adriana Calcanhoto falou na letra de sua música "Esquadros": "Eu canto para quem?". Eu poderia dizer o mesmo "Eu escrevo para quem?", ou, "Eu escrevo por que", ou, "Eu escrevo pra que? "... Tive uma grande amiga (ela era pequenina no tamanho, mas grande demais pro meu coração) ela tentou me desvendar... Tarefa árdua por certo, pois sempre essa tentativa nos conduz para o julgamento ou, pior, para o veredicto. Talvez ela, por amor, tenha tentado acompanhar minha loucura e deixou de lado a dela, e posso garantir: loucura abandonada vira um mostro que, na maioria das vezes, devora tudo ao seu redor. Sim ela seguiu a minha loucura e se perdeu e não se achou ali. E, perdida, com medo, desesperada, não conseguia voltar... e me culpou por isso. Retornando às pressas pra sua própria loucura ela me entrega os resultados de sua aventura, me apresentando a uma outra dimensão de mim mesma, fruto da sua própria imaginação, e criado na experiência insana de tentar deixar de ser ela. Sim, ela deixou de ser ela, pois precisou largar sua pesada bagagem pelo caminho enquanto me seguia tentando me acompanhar em círculos, por que loucura caminha em círculos. Foi quando de repente ela percebeu que girava insanamente num carrossel que não era o dela e, por isso, estava incapacitada de desligar pra descer e tomar ar. Ela insistiu em permanecer na roda, tenho certeza, toda vez que o giro lançava-a (lançava-a que palavra ridícula! eu poderia escrever lançava ela), ela pulava de volta na tentativa recursiva de desligar, e examinar meticulosamente as partes da engrenagem. Por fim, cansada e frustrada, antes do seu salto final, deixou uma granada de sentimentos contidos na esperança de destruir de vez o carrossel, e jamais correr o risco de tentar voltar. Os danos da explosão não foram capazes de parar a roda, os danos não atigiram o eixo, que sou eu... e a roda continua girando e girando e girando e girando e girando ... até quando?
quarta-feira, 19 de março de 2008
Sindicato das ONGS - Helena
Lamento que toda manifestação de ONGs e Sindicatos no RJ (fui diretora de projetos de uma delas) tente despertar a consciência do cidadão, quando precisamos mesmo é de dispositivos, que, antes de mais nada, construam essa consciência. Passeatas, músicas, coreografias, frases de efeito, carros alegóricos... de nada servem. A gente desperta o que existe, e uma grande maioria de nossos conterrâneos (moro nos USA, mas sou carioca) não possui, ainda, uma consciência de cidadão com 'quereres', 'deveres' e 'mereceres'.
Dessa forma, a manifestação paira sob a atmosfera do 'foi bom não foi?', ou seja, a aderência, dos que assistem é de 100%, mas somente enquanto dura. Recolhido o material de manifestação, ocorre o fenômeno do recolhimento do desejo dos participantes. Tudo acaba, então, num barzinho, onde os integrantes e organizadores se encontram para beberem os grandes momentos da manifestação, e comerem a ilusão, a esperança de que tenha adiantado alguma coisa.
Há países em que uma manifestação desse tipo é capaz de mobilizar, não só a opinião publica, como também, a decisão dos governantes, motivada pelo constrangimento, mas no Brasil, outros expedientes são necessários. Quais? Não sei, mas sei que não são esses. Quem acaba ganhando, com isso tudo, são as papelarias, com vendas de cartolinas, hidrocores, e outros.
Sempre fui da opinião de que, para coisas desse tipo, deveria ser usada mais agressividade, mais contundência. Esses atos não podem pairar na esfera do sutil. Eventos assim não entram na memória do país, apesar de perdurarem na lembrança do mesmo. Há que se criar um grupo forte de combate, não à criminalidade urbana, mas sim, à criminalidade política, onde governantes prometem a segurança, e, por ter faltado a segurança, eles então passam a prometer providências, e essas nunca acontecem. Sendo assim, no âmbito do preventivo e do corretivo, nada é feito. Só um sentimento faria o gorvernante de fato investir em suas promessas: o medo. Resta a pergunta: Como amedrontá-los?
