Você provavelmente chegou até aqui através das mãos do acaso. Talvez não fique nem mesmo o tempo suficiente para ler essa mensagem...
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Que o acaso nos proteja agora, e na hora da nossa sorte... Amém! - Helena
O Dia em que a Geladeira Chegou - Helena
Você não acredita em Papai Noel? Pois, saiba, ele existe, ou, melhor, eles existem, em sua cidade mesmo. São centenas deles, com os mais variados trajes. Seus trenós, de tamanhos também variados, são caminhões, que, em suas carrocerias, levam todo tipo de presente: sofás, geladeiras, computadores, bicicletas, camas, armários, tapetes, fogões, banheiras, lava-roupas, secadoras, portas, janelas, televisores. São casas completas, que todos esperam chegar, sempre com a corrosiva ansiedade de uma criança, em véspera de Natal.
Quem nunca, olhando pela janela, ou atendendo o interfone, ou até mesmo do portão, gritou, mesmo que para si mesmo, o sonoro e familiar 'chegou'? Experimentando tremor, suores e palpitações da criança diante do presente. A família, se houver, como soldados enfileirados, sem saber o que fazer com as mãos, aguarda ansiosa a chegada do seu Papai Noel.
É um ritual. Acontece sempre da mesma forma: Ele traz a nota, confirma o destinatário, mesmo sabendo, pelo sinal afirmativo das cabecinhas que o olham, que, com certeza, é ali o local da entrega. Neste momento, ele é atingido pelos mais variados olhares de ansiedade e expectativas, e bocas tentando conter o sorriso, e braços e pernas fingindo naturalidade, quando, na verdade, queriam gritar, pular e abraçar, de tanta felicidade. Feito isso, o Papai Noel volta ao caminhão, para pegar o presente, que, às vezes, é muito grande, e exige ajudante para transportá-lo. E chega o grande momento, quando é feita a tradicional pergunta:
– Onde é para colocar?
Na maioria da vezes, quase como um ritual, o 'altar' já está devidamente limpo e preparado.
Stop. Congele a imagem. Agora, uma panorâmica. Papai Noel, observe o olhar daqueles que, por dias, esperaram, ansiaram por sua chegada. Não é mais possível esconder o brilho do olhar, conter o sorriso que se escancara nos lábios, nem manter parados pernas e braços que conduzem o corpo numa estranha valsa em torno do presente e seus carregadores. Esse é o momento singular, onde pairam no ar, felicidade e alívio. Os entregadores largam ali a mercadoria pesada que vinham trazendo, com o certo sentimento de missão cumprida. Enquanto os espectadores experimentam um privativo Natal, com direito a Ano Novo. Pois, naquele momento, ocorrem mil e umas promessas e juras, expectativas de uma vida nova a partir dali.
Com certeza, se os entregadores, quando saíssem, ficassem atrás da porta, poderiam ouvir os pulos e gritos infantis daquelas mesmas pessoas que, ao recebê-los ainda com a nota, tentavam se manter sérias. Fico imaginando o quanto deve ser divertido e gratificante ser Papai Noel o ano todo, e, principalmente, poder estar, cara-a-cara, com os que recebem seus presentes. Não há sinos tocando, mas, se eles tentarem, poderão ouvir corações entoando hinos de alegria. É esse o Natal de todo dia, onde tantos 'Papais Noéis' deixam, nas casas de outras tantas pessoas, presentes, que, muitas vezes, não terão em suas próprias casas. Mas, talvez, se olharem fundo nos olhos daqueles que os recebem, levarão consigo um presente, e mais outro, e mais outro, e mais outro, e mais outro... até que o caminhão esteja vazio, para que receba nova carga pra mais um dia de Natal.
Sim, 'Papais Noéis' existem. E pronto!
Quem nunca, olhando pela janela, ou atendendo o interfone, ou até mesmo do portão, gritou, mesmo que para si mesmo, o sonoro e familiar 'chegou'? Experimentando tremor, suores e palpitações da criança diante do presente. A família, se houver, como soldados enfileirados, sem saber o que fazer com as mãos, aguarda ansiosa a chegada do seu Papai Noel.
É um ritual. Acontece sempre da mesma forma: Ele traz a nota, confirma o destinatário, mesmo sabendo, pelo sinal afirmativo das cabecinhas que o olham, que, com certeza, é ali o local da entrega. Neste momento, ele é atingido pelos mais variados olhares de ansiedade e expectativas, e bocas tentando conter o sorriso, e braços e pernas fingindo naturalidade, quando, na verdade, queriam gritar, pular e abraçar, de tanta felicidade. Feito isso, o Papai Noel volta ao caminhão, para pegar o presente, que, às vezes, é muito grande, e exige ajudante para transportá-lo. E chega o grande momento, quando é feita a tradicional pergunta:
– Onde é para colocar?
Na maioria da vezes, quase como um ritual, o 'altar' já está devidamente limpo e preparado.
Stop. Congele a imagem. Agora, uma panorâmica. Papai Noel, observe o olhar daqueles que, por dias, esperaram, ansiaram por sua chegada. Não é mais possível esconder o brilho do olhar, conter o sorriso que se escancara nos lábios, nem manter parados pernas e braços que conduzem o corpo numa estranha valsa em torno do presente e seus carregadores. Esse é o momento singular, onde pairam no ar, felicidade e alívio. Os entregadores largam ali a mercadoria pesada que vinham trazendo, com o certo sentimento de missão cumprida. Enquanto os espectadores experimentam um privativo Natal, com direito a Ano Novo. Pois, naquele momento, ocorrem mil e umas promessas e juras, expectativas de uma vida nova a partir dali.
Com certeza, se os entregadores, quando saíssem, ficassem atrás da porta, poderiam ouvir os pulos e gritos infantis daquelas mesmas pessoas que, ao recebê-los ainda com a nota, tentavam se manter sérias. Fico imaginando o quanto deve ser divertido e gratificante ser Papai Noel o ano todo, e, principalmente, poder estar, cara-a-cara, com os que recebem seus presentes. Não há sinos tocando, mas, se eles tentarem, poderão ouvir corações entoando hinos de alegria. É esse o Natal de todo dia, onde tantos 'Papais Noéis' deixam, nas casas de outras tantas pessoas, presentes, que, muitas vezes, não terão em suas próprias casas. Mas, talvez, se olharem fundo nos olhos daqueles que os recebem, levarão consigo um presente, e mais outro, e mais outro, e mais outro, e mais outro... até que o caminhão esteja vazio, para que receba nova carga pra mais um dia de Natal.
Sim, 'Papais Noéis' existem. E pronto!
Os Primeiros Natais - Helena
O dia amanhece, e eu me levanto com a velha e costumeira sensação de que é o Primeiro Natal. Até hoje nunca entendi porque, pra mim, todo ano eu tenho essa mesma impressão, ainda que seja o mesmo lugar, as mesma pessoas, os mesmos rituais, sempre a mesma comida... o peru! Gente, o peru! ”... Peru de Natal Peru de Natal é tão fácil de fazer vem temperado e pronto pra assar lá lá lá...”. A mesma propaganda! Nao pode ser ! Tudo tão igual, e eu pulo da cama como uma criança que alivia a úlcera da ansiedade natalina e diz pra si mesma: “Enfim, é hoje”. Sim é hoje! É hoje que comerei a mesma comida no mesmo lugar com as memas pessoas as mesmas conversas e musicas... ou não? Não! Não dessa vez! Dessa vez é o primeiro sim! Com certeza!
Eu sinto dentro de mim eu percebo nas pessoas, nos aromas, nos ruídos... é real o sentimento de estar vivendo isso tudo pela primeira vez... É real essa predisposição em renovar “o igual,” em tornar impar cada experiência que se repete igualzinha a cada ano. É verdadeiro o desejo de ver “o novo”, “no velho”. Sim é o espírito da renovação que se precipita dentro de cada um de nós trazendo em si, a esperança, a coragem, e a determinação em recomeçar a continuação de nossas vidas no próximo ano que virá. Sim! Definitivamente é o Primeiro Natal, foi o Primeiro Natal, e será o Primeiro Natal e ainda que lograsse existir um que fosse o derradeiro, ainda assim, este seria o Primeiro Natal!
Desejo a voces todos um Natal Especial - o primeiro de uma série de tantos outros primeiros que virão. E que a cada um deles, seu coração, mais e mais, possa tocar o espírito de renovação e usufruir de todas as suas benesses. Espero, também, que tudo transcorra no mais absoluto sucesso com sua saúde.
Um Beijo da Helena
Eu sinto dentro de mim eu percebo nas pessoas, nos aromas, nos ruídos... é real o sentimento de estar vivendo isso tudo pela primeira vez... É real essa predisposição em renovar “o igual,” em tornar impar cada experiência que se repete igualzinha a cada ano. É verdadeiro o desejo de ver “o novo”, “no velho”. Sim é o espírito da renovação que se precipita dentro de cada um de nós trazendo em si, a esperança, a coragem, e a determinação em recomeçar a continuação de nossas vidas no próximo ano que virá. Sim! Definitivamente é o Primeiro Natal, foi o Primeiro Natal, e será o Primeiro Natal e ainda que lograsse existir um que fosse o derradeiro, ainda assim, este seria o Primeiro Natal!
Desejo a voces todos um Natal Especial - o primeiro de uma série de tantos outros primeiros que virão. E que a cada um deles, seu coração, mais e mais, possa tocar o espírito de renovação e usufruir de todas as suas benesses. Espero, também, que tudo transcorra no mais absoluto sucesso com sua saúde.
Um Beijo da Helena
sábado, 15 de setembro de 2007
Cazuza e Fernandinho à beira-mar (ou... Siro Darlan, você está enganado) - Helena
(“ A única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não” Siro Darlan)
Ambos foram vítimas do abondono.
Abandono compensado por mimos,
Abandono dissimulado em maus tratos.
Um comprava calças e rasgava-as antes de usar.
Outro ganhava calças que remendava para vestir.
Um visitava o mundo do outro, pela porta da frente.
Ali, comprava motivos para viver.
Outro invadia o mundo do Um, pelo fundos,
Lá, roubava o motivo da sobrevivência.
Um, poeta.
Outro, personagem do poeta.
Um buscou e alcançou a fama
Outro foi alcançado por ela.
Um, idolatrado por muitos , hostlizado por alguns.
Outro odiado por quase todos, amado por poucos.
Para Um, o palco era a sua praça.
Para Outro a praça era o seu palco.
Ambos cativos na solidão superpovoada do abandono.
Um, por estar ocupado vivendo, se distraiu e não conseguiu sobreviver.
Outro não teve tempo de viver por estar atento, ocupado sobrevivendo.
De Um, podia-se ouvir o nome à beira-mar.
De Outro, podia-se ouvir Beira-mar no nome.
Como tantos outros Agenores e Fernandos
Ambos foram vítimas do abondono.
Abandono compensado por mimos,
Abandono dissimulado em maus tratos.
Um comprava calças e rasgava-as antes de usar.
Outro ganhava calças que remendava para vestir.
Um visitava o mundo do outro, pela porta da frente.
Ali, comprava motivos para viver.
Outro invadia o mundo do Um, pelo fundos,
Lá, roubava o motivo da sobrevivência.
Um, poeta.
Outro, personagem do poeta.
Um buscou e alcançou a fama
Outro foi alcançado por ela.
Um, idolatrado por muitos , hostlizado por alguns.
Outro odiado por quase todos, amado por poucos.
Para Um, o palco era a sua praça.
Para Outro a praça era o seu palco.
Ambos cativos na solidão superpovoada do abandono.
Um, por estar ocupado vivendo, se distraiu e não conseguiu sobreviver.
Outro não teve tempo de viver por estar atento, ocupado sobrevivendo.
De Um, podia-se ouvir o nome à beira-mar.
De Outro, podia-se ouvir Beira-mar no nome.
Como tantos outros Agenores e Fernandos
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
(Fernando Pessoa preferiu escrever isso antes de mim, por que sabia que, mesmo sentindo, eu não teria capacidade de fazê-lo)
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Carta a um amigo – Helena
Quando perdemos a pessoa amada (ou acreditamos que perdemos), mais do que a perda da pessoa, sofremos a perda de nós mesmos nela. Quando temos alguém que amamos, e nos ama, esse alguém se torna um espelho, onde podemos ver no reflexo de nós mesmos, uma pessoa bonita, querida, amada. O ser amado nos dá uma imagem bonita de nós e isso é bom, a gente se ama um pouco mais com isso. Quando perdemos o ser amado, é como se perdêssemos a nossa imagem linda que tanto amávamos. É como se o espelho se virasse de costas, e nós quiséssemos desesperadamente virar novamente a face para nós. É difícil sair por aí sabendo que nossa imagem anda perdida a procura de nós, ou que nós mesmos andamos por aí à procura do nosso reflexo. E quando isso acontece, temos a sensação de estarmos passando ao largo das coisas do mundo e da vida, como se não mais fizéssemos parte de absolutamente nada. Aos poucos, vamos nos desapegando de tudo e de todos como se só existisse a nossa orfandade em relação à nossa alma perdida no espelho do outro. Mas tudo isso passa, creia em mim.
Como a dor de parto, perder um amor é nascer pra uma nova vida, e nascer dói. Perder um amor é termos que trilhar novas estradas e redesenhar sozinhos nosso futuro, e projetos outrora feitos a dois. Isso dói e assusta demais, como nos doeu, e não lembramos, no dia em que fomos postos no mundo desamparados, onde só buscávamos uma única coisa: as manifestações maternas.
Meu amigo, a nossa capacidade de adaptação é tamanha que pouco sabemos do que podemos resistir. Sua alma foi ferida e está inflamada e inchada, mas acredite, ela vai desinchar e ficará apenas uma cicatriz para que você possa sempre lembrar o quanto somos frágeis e fortes ao mesmo tempo, servindo de estímulo para o enfrentamento de novas vicissitudes.
Torço pra que aconteça o melhor pra você. Mas o melhor, lembre-se, não temos a onipotência de saber o que é.
Já diz o velho ditado: "O que é do homem, o bicho não come"... O que tiver que ser será.
Um beijo da Helena
sábado, 14 de julho de 2007
O universo onírico da realidade que não foi - Helena
“Acaso as lembranças daquilo que foi sonho são menores que as lembranças daquilo que foi real?... Não é tudo lembrança?... Que diferença fará sonhar ou viver a realidade, se, quando mais precisarmos, ambas serão lembranças?... É possível que, numa certa altura de nossas vidas, as lembranças dos sonhos sejam mais reais do que aquelas daquilo que um dia chamamos realidade, pois os sonhos são a nossa criação, como a nossa realidade é criação de Deus. Somos o deus de nossos sonhos, assim como Deus o é de nossa realidade. Sendo assim, nossos sonhos são tão reais para nós, quanto somos para Deus.”
domingo, 1 de julho de 2007
LADAINHA - Helena
Era quase sempre assim, ela avistava o seu “amado”, mesmo de longe, e - pronto! - era acometida por uma incontrolável vontade de molhar suas roupas íntimas, se esvaziando do líquido que seus rins cuidadosamente produziram. Em outras palavras, mijava-se toda. Nelma formava poças em torno dos pés, se contorcendo de tanto rir, enquanto procurava algum lugar para se esconder do seu príncipe encantado. As amigas sempre tentavam ajudá-la, buscando não dar a perceber que a conheciam, claro, mas sim que a encontraram em apuros e se mostravam solidárias.
Desde pequena, Nelma sofria desse estranho mal de se urinar, sempre que algo muito esperado estivesse por acontecer. Aliás, não só isso era estranho em Nelma. A moça, desde menina, guardava em uma caixa, milhares de recortes, e todos eles, sem exceção, eram da palavra “beijo”. Beijos de todas as fontes, tamanhos e cores. Quando as revistas, que sua mãe trazia das casas onde fazia faxina, escasseavam, Nelma se punha a desenhar, por tardes e tardes, centenas de palavras para sua coleção. Muitas vezes, chegava ao requinte de escrever com a mão esquerda, ou com a boca, para torná-las diferentes. Sempre que se despedia de alguém, ela ia à caixinha, pegava alguns “beijos”, e entregava à pessoa dizendo: “Leve alguns beijos, pois você poderá precisar”. Não havia um vidro sequer, ao alcance dos olhos de Nelma, que ela não limpasse, até que se tornasse imperceptível ao olhar humano.