Dessa forma, a manifestação paira sob a atmosfera do 'foi bom não foi?', ou seja, a aderência, dos que assistem é de 100%, mas somente enquanto dura. Recolhido o material de manifestação, ocorre o fenômeno do recolhimento do desejo dos participantes. Tudo acaba, então, num barzinho, onde os integrantes e organizadores se encontram para beberem os grandes momentos da manifestação, e comerem a ilusão, a esperança de que tenha adiantado alguma coisa.
Há países em que uma manifestação desse tipo é capaz de mobilizar, não só a opinião publica, como também, a decisão dos governantes, motivada pelo constrangimento, mas no Brasil, outros expedientes são necessários. Quais? Não sei, mas sei que não são esses. Quem acaba ganhando, com isso tudo, são as papelarias, com vendas de cartolinas, hidrocores, e outros.
Sempre fui da opinião de que, para coisas desse tipo, deveria ser usada mais agressividade, mais contundência. Esses atos não podem pairar na esfera do sutil. Eventos assim não entram na memória do país, apesar de perdurarem na lembrança do mesmo. Há que se criar um grupo forte de combate, não à criminalidade urbana, mas sim, à criminalidade política, onde governantes prometem a segurança, e, por ter faltado a segurança, eles então passam a prometer providências, e essas nunca acontecem. Sendo assim, no âmbito do preventivo e do corretivo, nada é feito. Só um sentimento faria o gorvernante de fato investir em suas promessas: o medo. Resta a pergunta: Como amedrontá-los?
domingo, 24 de fevereiro de 2008
O Enterro da Cobra (Capítulo VIII) - Helena
(Ver: Capítulo I - Capítulo II - Capítulo III - Capítulo IV- Capítulo V - Capítulo VI - Capítulo VII)
O calor era tanto, que Elza reforçou o suprimento de água de Virgílio, antes que ele entrasse no trem que o levaria à capital, atrás de evidências para sua pesquisa científica. Magali conseguira, com sua heteronônima, as referências de uma boa e limpa pousada perto do porto. Magali Bueno e seu amante Otávio ainda viviam juntos. Desde que ficara viúvo, Otávio havia assumido o romance com a vedete, que agora trabalhava como empresária de atrizes amadoras que desejassem chegar aos palcos. Além de agenciar as atrizes, Magali Bueno produzia pequenos musicais, que eram apresentados em clubes e restaurantes de luxo. O casal estaria na estação esperando por Virgílio, para levá-lo ao local onde ficaria hospedado.
Durante a viagem, Virgílio fez uma relação detalhada de todos os animais domésticos de sua cidade, e de todas as pessoas que faleceram por causas não muito naturais. Ao lado de cada nome, ele fazia anotações das poucas peculiaridades que pudesse lembrar sobre o indivíduo, ou sobre o animal, em questão. Sentia falta da gêmea nessas horas, pois a menina tinha um senso de relação muito bom, e, onde existissem paralelos, ela os encontraria.
O calor era insuportável. Virgílio preferiu abrir a janela, para sentir o vento no rosto, mesmo sabendo que o barulho do apito do trem atrapalharia sua concentração de cientista. Olhou a paisagem, e pensou no que Elza estaria fazendo naquele momento. Foi tomado por uma imensa ternura, quando lembrou de todos esses anos em que ela o acompanhava em seus sonhos, e em todas as desilusões. Elza, mulher de pouco falar, mas dotada de um bom senso desmedido, era capaz de acabar com uma argumentação de cientistas com poucas palavras, e, às vezes, até mesmo com um olhar silencioso. O que faria uma mulher, tão lúcida e tão certa de si, aceitar viver uma vida rotineira e calma? Virgílio podia afirmar que todas as suas decisões bem tomadas foram, na verdade, sugeridas por sua mulher, que nunca reclamou os louros da vitória. A única coisa que Elza temia era morrer como o seu bisavô, vítima de sufocamento, causado por um molar que fora engolido pelo homem, durante o sono. Por não ter tido filhos, a mulher tratava todas as crianças da cidade como suas, mas mantendo sempre a austeridade e firmeza, que fizeram parte de seu temperamento.