Um dia, sua mãe levou-a ao médico, para entender o que havia de errado na cabeça da filha. No consultório, relatou os comportamentos estranhos da menina, desde a época em que o caçula largou o seio materno, e a igreja, que a família frequentava, recolheu doações, dentre elas, algumas latas de leite em pó. Na semana seguinte, Nelma amanheceu com um prisão de ventre de dias, que só a muito custo, e com a ajuda de dois talos de couve untados no azeite, resolveram o problema da menina. Foi então que descobriram a baixa nas latas de leite: três delas se encontravam vazias. Ali, se revelava o impulso, quase incontrolável, em Nelma de comer leite em pó sem água. Comer o pó às colheradas.
Dona Laura dizia ter começado se preocupar, desde esse episódio, mas que não era o episódio em si que a assustava, tanto que, sempre que podia, trazia um pouco desse leite da casa de suas patroas onde fazia faxina, junto com as revistas de onde a pequena recortava os “beijos” para a sua coleção. A bem da verdade, dona Laura nunca se preocupou isoladamente com cada um dos comportamentos estranhos da menina, até justificava-os: a mania de comer leite devia ser necesssidade do organismo, o leite é nutritivo; os “beijos”, por ela ser uma menina muito carinhosa, além de gostar de fazer coleções; a limpeza dos vidros, por que herdara da mãe a arte na faxina; a coleção de chapinhas de refrigerantes foi por causa da idéia infeliz do filho de 11 anos, Eraldo, que convencera a irmã de que o dinheiro do mundo acabaria, e que as benditas chapinhas seriam o próximo 'dinheiro', e desde aí a menina juntara toneladas delas, com o objetivo único de comprar um edifício cheio de leite em pó só para ela. Mas, quando dona Laura pensava que todos esses comportamentos estavam concentrados em uma única filha, isso a assustava demais.
Quando Nelma criou o costume de calçar os sapatos nos pés trocados, dia sim, dia não, mesmo achando que pudesse ser uma inteligente estratégia econômica da filha, para gastar igualmente a sola dos sapatos, dona Laura decidiu que o médico é quem deveria descobrir se a menina era doente ou não. E, mesmo à revelia do marido, arrumou a menina e levou-a ao doutor Josino, médico que atendia no fundo da farmácia da rua principal. Depois de ouvir o relato da mãe angustiada, doutor Josino calmamente explicou-lhe que crianças com a idade da menina possuíam um imenso mundo interior, e que nesse mundo havia toda sorte de coisas que os adultos não entenderiam, mesmo explicadas exaustivamente. Disse também que todos aqueles 'rituais' iriam desaparecer com a idade. Acrescentou que o problema de a menina urinar deveria ser tratado com tranquilidade, pois há crianças que de fato demoram muito para controlar o aparelho urinário.
Dona Laura saiu bem mais tranquila do consultório, e, sempre que alguém comentava qualquer coisa sobre os sinistros costumes da garota, ela respondia com a mesma frase: “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”. De fato, ela até colaborava com as manias excêntricas da menina. Numa festa junina da igreja, em que dona Laura se responsabilizara por uma barraquinha de docinhos, o preço do docinho era acrescido de uma estranha e sutil exigência: o freguês deveria escrever a palavra beijo num pedacinho de papel. Nelma ficou tão animada com a empresa que, à noite, quando chegou em casa, estava afônica devido à intensa divulgação que fizera da barraquinha da mãe. De tanto repetir “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”, dona Laura não se apercebeu que os costumes da filha, que eram ao todo onze, estavam sumindo um a um. A verdade era que muitos deles sumiam aos olhos de todos, mas não de fato. Nelma, conforme ia ficando mais velha, notava que devia ocultar seus hábitos dos demais, para que tivesse tranquilidade, sem ser alvo de chacota dos outros. Mas, quando se deparava com a palavra “beijo”, a menina não continha o impulso, e, disfarçadamente, destacava a página para, num momento mais propício, recortar e guardar mais uma peça do seu 'tesouro'. Com o dinheirinho que ganhava da madrinha (uma patroa de sua mãe que assumira as despesas com a menina), comprava uns pacotes de leite em pó, dos mais baratos, que só comia à noite, escondida de todos. Nelma manteve o costume de comer verduras, para “equilibrar os intestinos”, como dizia sua mãe, e beber muita água, “para fazer o milagre do leite”, como repetia o irmão Eraldo, se referindo à diluição do leite em pó no estômago da menina.
Dona Laura não media esforços em convencer a todos de que os antigos hábitos da filha foram, na verdade, muito benéficos, não só para a menina, como também para toda a família, e, numa ladainha cadenciada pela própria respiração, enquanto fazia suas tarefas domésticas, relatava os benefícios: “Come muita verdura, graças ao leite em pó”; “bebe muita água, graças ao leite em pó”; “não pisa torto, graças aos pés com sapatos trocados”; “os vidros da casa são tão limpos, o que virou orgulho de todos, e até os irmãos conservam essa boniteza”; “as cortinas de chapinhas são lindas, invejadas por toda vizinhança” (fazer cortinas foi a saída que Nelma encontrara para manter sua coleção do 'futuro dinheiro'), e a ladainha continuava... Mas, sempre que chegava na coleção de beijos, que já havia sido quadruplicada às escondidas, dona Laura parava, por não encontrar justificativa satisfatória, dava um suspiro, e dizia: “Nelminha sempre foi carinhosa demais, e seus lábios nunca conseguiriam dar todos os beijos que deseja”.
Nelma era uma menina muito bonita - sua beleza era forte e simples. Aos doze anos, havia sido aprovada no concurso para o colégio público de melhor reputação de sua cidade. Sua madrinha não media esforços para dar à menina, bons estudos e formação. Núbia, a mais velha das irmãs, que eram quatro, desenvolvera uma caprichosa habilidade na arte de corte e costura. Nelma se mostrava extremamente talentosa, quando, ajudando a irmã, desenhava na hora, à medida que as freguesas de Núbia descreviam, os modelos a serem confeccionados. As freguesas adoravam a menina, e, através dela, se divertiam, tirando e colocando mangas, golas e adereços nas roupas. Sempre que definia um modelo, Nelma pedia que a freguesa escrevesse: “Para Nelma, um beijo de ...”. Todo dia Nelma levava o rodapé dos modelos para seu esconderijo secreto. Só Núbia percebia em silêncio que a irmã mantinha esse hábito.
Dona Augusta, madrinha de Nelma, tinha muito orgulho da menina e de sua aptidão para o desenho. Aos treze anos, Nelma ingressava num renomado curso de desenho artístico, ministrado nas instalações do Colégio Salesiano. Núbia já ganhava um bom dinheiro com as costuras (as patroas de sua mãe eram quase todas suas clientes), quando decidiu abrir um precário atelier, nos fundos da casa, para noivas e enxovais.
Dona Laura iniciou as arrumações da casa para os quinze anos de Nelma. Os cinco filhos mais velhos já estavam, de alguma forma, encaminhados na vida; restavam apenas Nelma, de quinze anos, e Edivaldo, de treze. Animada com a renovação da casa, dona Laura só falava nisso, dia e noite. Foi por essa ocasião que Nelma se interessou pela primeira vez por decoração, decidindo assumir parte do trabalho, se ocupando de uma poltrona velha e com o estofamento rasgado, que seu pai usava desde que parara de trabalhar, devido a uma injeção mal aplicada que imobilizara sua perna direita. Seu Haroldo torrava amendoins, fazia paçoca e pé-de-moleque, que entregava nas vendas próximas, e também trabalhava com as vizinhas, irmãs Alaíde e Adelaide, enrolando salgadinhos e docinhos que elas faziam para festas de casamentos e aniversários.