O sol das onze horas entrava direto pelo vitral da igreja, e atingia o confessionário, onde o padre Clemente, encharcado de suor, ignorava o calor, ouvindo com interesse e estranheza a confissão da gêmea Alves, que vinha sendo atormentada ultimamente pelo desejo incontrolável de encontrar e matar o marinheiro que transformara sua irmã Alena em batráquio. Conforme a moça relatava a sua atual condição de irmã de um sapo medroso de chuvas e guloso de doces, o padre ia se inteirando das pesquisas que Virgílio vinha fazendo. Ao finalizar sua confissão, Lena foi obrigada a ouvir uma repreensão do padre, que, tentando se controlar, dizia, com a voz contida, que os animais não possuíam alma, muito menos alma de pessoas que já morreram. Afirmava que essa teoria maluca de Virgílio misturava crenças espíritas, por considerar reencarnação, e pagãs, por dar alma aos animais irracionais. Isso, sem falar em involução das almas humanas para almas de bichos. O pároco, cada vez mais enfurecido, pensava em uma forma de falar abertamente com Virgílio, sem que comprometesse o segredo da confissão de Lena. Depois de dada a benção, o padre se sentou no banco de pedra no pomar da igreja, e ficou ali por mais de uma hora engendrando meios diferentes de levar Virgilio a expor suas pesquisas, e assim poderia, de forma aberta, impedir as loucuras hereges do professor. Atormentado, o vigário lamentava ter que lidar com uma rezadeira, e agora com um pesquisador tresloucado que conseguia ir de encontro a todas as religiões e crenças, com uma teoria sem procedência alguma. Quando a professora Dagmar chamou-o para o almoço, o padre já estava decidido a pedir a ajuda de Augusto. Mas, enquanto comia, ficou certo de que não pediria ajuda a ninguém, e faria tudo sozinho.
Enquanto o trem se aproximava da estação, Virgílio tentou reconhecer de longe o rosto de Magali e Otávio, mas foi incapaz, não só por ambos já apresentarem a fisionomia visitada pelo tempo, mas também pelo fato de Otávio estar fazendo uso de cadeira de rodas, devido a complicações reumáticas. Ao desembarcar, apesar das modificações registradas na aparência dos amigos, Virgílio sentiu como se estivesse fazendo uma viagem no tempo. O professor, inspirado pelas lembranças, viu, como em uma miragem, a cachorrinha Milu, encolhida no colo de Magali Bueno, sendo acariciada pelas longas unhas vermelhas que a vedete costumava exibir. Formavam um casal alegre, sorridente e tagarela. Os anos não conseguiram tocar no amor dos dois. Podia-se ver nos olhos do capitão-de-fragata, o mesmo amor recente por Magali Bueno de duas décadas atrás. O quarto da pousada tinha uma grande janela voltada para o porto, de onde Virgílio poderia ouvir o apito da barca da companhia pesqueira, e os ruídos da feira que existia ali, à revelia da chuva.