Nelma recolheu uma infinidade de calças e pernas de calças jeans que Núbia mantinha no atelier, por ter sido um presente oferecido pela vizinhança, por ocasião da descoberta de sua aptidão pela costura. Com esses retalhos, Nelma desenhou peça por peça de uma forração para a poltrona de seu pai. A capacidade de criação da menina era impressionante. Logo, logo havia uma série de papéis com os desenhos, cuidadosamente calculados, das peças necessárias à forração. A poltrona seria forrada em jeans. Os bolsos das calças seriam costurados nas laterais, para que seu Haroldo pudesse colocar os óculos, lápis e papel, revistas e jornais. Com as pernas das calças, seriam feitos dois travesseiros cilíndricos, presos por velcro nas laterais do encosto, para que a cabeça não quedasse em demasia para os lados, durante o costumeiro cochilo do seu Haroldo. Na frente do braço da cadeira, usando o cós de algumas calças, ela fez um bom e seguro suporte para o porta-cerveja de isopor, que o pai usava à noitinha enquanto assistia TV. Ficou perfeito! Núbia fez caprichosamente a costura, e tudo vestiu como uma luva. A capa e todas as peças eram removíveis para lavagem. Ficou realmente muito bonito, e foi a primeira criação daquela que, anos depois, seria uma conceituada arquiteta e estilista de interiores, com Coluna em duas importantes revistas. A casa realmente ficou muito bonita.
A festa dos quinze anos de Nelma foi simples, mas bem farta. Seu pai trabalhara incansavelmente, enrolando docinhos e salgadinhos, que Nelma, sua mãe e as irmãs fizeram durante os meses que antecederam à festa. As irmãs Alaíde e Adelaide também, graciosamente, ajudaram no preparo das guloseimas, pois, sempre que havia festa, ambas renovavam a esperança de encontrar um 'bom partido'. Em toda a casa tinha bom gosto, simplicidade e estilo. Foi nesse dia que Nelma revelou à Raquel que mantinha sua coleção de beijos, e, tão logo pudesse, mostraria à amiga. Raquel era sua melhor amiga, e sobrinha de dona Virgínia, vizinha e madrinha de muitos dos irmãos de Nelma. Ao lado de Raquel, Nelma se sentia à vontade para revelar seus segredos e desejos, pois Raquel nunca fizera qualquer censura em relação à amiga.
Foi na festa dos quinze anos, a última vez que ambas se encontraram. A partir daí, se falavam por telefone, cada vez mais espaçadamente, e, quando Nelma foi fazer o curso profissionalizante de desenho técnico, em outra cidade, os contatos se tornaram mais raros ainda, e, na maioria das vezes, eram feitos por carta. Quando saiu da faculdade de arquitetura, Nelma já era estagiária de uma renomada revista de decoração. Seu projeto final fora premiado em três modalidades, além de ter sido publicado também em dez capítulos consecutivos na revista em que a moça trabalhava.
E ali estava ela - uma arquiteta bonita, competente, talentosa, mijona, com mania de comer leite em pó e colecionar beijos escritos. Por essas características excêntricas, Nelma acabava por se sentir uma ilha em meio a pessoas que interagem entra si. Uma ilha cercada de pessoas normais por todos os lados. Não fosse pela incontinência urinária, os demais hábitos poderiam ser contornados e até escondidos de alguém que convivesse com ela. Mas essa incapacidade de se manter seca em situações de expectativa impediu-a, até mesmo, de receber pessoalmente os primeiros prêmios de sua carreira. Nelma já havia tentado todo o tipo de tratamento com médicos renomados, mas todos foram unânimes dizendo se tratar de alguma reação de fundo emocional e, portanto, carente de tratamento psicoterápico, o que a moça não se negou a fazer, mas que também não deram resultados.
Foi quando, num fim de tarde, voltando do trabalho para casa, no assento do corredor de um ônibus lotado, foi surpreendida pelo grito de um rapaz de uns vinte anos informando a todos se tratar de um assalto, e empunhando uma arma de calibre trinta e dois. Nelma ficou estática. O rapaz estava a menos de um passo dela, e dava para sentir o hálito doente do assaltante. Num lapso de tempo, ouviu-se, vindo do fundo da veículo, a voz de um senhor de meia idade que se dizia policial. Neste momento, o assaltante olhou em volta, buscando alguém como escudo e passou os olhos por Nelma, que sentiu sua bexiga contrair e, imediatamente, retornar à condição normal, quando o bandido escolheu um rapaz de terno que sentava no banco ao lado. Naquele momento, Nelma se ausentou de tudo e penetrou num mundo totalmente seu e que, ao mesmo tempo, desconhecia. Viu toda sua vida passando pela tela formada pela traseira do encosto do banco da frente. Em menos de três segundos, ela era uma menina que chorava em sua cama, antes de dormir, por ter sido molestada por seu pai, enquanto o escutava falando com a mãe, sobre sua preocupação com a filha, que tinha a mania incontrolável de beijar a todos, e que isso poderia ser mal entendido. A mãe respondia que ela era apenas uma criança carinhosa, ao que o pai retrucava com o argumento irrefutável de que o mundo estava cheio de maldade.
Num retorno momentâneo ao interior do ônibus, Nelma lembrou-se de que, no dia seguinte, adquirira seu primeiro recorte de beijo do rótulo de uma lata de leite em pó. Sentiu uma imensa vontade de beijar o rapaz que estava sendo mantido como refém, quando a tela à sua frente, tornou a se abrir, e dessa vez trazendo a figura de seu irmão convencendo-a de que as tampas de refrigerante e cerveja seriam a próxima moeda em circulação, o que se tornou um bom pretexto para que Nelma fugisse para a rua, longe do olhar desconfortável do pai, a pretexto de catá-las. Novamente, de volta à cena do assalto, desejou ter todas aquelas chapinhas transformadas em moedas de ouro, para que pudesse tirar aquele rapaz de terno daquela situação desesperadora. Mas não conseguia fazer outra coisa, senão levar seu olhar novamente para o encosto de banco transformado em tela. Sentiu nitidamente a angústia, após ter sido visitada pelo pai, quando trocava de roupa para ir à escola. A opressão era tão aterradora, que a menina se impôs ao desconforto de calçar os sapatos nos pés trocados, para que pudesse concentrar sua atenção na desconsolação de seus passos, e fugir dos registros que se estabeleciam em suas lembranças.
Voltando à situação presente, Nelma olhava os sapatos do rapaz, e pensava em como invertê-los, quando viu uma poça de urina se formar ao redor dos pés do refém, que chorava como criança. Imediatamente, percebeu que ela mesma não estava se urinando. À medida em que a poça crescia, os olhos de moça subiam pelas pernas e o corpo do homem, até chegar ao rosto, que agora era o rosto de Nelma, apavorada e rendida por seu pai embriagado. Um estampido fez com que saísse de suas lembranças, e visse o assaltante cair ao chão, trazendo junto o rapaz de terno, que ainda chorava em desespero, ignorando os gritos e pisões que levava dos demais, que tentavam fugir, aproveitando o estado desacordado do ladrão. Nelma se jogou no chão junto ao homem que chorava, e, numa atitude de protegê-lo dos pisões, abraçou-o e beijou-o terna, profunda e longamente no rosto. O homem sorriu.
Desde pequena, Nelma sofria desse estranho mal de se urinar, sempre que algo muito esperado estivesse por acontecer. Aliás, não só isso era estranho em Nelma. A moça, desde menina, guardava em uma caixa, milhares de recortes, e todos eles, sem exceção, eram da palavra “beijo”. Beijos de todas as fontes, tamanhos e cores. Quando as revistas, que sua mãe trazia das casas onde fazia faxina, escasseavam, Nelma se punha a desenhar, por tardes e tardes, centenas de palavras para sua coleção. Muitas vezes, chegava ao requinte de escrever com a mão esquerda, ou com a boca, para torná-las diferentes. Sempre que se despedia de alguém, ela ia à caixinha, pegava alguns “beijos”, e entregava à pessoa dizendo: “Leve alguns beijos, pois você poderá precisar”. Não havia um vidro sequer, ao alcance dos olhos de Nelma, que ela não limpasse, até que se tornasse imperceptível ao olhar humano.