Depois de tomar um caneco de suco de jaca bem gelado, especialidade da região, e fazer algumas anotações, Virgílio foi para a praça da feira fazer suas primeiras considerações. Tudo para ele era novo. Até mesmo o cheiro pesado da maresia, misturado ao aroma das frutas cítricas empilhadas nas barracas, formando exóticas arquiteturas. Ali, o professor poderia conhecer toda sorte de pessoas que levariam a ele, mundos e histórias inimagináveis. Mas Virgílio não dispunha de tempo suficiente para ouvir a todos, pois tinha que se ater em sua busca do paradeiro de Alena. Havia, no centro da praça, um grande chafariz, onde sereias, formando um círculo, seguravam ânforas, de onde derramavam ininterruptamente farta quantidade de água doce. No centro do círculo, centenas de orifícios, formando uma espécie de chuveiro gigante, projetavam verticalmente outros jatos de água que tornavam a cair formando uma chuva cintilante sobre as sereias. Em torno do chafariz, havia uma murada, onde muitos se sentavam para degustar alguma fruta, ou petiscos comprados na feira, enquanto se refrescavam, com o vapor da água fresca que banhava as sereias. De frente para o chafariz, havia uma mulher muito gorda, que mal podia levantar-se, onde, num tabuleiro, exibia um apetitoso curau de milho, que ela preparava ali mesmo, com ajuda das crianças, que lhe traziam água e lenha, além de limparem a sujeira de milho, que a gorda fazia. Em paga pelo trabalho, as crianças poderiam se fartar de curau, com a condição de que comessem ali mesmo, sem levarem para casa, ou para qualquer outro lugar. Não havia, na cabeça da mulher, um fio de cabelo sequer, mas sim, a tatuagem de um grande peixe de boca aberta, dentro da qual havia uma criança em pé acenando. Nunca ninguém soube o significado da pintura, e a mulher parecia querer manter esse segredo até o túmulo. Debaixo da cobertura de lona do seu espaço de trabalho, a mulher, que se chamava Oderiza Tarcina Áurea, lhe valendo o apelido pelo qual era conhecida: OTA – se abanava com uma ventarola de palha, enquanto devorava ritualmente uma bacia de laranjas, previamente descascadas por ela mesma, com perfeição artística. Ao final de cada dia, Ota consumia em torno de quatro dúzias de laranjas, entre as refeições, fazendo com que suas mãos trouxessem um forte e irremovível aroma da casca da fruta. Virgílio, ao ver aquele perfumado tabuleiro de curau, não hesitou em comprar uma porção, e sentou-se na murada do chafariz, de frente pra Ota, travando com ela uma enriquecedora conversa. Era impossível avaliar a idade da mulher, que, por ser gorda, não trazia sequer uma ruga em todo o corpo, e, por ser completamente careca, os fios brancos não delatavam seu percurso no tempo, mas suas histórias, das quais ela garantia o testemunho, pareciam ter a idade do mar.
Graças à Ota, Virgílio ficou sabendo do nome do marinheiro responsável pelo desaparecimento de Alena: Gumercino. De acordo com a mulher, inúmeras mulheres chegavam à praça, em busca do marinheiro desconhecido, que, de acordo com o testemunho de todas, só aparecia às quintas-feiras. Justo o dia em que a praça lotava, por ser o dia semanal do comércio de pescado, quando o barco da companhia pesqueira atracava no porto, e lá permanecia até a tardinha, quando deixava na areia os caixotes com restos de peixes inadequados para venda, que eram recolhidos pelas crianças da vizinhança, cujas famílias não tinham condições de estar sempre a comprar alimento. A gorda garantiu que, durante anos, tentou acompanhar as moças, para descobrir quem era o marinheiro, mas, devido ao seu excesso de peso, quando as meninas sumiam do alcance do seu olhar, Ota não podia segui-las, e ninguém na feira dava importância a esse tipo de investigação, pois marinheiros abraçados com moças jovens e bonitas, eram inúmeros, e não seria um especificamente que despertaria o interesse de ninguém, apenas o de Ota, que estranhava o fato de todas essas moças estarem procurando sempre o mesmo homem, e de nenhuma delas conhecê-lo. O que Ota não sabia, e foi Virgílio quem contou, era que o marinheiro se apresentava às suas pretendentes, por intermédio de sonhos, o que logo explicou o fato de nenhuma delas conhecer o homem pessoalmente, apesar da ansiedade em encontrá-lo como se convivessem, desde a infância, com o rapaz. A chuva ficou mais forte, e um homem magro e pequeno chegou numa charrete. Com a ajuda de todas a crianças, e uma rampa de madeira improvisada, embarcou Ota, que sentou no banco de trás, onde as rodas eram reforçadas duplamente, para poderem dar conta do peso. Depois, o homem recolheu os apetrechos da mulher, e seguiu de volta para casa, onde os dois moravam há não se sabe quantos anos. Virgílio, enquanto fazia planos de procurar Ota no dia seguinte, para dela extrair toda informação possível, se apressou o quanto pôde em direção à pousada. Apesar de estar bem próximo, chegou na portaria completamente encharcado, o que valeu o sábio comentário de um empregado, que, sentado numa cadeira, se divertia com o movimento: “É, moço, chuva molha”.
O calor era tanto, que Elza reforçou o suprimento de água de Virgílio, antes que ele entrasse no trem que o levaria à capital, atrás de evidências para sua pesquisa científica. Magali conseguira, com sua heteronônima, as referências de uma boa e limpa pousada perto do porto. Magali Bueno e seu amante Otávio ainda viviam juntos. Desde que ficara viúvo, Otávio havia assumido o romance com a vedete, que agora trabalhava como empresária de atrizes amadoras que desejassem chegar aos palcos. Além de agenciar as atrizes, Magali Bueno produzia pequenos musicais, que eram apresentados em clubes e restaurantes de luxo. O casal estaria na estação esperando por Virgílio, para levá-lo ao local onde ficaria hospedado.
Durante a viagem, Virgílio fez uma relação detalhada de todos os animais domésticos de sua cidade, e de todas as pessoas que faleceram por causas não muito naturais. Ao lado de cada nome, ele fazia anotações das poucas peculiaridades que pudesse lembrar sobre o indivíduo, ou sobre o animal, em questão. Sentia falta da gêmea nessas horas, pois a menina tinha um senso de relação muito bom, e, onde existissem paralelos, ela os encontraria.
O calor era insuportável. Virgílio preferiu abrir a janela, para sentir o vento no rosto, mesmo sabendo que o barulho do apito do trem atrapalharia sua concentração de cientista. Olhou a paisagem, e pensou no que Elza estaria fazendo naquele momento. Foi tomado por uma imensa ternura, quando lembrou de todos esses anos em que ela o acompanhava em seus sonhos, e em todas as desilusões. Elza, mulher de pouco falar, mas dotada de um bom senso desmedido, era capaz de acabar com uma argumentação de cientistas com poucas palavras, e, às vezes, até mesmo com um olhar silencioso. O que faria uma mulher, tão lúcida e tão certa de si, aceitar viver uma vida rotineira e calma? Virgílio podia afirmar que todas as suas decisões bem tomadas foram, na verdade, sugeridas por sua mulher, que nunca reclamou os louros da vitória. A única coisa que Elza temia era morrer como o seu bisavô, vítima de sufocamento, causado por um molar que fora engolido pelo homem, durante o sono. Por não ter tido filhos, a mulher tratava todas as crianças da cidade como suas, mas mantendo sempre a austeridade e firmeza, que fizeram parte de seu temperamento.