Um dia, sua mãe levou-a ao médico, para entender o que havia de errado na cabeça da filha. No consultório, relatou os comportamentos estranhos da menina, desde a época em que o caçula largou o seio materno, e a igreja, que a família frequentava, recolheu doações, dentre elas, algumas latas de leite em pó. Na semana seguinte, Nelma amanheceu com um prisão de ventre de dias, que só a muito custo, e com a ajuda de dois talos de couve untados no azeite, resolveram o problema da menina. Foi então que descobriram a baixa nas latas de leite: três delas se encontravam vazias. Ali, se revelava o impulso, quase incontrolável, em Nelma de comer leite em pó sem água. Comer o pó às colheradas.
Dona Laura dizia ter começado se preocupar, desde esse episódio, mas que não era o episódio em si que a assustava, tanto que, sempre que podia, trazia um pouco desse leite da casa de suas patroas onde fazia faxina, junto com as revistas de onde a pequena recortava os “beijos” para a sua coleção. A bem da verdade, dona Laura nunca se preocupou isoladamente com cada um dos comportamentos estranhos da menina, até justificava-os: a mania de comer leite devia ser necesssidade do organismo, o leite é nutritivo; os “beijos”, por ela ser uma menina muito carinhosa, além de gostar de fazer coleções; a limpeza dos vidros, por que herdara da mãe a arte na faxina; a coleção de chapinhas de refrigerantes foi por causa da idéia infeliz do filho de 11 anos, Eraldo, que convencera a irmã de que o dinheiro do mundo acabaria, e que as benditas chapinhas seriam o próximo 'dinheiro', e desde aí a menina juntara toneladas delas, com o objetivo único de comprar um edifício cheio de leite em pó só para ela. Mas, quando dona Laura pensava que todos esses comportamentos estavam concentrados em uma única filha, isso a assustava demais.
Quando Nelma criou o costume de calçar os sapatos nos pés trocados, dia sim, dia não, mesmo achando que pudesse ser uma inteligente estratégia econômica da filha, para gastar igualmente a sola dos sapatos, dona Laura decidiu que o médico é quem deveria descobrir se a menina era doente ou não. E, mesmo à revelia do marido, arrumou a menina e levou-a ao doutor Josino, médico que atendia no fundo da farmácia da rua principal. Depois de ouvir o relato da mãe angustiada, doutor Josino calmamente explicou-lhe que crianças com a idade da menina possuíam um imenso mundo interior, e que nesse mundo havia toda sorte de coisas que os adultos não entenderiam, mesmo explicadas exaustivamente. Disse também que todos aqueles 'rituais' iriam desaparecer com a idade. Acrescentou que o problema de a menina urinar deveria ser tratado com tranquilidade, pois há crianças que de fato demoram muito para controlar o aparelho urinário.
Dona Laura saiu bem mais tranquila do consultório, e, sempre que alguém comentava qualquer coisa sobre os sinistros costumes da garota, ela respondia com a mesma frase: “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”. De fato, ela até colaborava com as manias excêntricas da menina. Numa festa junina da igreja, em que dona Laura se responsabilizara por uma barraquinha de docinhos, o preço do docinho era acrescido de uma estranha e sutil exigência: o freguês deveria escrever a palavra beijo num pedacinho de papel. Nelma ficou tão animada com a empresa que, à noite, quando chegou em casa, estava afônica devido à intensa divulgação que fizera da barraquinha da mãe. De tanto repetir “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”, dona Laura não se apercebeu que os costumes da filha, que eram ao todo onze, estavam sumindo um a um. A verdade era que muitos deles sumiam aos olhos de todos, mas não de fato. Nelma, conforme ia ficando mais velha, notava que devia ocultar seus hábitos dos demais, para que tivesse tranquilidade, sem ser alvo de chacota dos outros. Mas, quando se deparava com a palavra “beijo”, a menina não continha o impulso, e, disfarçadamente, destacava a página para, num momento mais propício, recortar e guardar mais uma peça do seu 'tesouro'. Com o dinheirinho que ganhava da madrinha (uma patroa de sua mãe que assumira as despesas com a menina), comprava uns pacotes de leite em pó, dos mais baratos, que só comia à noite, escondida de todos. Nelma manteve o costume de comer verduras, para “equilibrar os intestinos”, como dizia sua mãe, e beber muita água, “para fazer o milagre do leite”, como repetia o irmão Eraldo, se referindo à diluição do leite em pó no estômago da menina.
Dona Laura não media esforços em convencer a todos de que os antigos hábitos da filha foram, na verdade, muito benéficos, não só para a menina, como também para toda a família, e, numa ladainha cadenciada pela própria respiração, enquanto fazia suas tarefas domésticas, relatava os benefícios: “Come muita verdura, graças ao leite em pó”; “bebe muita água, graças ao leite em pó”; “não pisa torto, graças aos pés com sapatos trocados”; “os vidros da casa são tão limpos, o que virou orgulho de todos, e até os irmãos conservam essa boniteza”; “as cortinas de chapinhas são lindas, invejadas por toda vizinhança” (fazer cortinas foi a saída que Nelma encontrara para manter sua coleção do 'futuro dinheiro'), e a ladainha continuava... Mas, sempre que chegava na coleção de beijos, que já havia sido quadruplicada às escondidas, dona Laura parava, por não encontrar justificativa satisfatória, dava um suspiro, e dizia: “Nelminha sempre foi carinhosa demais, e seus lábios nunca conseguiriam dar todos os beijos que deseja”.
Nelma era uma menina muito bonita - sua beleza era forte e simples. Aos doze anos, havia sido aprovada no concurso para o colégio público de melhor reputação de sua cidade. Sua madrinha não media esforços para dar à menina, bons estudos e formação. Núbia, a mais velha das irmãs, que eram quatro, desenvolvera uma caprichosa habilidade na arte de corte e costura. Nelma se mostrava extremamente talentosa, quando, ajudando a irmã, desenhava na hora, à medida que as freguesas de Núbia descreviam, os modelos a serem confeccionados. As freguesas adoravam a menina, e, através dela, se divertiam, tirando e colocando mangas, golas e adereços nas roupas. Sempre que definia um modelo, Nelma pedia que a freguesa escrevesse: “Para Nelma, um beijo de ...”. Todo dia Nelma levava o rodapé dos modelos para seu esconderijo secreto. Só Núbia percebia em silêncio que a irmã mantinha esse hábito.
Dona Augusta, madrinha de Nelma, tinha muito orgulho da menina e de sua aptidão para o desenho. Aos treze anos, Nelma ingressava num renomado curso de desenho artístico, ministrado nas instalações do Colégio Salesiano. Núbia já ganhava um bom dinheiro com as costuras (as patroas de sua mãe eram quase todas suas clientes), quando decidiu abrir um precário atelier, nos fundos da casa, para noivas e enxovais.
Dona Laura iniciou as arrumações da casa para os quinze anos de Nelma. Os cinco filhos mais velhos já estavam, de alguma forma, encaminhados na vida; restavam apenas Nelma, de quinze anos, e Edivaldo, de treze. Animada com a renovação da casa, dona Laura só falava nisso, dia e noite. Foi por essa ocasião que Nelma se interessou pela primeira vez por decoração, decidindo assumir parte do trabalho, se ocupando de uma poltrona velha e com o estofamento rasgado, que seu pai usava desde que parara de trabalhar, devido a uma injeção mal aplicada que imobilizara sua perna direita. Seu Haroldo torrava amendoins, fazia paçoca e pé-de-moleque, que entregava nas vendas próximas, e também trabalhava com as vizinhas, irmãs Alaíde e Adelaide, enrolando salgadinhos e docinhos que elas faziam para festas de casamentos e aniversários.
Nelma recolheu uma infinidade de calças e pernas de calças jeans que Núbia mantinha no atelier, por ter sido um presente oferecido pela vizinhança, por ocasião da descoberta de sua aptidão pela costura. Com esses retalhos, Nelma desenhou peça por peça de uma forração para a poltrona de seu pai. A capacidade de criação da menina era impressionante. Logo, logo havia uma série de papéis com os desenhos, cuidadosamente calculados, das peças necessárias à forração. A poltrona seria forrada em jeans. Os bolsos das calças seriam costurados nas laterais, para que seu Haroldo pudesse colocar os óculos, lápis e papel, revistas e jornais. Com as pernas das calças, seriam feitos dois travesseiros cilíndricos, presos por velcro nas laterais do encosto, para que a cabeça não quedasse em demasia para os lados, durante o costumeiro cochilo do seu Haroldo. Na frente do braço da cadeira, usando o cós de algumas calças, ela fez um bom e seguro suporte para o porta-cerveja de isopor, que o pai usava à noitinha enquanto assistia TV. Ficou perfeito! Núbia fez caprichosamente a costura, e tudo vestiu como uma luva. A capa e todas as peças eram removíveis para lavagem. Ficou realmente muito bonito, e foi a primeira criação daquela que, anos depois, seria uma conceituada arquiteta e estilista de interiores, com Coluna em duas importantes revistas. A casa realmente ficou muito bonita.
A festa dos quinze anos de Nelma foi simples, mas bem farta. Seu pai trabalhara incansavelmente, enrolando docinhos e salgadinhos, que Nelma, sua mãe e as irmãs fizeram durante os meses que antecederam à festa. As irmãs Alaíde e Adelaide também, graciosamente, ajudaram no preparo das guloseimas, pois, sempre que havia festa, ambas renovavam a esperança de encontrar um 'bom partido'. Em toda a casa tinha bom gosto, simplicidade e estilo. Foi nesse dia que Nelma revelou à Raquel que mantinha sua coleção de beijos, e, tão logo pudesse, mostraria à amiga. Raquel era sua melhor amiga, e sobrinha de dona Virgínia, vizinha e madrinha de muitos dos irmãos de Nelma. Ao lado de Raquel, Nelma se sentia à vontade para revelar seus segredos e desejos, pois Raquel nunca fizera qualquer censura em relação à amiga.
Foi na festa dos quinze anos, a última vez que ambas se encontraram. A partir daí, se falavam por telefone, cada vez mais espaçadamente, e, quando Nelma foi fazer o curso profissionalizante de desenho técnico, em outra cidade, os contatos se tornaram mais raros ainda, e, na maioria das vezes, eram feitos por carta. Quando saiu da faculdade de arquitetura, Nelma já era estagiária de uma renomada revista de decoração. Seu projeto final fora premiado em três modalidades, além de ter sido publicado também em dez capítulos consecutivos na revista em que a moça trabalhava.
E ali estava ela - uma arquiteta bonita, competente, talentosa, mijona, com mania de comer leite em pó e colecionar beijos escritos. Por essas características excêntricas, Nelma acabava por se sentir uma ilha em meio a pessoas que interagem entra si. Uma ilha cercada de pessoas normais por todos os lados. Não fosse pela incontinência urinária, os demais hábitos poderiam ser contornados e até escondidos de alguém que convivesse com ela. Mas essa incapacidade de se manter seca em situações de expectativa impediu-a, até mesmo, de receber pessoalmente os primeiros prêmios de sua carreira. Nelma já havia tentado todo o tipo de tratamento com médicos renomados, mas todos foram unânimes dizendo se tratar de alguma reação de fundo emocional e, portanto, carente de tratamento psicoterápico, o que a moça não se negou a fazer, mas que também não deram resultados.
Foi quando, num fim de tarde, voltando do trabalho para casa, no assento do corredor de um ônibus lotado, foi surpreendida pelo grito de um rapaz de uns vinte anos informando a todos se tratar de um assalto, e empunhando uma arma de calibre trinta e dois. Nelma ficou estática. O rapaz estava a menos de um passo dela, e dava para sentir o hálito doente do assaltante. Num lapso de tempo, ouviu-se, vindo do fundo da veículo, a voz de um senhor de meia idade que se dizia policial. Neste momento, o assaltante olhou em volta, buscando alguém como escudo e passou os olhos por Nelma, que sentiu sua bexiga contrair e, imediatamente, retornar à condição normal, quando o bandido escolheu um rapaz de terno que sentava no banco ao lado. Naquele momento, Nelma se ausentou de tudo e penetrou num mundo totalmente seu e que, ao mesmo tempo, desconhecia. Viu toda sua vida passando pela tela formada pela traseira do encosto do banco da frente. Em menos de três segundos, ela era uma menina que chorava em sua cama, antes de dormir, por ter sido molestada por seu pai, enquanto o escutava falando com a mãe, sobre sua preocupação com a filha, que tinha a mania incontrolável de beijar a todos, e que isso poderia ser mal entendido. A mãe respondia que ela era apenas uma criança carinhosa, ao que o pai retrucava com o argumento irrefutável de que o mundo estava cheio de maldade.
Num retorno momentâneo ao interior do ônibus, Nelma lembrou-se de que, no dia seguinte, adquirira seu primeiro recorte de beijo do rótulo de uma lata de leite em pó. Sentiu uma imensa vontade de beijar o rapaz que estava sendo mantido como refém, quando a tela à sua frente, tornou a se abrir, e dessa vez trazendo a figura de seu irmão convencendo-a de que as tampas de refrigerante e cerveja seriam a próxima moeda em circulação, o que se tornou um bom pretexto para que Nelma fugisse para a rua, longe do olhar desconfortável do pai, a pretexto de catá-las. Novamente, de volta à cena do assalto, desejou ter todas aquelas chapinhas transformadas em moedas de ouro, para que pudesse tirar aquele rapaz de terno daquela situação desesperadora. Mas não conseguia fazer outra coisa, senão levar seu olhar novamente para o encosto de banco transformado em tela. Sentiu nitidamente a angústia, após ter sido visitada pelo pai, quando trocava de roupa para ir à escola. A opressão era tão aterradora, que a menina se impôs ao desconforto de calçar os sapatos nos pés trocados, para que pudesse concentrar sua atenção na desconsolação de seus passos, e fugir dos registros que se estabeleciam em suas lembranças.
Voltando à situação presente, Nelma olhava os sapatos do rapaz, e pensava em como invertê-los, quando viu uma poça de urina se formar ao redor dos pés do refém, que chorava como criança. Imediatamente, percebeu que ela mesma não estava se urinando. À medida em que a poça crescia, os olhos de moça subiam pelas pernas e o corpo do homem, até chegar ao rosto, que agora era o rosto de Nelma, apavorada e rendida por seu pai embriagado. Um estampido fez com que saísse de suas lembranças, e visse o assaltante cair ao chão, trazendo junto o rapaz de terno, que ainda chorava em desespero, ignorando os gritos e pisões que levava dos demais, que tentavam fugir, aproveitando o estado desacordado do ladrão. Nelma se jogou no chão junto ao homem que chorava, e, numa atitude de protegê-lo dos pisões, abraçou-o e beijou-o terna, profunda e longamente no rosto. O homem sorriu.
terça-feira, 26 de junho de 2007
O Baile da Vida – Helena
Você alguma vez viu como é um baile de carnaval de adolescente? Ou de criança? Ficam alguns sentados às mesas e uma grande roda de gente dançando no salão, e dando voltas. Certo? Quem não quer dar voltas, fica no centro da roda dançando. Eu acho que a vida é isso. E existem algumas atitudes que se pode tomar em relação à ela:
Você fica na cadeira o tempo todo, durante o baile, dizendo como cada um deveria dançar.
Você fica na cadeira, durante o baile, tentando criar coragem para entrar na pista, com medo de não conseguir. Quando entra, já é tarde, pois o baile está quase acabando, e você não consegue se ambientar. Você se sente inadequado. Sente-se o tempo todo deslocado, e, assim como os que estão na mesa, você passa a assistir o baile de dentro do baile - um espectador inserido no ambiente, mas sem influenciá-lo em absolutamente nada.
Você entra, mas a roda te arrasta. Você não consegue retomar o prumo. Se deixa levar. Vai até o final do baile tentando firmar o passo, se endireitar. Sempre que a orquestra muda para uma marcha-rancho mais tranquila, você acredita que vai se aprumar; mas não dá tempo. Antes que você consiga, vem de novo o sambão, e todos começam a pular e dançar, e você se desorienta novamente. E assim você vai, até o final do baile, sempre esperando a valsa de que precisa para fazer a sua dança.
Você vai, do início ao final do baile, girando na roda, sempre pelos mesmos lugares, sempre vendo as mesmas coisas, e criticando aqueles das mesas que não entraram na pista, dizendo que eles têm medo de entrar, que eles estão perdendo. Mas você não sabe exatamente o que eles estão perdendo. Por que a única coisa que você sabe é girar, girar, e repetir tudo sempre igual, até que o baile termine.