O sol das onze horas entrava direto pelo vitral da igreja, e atingia o confessionário, onde o padre Clemente, encharcado de suor, ignorava o calor, ouvindo com interesse e estranheza a confissão da gêmea Alves, que vinha sendo atormentada ultimamente pelo desejo incontrolável de encontrar e matar o marinheiro que transformara sua irmã Alena em batráquio. Conforme a moça relatava a sua atual condição de irmã de um sapo medroso de chuvas e guloso de doces, o padre ia se inteirando das pesquisas que Virgílio vinha fazendo. Ao finalizar sua confissão, Lena foi obrigada a ouvir uma repreensão do padre, que, tentando se controlar, dizia, com a voz contida, que os animais não possuíam alma, muito menos alma de pessoas que já morreram. Afirmava que essa teoria maluca de Virgílio misturava crenças espíritas, por considerar reencarnação, e pagãs, por dar alma aos animais irracionais. Isso, sem falar em involução das almas humanas para almas de bichos. O pároco, cada vez mais enfurecido, pensava em uma forma de falar abertamente com Virgílio, sem que comprometesse o segredo da confissão de Lena. Depois de dada a benção, o padre se sentou no banco de pedra no pomar da igreja, e ficou ali por mais de uma hora engendrando meios diferentes de levar Virgilio a expor suas pesquisas, e assim poderia, de forma aberta, impedir as loucuras hereges do professor. Atormentado, o vigário lamentava ter que lidar com uma rezadeira, e agora com um pesquisador tresloucado que conseguia ir de encontro a todas as religiões e crenças, com uma teoria sem procedência alguma. Quando a professora Dagmar chamou-o para o almoço, o padre já estava decidido a pedir a ajuda de Augusto. Mas, enquanto comia, ficou certo de que não pediria ajuda a ninguém, e faria tudo sozinho.
Enquanto o trem se aproximava da estação, Virgílio tentou reconhecer de longe o rosto de Magali e Otávio, mas foi incapaz, não só por ambos já apresentarem a fisionomia visitada pelo tempo, mas também pelo fato de Otávio estar fazendo uso de cadeira de rodas, devido a complicações reumáticas. Ao desembarcar, apesar das modificações registradas na aparência dos amigos, Virgílio sentiu como se estivesse fazendo uma viagem no tempo. O professor, inspirado pelas lembranças, viu, como em uma miragem, a cachorrinha Milu, encolhida no colo de Magali Bueno, sendo acariciada pelas longas unhas vermelhas que a vedete costumava exibir. Formavam um casal alegre, sorridente e tagarela. Os anos não conseguiram tocar no amor dos dois. Podia-se ver nos olhos do capitão-de-fragata, o mesmo amor recente por Magali Bueno de duas décadas atrás. O quarto da pousada tinha uma grande janela voltada para o porto, de onde Virgílio poderia ouvir o apito da barca da companhia pesqueira, e os ruídos da feira que existia ali, à revelia da chuva.
Depois de tomar um caneco de suco de jaca bem gelado, especialidade da região, e fazer algumas anotações, Virgílio foi para a praça da feira fazer suas primeiras considerações. Tudo para ele era novo. Até mesmo o cheiro pesado da maresia, misturado ao aroma das frutas cítricas empilhadas nas barracas, formando exóticas arquiteturas. Ali, o professor poderia conhecer toda sorte de pessoas que levariam a ele, mundos e histórias inimagináveis. Mas Virgílio não dispunha de tempo suficiente para ouvir a todos, pois tinha que se ater em sua busca do paradeiro de Alena. Havia, no centro da praça, um grande chafariz, onde sereias, formando um círculo, seguravam ânforas, de onde derramavam ininterruptamente farta quantidade de água doce. No centro do círculo, centenas de orifícios, formando uma espécie de chuveiro gigante, projetavam verticalmente outros jatos de água que tornavam a cair formando uma chuva cintilante sobre as sereias. Em torno do chafariz, havia uma murada, onde muitos se sentavam para degustar alguma fruta, ou petiscos comprados na feira, enquanto se refrescavam, com o vapor da água fresca que banhava as sereias. De frente para