Você não fica na roda. Se mete no burburinho, no centro da roda, e fica ali, pulando, dançando, fazendo tudo quanto é loucura. Mas, quando menos espera, o baile acabou, e você não viu o pessoal das mesas, nem o garçom, nem bebeu, nem comeu, e não lembrou nem de fazer xixi. Aí, corre à fila do banheiro para ver se dá tempo, mas é tarde demais... tenta comer ou beber algo, não dá mais tempo. Dançou pra caramba, mas não viu nada do baile. Senta e fica olhando as pessoas irem embora e o baile acabar, com aquela sensação de perda de algo que você não sabe bem o quê, pois perdeu antes de ganhar. A orquestra? A orquestra seria aquela que dita as regras da dança: o Zeitgeist, a mídia, o padrão da época, o que está valendo, o que está em voga, os valores ...
Você fica na cadeira o tempo todo, durante o baile, dizendo como cada um deveria dançar.
Você fica na cadeira, durante o baile, tentando criar coragem para entrar na pista, com medo de não conseguir. Quando entra, já é tarde, pois o baile está quase acabando, e você não consegue se ambientar. Você se sente inadequado. Sente-se o tempo todo deslocado, e, assim como os que estão na mesa, você passa a assistir o baile de dentro do baile - um espectador inserido no ambiente, mas sem influenciá-lo em absolutamente nada.
Você entra, mas a roda te arrasta. Você não consegue retomar o prumo. Se deixa levar. Vai até o final do baile tentando firmar o passo, se endireitar. Sempre que a orquestra muda para uma marcha-rancho mais tranquila, você acredita que vai se aprumar; mas não dá tempo. Antes que você consiga, vem de novo o sambão, e todos começam a pular e dançar, e você se desorienta novamente. E assim você vai, até o final do baile, sempre esperando a valsa de que precisa para fazer a sua dança.
Você vai, do início ao final do baile, girando na roda, sempre pelos mesmos lugares, sempre vendo as mesmas coisas, e criticando aqueles das mesas que não entraram na pista, dizendo que eles têm medo de entrar, que eles estão perdendo. Mas você não sabe exatamente o que eles estão perdendo. Por que a única coisa que você sabe é girar, girar, e repetir tudo sempre igual, até que o baile termine.
Você não fica na roda. Se mete no burburinho, no centro da roda, e fica ali, pulando, dançando, fazendo tudo quanto é loucura. Mas, quando menos espera, o baile acabou, e você não viu o pessoal das mesas, nem o garçom, nem bebeu, nem comeu, e não lembrou nem de fazer xixi. Aí, corre à fila do banheiro para ver se dá tempo, mas é tarde demais... tenta comer ou beber algo, não dá mais tempo. Dançou pra caramba, mas não viu nada do baile. Senta e fica olhando as pessoas irem embora e o baile acabar, com aquela sensação de perda de algo que você não sabe bem o quê, pois perdeu antes de ganhar. A orquestra? A orquestra seria aquela que dita as regras da dança: o Zeitgeist, a mídia, o padrão da época, o que está valendo, o que está em voga, os valores ...
sexta-feira, 20 de abril de 2007
A Canja - Helena
A Canja – Helena Antoun
Naquela manhã de outono, Iracema acordou, e percebeu na cama, ao seu lado, o corpo inerte e frio de seu marido que morrera durante a noite. Iracema lembrou que, na madrugada, sentira Osvaldo, se remexer muito durante o sono, mas acreditou ser mais um dos pesadelos que seu marido costumava ter, onde combatia seres marinhos que invadiam a cidade em busca dos vasos de cerâmica que as mulheres do povoado fabricavam. “Provavelmente o coração do marido não suportara o combate noturno”, pensou Iracema, enquanto, de novo, tentava se acordar, na esperança de ter sido apenas um sonho ruim. Em meio às lágrimas e aos lamentos, repetidos como ladainha, Cema, como Osvaldo costumava chamá-la, tratou de vestir uma roupa mais decente no marido, penteou e perfumou os cabelos do morto, se aprontou e saiu, na manhã fria, em busca do farmacêutico, que era uma espécie de médico de tudo, para descobrir se a causa da morte de fato havia sido a guerra aquática, jurando que urinaria e defecaria diariamente no mar, para vingar a morte de seu marido, até que todos os oceanos se transformassem em fossas abertas dos continentes, e que todas as criaturas oceânicas se reduzissem a um gigantesco Iceberg de merda.
Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.
Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.
Naquela manhã de outono, Iracema acordou, e percebeu na cama, ao seu lado, o corpo inerte e frio de seu marido que morrera durante a noite. Iracema lembrou que, na madrugada, sentira Osvaldo, se remexer muito durante o sono, mas acreditou ser mais um dos pesadelos que seu marido costumava ter, onde combatia seres marinhos que invadiam a cidade em busca dos vasos de cerâmica que as mulheres do povoado fabricavam. “Provavelmente o coração do marido não suportara o combate noturno”, pensou Iracema, enquanto, de novo, tentava se acordar, na esperança de ter sido apenas um sonho ruim. Em meio às lágrimas e aos lamentos, repetidos como ladainha, Cema, como Osvaldo costumava chamá-la, tratou de vestir uma roupa mais decente no marido, penteou e perfumou os cabelos do morto, se aprontou e saiu, na manhã fria, em busca do farmacêutico, que era uma espécie de médico de tudo, para descobrir se a causa da morte de fato havia sido a guerra aquática, jurando que urinaria e defecaria diariamente no mar, para vingar a morte de seu marido, até que todos os oceanos se transformassem em fossas abertas dos continentes, e que todas as criaturas oceânicas se reduzissem a um gigantesco Iceberg de merda.
Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.
Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.
O sonho (pesadelo?) Americano – Helena
O, difundido mundialmente, ‘Sonho Americano’ – dorme distraído sobre a cama dura do pesadelo dos imigrantes.
Falta ao povo americano sair do seu mundo de faz-de-conta, e acordar para a realidade que, mundialmente, salta aos olhos de todos, e que aponta para a participação ativa e maciça dos imigrantes, na construção do clássico “sonho americano”.
Por décadas, o império americano vem sendo mantido pela mão-de-obra cosmopolita. Centenas de milhares de imigrantes correm para a América em busca de melhores condições de vida, proporcionadas pelo propagado sonho, sem saberem que são eles os próprios mantenedores deste. A América, através do sistema das leis de imigração, vive uma farsa onde, fingindo não saber, deixa cair migalhas para o cachorrinho que, em expectativa silenciosa, aguarda escondido debaixo da mesa. E dessas migalhas se sustentam os milhões de imigrantes, atraídos pelo aroma, e impulsionados pela fome em busca de alimento. As migalhas são nada mais nada menos do que todo o trabalho desqualificado pelo cidadão americano. Há muito, os trabalhos domésticos (limpeza, jardinagem, serviços de babá, etc), vêm sendo executados por mão-de-obra imigrante. À medida em que essa massa de trabalhadores foi comprovando dedicação e competência, os horizontes foram se ampliando, até chegar aos dias de hoje, em que os mais diversos setores da economia americana têm como componente esse tipo de mão-de-obra. Isso seria pouco, se não acrescentássemos o fato de que cidadãos honrados em seus países de origem, se vêm, para que possam trabalhar, obrigados a lançar mão de expedientes ilegais como documentação e até nomes falsos. Pessoas que querem justamente buscar no trabalho, um meio digno de sobrevivência não podem receber o status de criminoso. Isso seria uma flagrante inversão de valores.
A partir do momento em que o imigrante se estabelece num emprego usando documentação falsa, os recolhimentos de impostos são iniciados. Porém, o trabalhador não pode sequer gozar dos benefícios decorrentes. Com isso a América se beneficia de incontáveis milhões de doláres anuais, que nunca retornam às mãos de quem contribuiu para que se chegasse a esse número.