o chafariz, havia uma mulher muito gorda, que mal podia levantar-se, onde, num tabuleiro, exibia um apetitoso curau de milho, que ela preparava ali mesmo, com ajuda das crianças, que lhe traziam água e lenha, além de limparem a sujeira de milho, que a gorda fazia. Em paga pelo trabalho, as crianças poderiam se fartar de curau, com a condição de que comessem ali mesmo, sem levarem para casa, ou para qualquer outro lugar. Não havia, na cabeça da mulher, um fio de cabelo sequer, mas sim, a tatuagem de um grande peixe de boca aberta, dentro da qual havia uma criança em pé acenando. Nunca ninguém soube o significado da pintura, e a mulher parecia querer manter esse segredo até o túmulo. Debaixo da cobertura de lona do seu espaço de trabalho, a mulher, que se chamava Oderiza Tarcina Áurea, lhe valendo o apelido pelo qual era conhecida: OTA – se abanava com uma ventarola de palha, enquanto devorava ritualmente uma bacia de laranjas, previamente descascadas por ela mesma, com perfeição artística. Ao final de cada dia, Ota consumia em torno de quatro dúzias de laranjas, entre as refeições, fazendo com que suas mãos trouxessem um forte e irremovível aroma da casca da fruta. Virgílio, ao ver aquele perfumado tabuleiro de curau, não hesitou em comprar uma porção, e sentou-se na murada do chafariz, de frente pra Ota, travando com ela uma enriquecedora conversa. Era impossível avaliar a idade da mulher, que, por ser gorda, não trazia sequer uma ruga em todo o corpo, e, por ser completamente careca, os fios brancos não delatavam seu percurso no tempo, mas suas histórias, das quais ela garantia o testemunho, pareciam ter a idade do mar.
Graças à Ota, Virgílio ficou sabendo do nome do marinheiro responsável pelo desaparecimento de Alena: Gumercino. De acordo com a mulher, inúmeras mulheres chegavam à praça, em busca do marinheiro desconhecido, que, de acordo com o testemunho de todas, só aparecia às quintas-feiras. Justo o dia em que a praça lotava, por ser o dia semanal do comércio de pescado, quando o barco da companhia pesqueira atracava no porto, e lá permanecia até a tardinha, quando deixava na areia os caixotes com restos de peixes inadequados para venda, que eram recolhidos pelas crianças da vizinhança, cujas famílias não tinham condições de estar sempre a comprar alimento. A gorda garantiu que, durante anos, tentou acompanhar as moças, para descobrir quem era o marinheiro, mas, devido ao seu excesso de peso, quando as meninas sumiam do alcance do seu olhar, Ota não podia segui-las, e ninguém na feira dava importância a esse tipo de investigação, pois marinheiros abraçados com moças jovens e bonitas, eram inúmeros, e não seria um especificamente que despertaria o interesse de ninguém, apenas o de Ota, que estranhava o fato de todas essas moças estarem procurando sempre o mesmo homem, e de nenhuma delas conhecê-lo. O que Ota não sabia, e foi Virgílio quem contou, era que o marinheiro se apresentava às suas pretendentes, por intermédio de sonhos, o que logo explicou o fato de nenhuma delas conhecer o homem pessoalmente, apesar da ansiedade em encontrá-lo como se convivessem, desde a infância, com o rapaz. A chuva ficou mais forte, e um homem magro e pequeno chegou numa charrete. Com a ajuda de todas a crianças, e uma rampa de madeira improvisada, embarcou Ota, que sentou no banco de trás, onde as rodas eram reforçadas duplamente, para poderem dar conta do peso. Depois, o homem recolheu os apetrechos da mulher, e seguiu de volta para casa, onde os dois moravam há não se sabe quantos anos. Virgílio, enquanto fazia planos de procurar Ota no dia seguinte, para dela extrair toda informação possível, se apressou o quanto pôde em direção à pousada. Apesar de estar bem próximo, chegou na portaria completamente encharcado, o que valeu o sábio comentário de um empregado, que, sentado numa cadeira, se divertia com o movimento: “É, moço, chuva molha”.
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