Será que podemos nomear como criminosos, aqueles que colocam em risco suas vidas para que possam trabalhar? Que visão estrábica é essa onde o trabalho, ou melhor, a busca pelo trabalho duro, é rotulada como crime, enquanto a manutenção desse sistema de exploração vergonhosa, é praticada sob o olhar condescendente de governos, igrejas e autoridades, tida como uma coisa normal e aceitável? Não se coloca uma maçã na frente de um faminto, sem que o submeta à uma escolha injusta: a fome ou o “crime”de roubar a maçã. Acontece que a “maçã” de que falamos, nada mais é do que os trabalhos duros que a América não quer fazer. E entre esses estão até mesmo os cuidados pessoais com os idosos americanos, cuidados maternos com crianças americanas, e cuidados caseiros muitas vezes preparando a comida de inúmeras famílias americanas.
Depois da escravatura, era necessário encontrar um meio de se ter mão-de-obra barata para o país, pois o povo outrora escravizado, lutara por seus direitos, tornando-se mão-de-obra onerosa. Seria então o imigrante que, atraído pela isca do “sonho americano” jogada na midia, iria manter uma forma, legitimada pelo mundo, de exploração do trabalho humano - transformando o “algoz” em “vítima”; o “explorado” em “criminoso”.
Lastimável - Na América, o imigrante não tem acesso (senão pela ilegalidade) a tratamento médico, pois para que se inscreva num seguro saúde, exige-se o número do seguro social, o que só é concedido aos cidadãos americanos. Nos Estados Unidos, o tratamento médico é muito mas muito dispendioso. Uma família imigrante, com seus ganhos somados, não consegue sustentar o tratamento de sequer um dos membros portador de alguma enfermidade grave, ou acidentado, que venha a precisar de tratamento médico-hospitalar, medicação e exames. Com isso, o imigrante vê sua saúde sendo subtraída, seus dentes se perdendo, seu corpo tendo que se adequar às modificacoes impostas pelas enfermidades que possam surgir. Em suma: O imigrante não pode ficar doente, pois precisa trabalhar, e mesmo trabalhando, não tem como pagar o tratamento.
A cultura de uso de produtos descartáveis se alastrou como infecção no organismo da nação americana, chegando à fase aguda, onde, em delirios convulsivos, o país começa acreditar que “vidas também são descartáveis”.
Falta ao povo americano sair do seu mundo de faz-de-conta, e acordar para a realidade que, mundialmente, salta aos olhos de todos, e que aponta para a participação ativa e maciça dos imigrantes, na construção do clássico “sonho americano”.
Por décadas, o império americano vem sendo mantido pela mão-de-obra cosmopolita. Centenas de milhares de imigrantes correm para a América em busca de melhores condições de vida, proporcionadas pelo propagado sonho, sem saberem que são eles os próprios mantenedores deste. A América, através do sistema das leis de imigração, vive uma farsa onde, fingindo não saber, deixa cair migalhas para o cachorrinho que, em expectativa silenciosa, aguarda escondido debaixo da mesa. E dessas migalhas se sustentam os milhões de imigrantes, atraídos pelo aroma, e impulsionados pela fome em busca de alimento. As migalhas são nada mais nada menos do que todo o trabalho desqualificado pelo cidadão americano. Há muito, os trabalhos domésticos (limpeza, jardinagem, serviços de babá, etc), vêm sendo executados por mão-de-obra imigrante. À medida em que essa massa de trabalhadores foi comprovando dedicação e competência, os horizontes foram se ampliando, até chegar aos dias de hoje, em que os mais diversos setores da economia americana têm como componente esse tipo de mão-de-obra. Isso seria pouco, se não acrescentássemos o fato de que cidadãos honrados em seus países de origem, se vêm, para que possam trabalhar, obrigados a lançar mão de expedientes ilegais como documentação e até nomes falsos. Pessoas que querem justamente buscar no trabalho, um meio digno de sobrevivência não podem receber o status de criminoso. Isso seria uma flagrante inversão de valores.
A partir do momento em que o imigrante se estabelece num emprego usando documentação falsa, os recolhimentos de impostos são iniciados. Porém, o trabalhador não pode sequer gozar dos benefícios decorrentes. Com isso a América se beneficia de incontáveis milhões de doláres anuais, que nunca retornam às mãos de quem contribuiu para que se chegasse a esse número.
Será que podemos nomear como criminosos, aqueles que colocam em risco suas vidas para que possam trabalhar? Que visão estrábica é essa onde o trabalho, ou melhor, a busca pelo trabalho duro, é rotulada como crime, enquanto a manutenção desse sistema de exploração vergonhosa, é praticada sob o olhar condescendente de governos, igrejas e autoridades, tida como uma coisa normal e aceitável? Não se coloca uma maçã na frente de um faminto, sem que o submeta à uma escolha injusta: a fome ou o “crime”de roubar a maçã. Acontece que a “maçã” de que falamos, nada mais é do que os trabalhos duros que a América não quer fazer. E entre esses estão até mesmo os cuidados pessoais com os idosos americanos, cuidados maternos com crianças americanas, e cuidados caseiros muitas vezes preparando a comida de inúmeras famílias americanas.
Depois da escravatura, era necessário encontrar um meio de se ter mão-de-obra barata para o país, pois o povo outrora escravizado, lutara por seus direitos, tornando-se mão-de-obra onerosa. Seria então o imigrante que, atraído pela isca do “sonho americano” jogada na midia, iria manter uma forma, legitimada pelo mundo, de exploração do trabalho humano - transformando o “algoz” em “vítima”; o “explorado” em “criminoso”.
Lastimável - Na América, o imigrante não tem acesso (senão pela ilegalidade) a tratamento médico, pois para que se inscreva num seguro saúde, exige-se o número do seguro social, o que só é concedido aos cidadãos americanos. Nos Estados Unidos, o tratamento médico é muito mas muito dispendioso. Uma família imigrante, com seus ganhos somados, não consegue sustentar o tratamento de sequer um dos membros portador de alguma enfermidade grave, ou acidentado, que venha a precisar de tratamento médico-hospitalar, medicação e exames. Com isso, o imigrante vê sua saúde sendo subtraída, seus dentes se perdendo, seu corpo tendo que se adequar às modificacoes impostas pelas enfermidades que possam surgir. Em suma: O imigrante não pode ficar doente, pois precisa trabalhar, e mesmo trabalhando, não tem como pagar o tratamento.
A cultura de uso de produtos descartáveis se alastrou como infecção no organismo da nação americana, chegando à fase aguda, onde, em delirios convulsivos, o país começa acreditar que “vidas também são descartáveis”.
o Homem é o único animal que... – Helena
São cinco os nossos sentidos físicos; visão, audição, tato, olfato e paladar. Eles dão ao Homem a percepção do mundo em que vive. Mas como obter a percepção de nós mesmos? Como saber quem é esse “ser” que vê, que ouve, que toca, que cheira e que prova o mundo exterior? Todos os nossos órgãos dos sentidos, olhos, ouvidos, pele, nariz e boca, estão, na verdade, de costas para nós. A bem da verdade, existem mecanismos para dar ao Homem a percepção de si, a auto-consciência, mas parece que o Homem busca sempre se afastar da percepção de si mesmo. Pode-se reparar isso nas afirmações do tipo: “ o Homem é o único animal que...”, expressão tão repetida por todos, e que busca fazer comparações entre a espécie humana, e as demais espécies do reino animal, buscando equiparar o comportamento humano com o dos animais irracionais nos mais diversos aspectos: ... que toma leite depois de adulto; ...que se acasala sem ser para procriação... O Homem não pode se comparar com os demais animais, simplesmente, porque: o Homem é o único animal que... pensa! E se pensa, pode adquirir consciência de si e consequentemente ser livre (ou não) através da escolha. O Homem não pode ser catalogado, nem avaliado como membro do mundo animal irracional!
Escolha! A manifestação mais precisa da liberdade! Estamos a todo momento fazendo escolhas, e estas, por mais variadas que sejam, acabam por se resumirem a numa simples oposição: por nós x contra nós. Se não soubermos quem somos nós (auto-consciência), não podemos fazer escolhas. Sem escolhas: sem liberdade.
‘Escolher’ assusta. O Homem diante da escolha se torna vulnerável. O processo de escolha, em que vivemos, nos faz passar a todo momento pela angústia do desconhecimento do ‘porvir’. Amedrontado, o Homem foge dessa liberdade real, abrindo hiatos para a entrada da ‘anti-liberdade’, a padronização, a fábrica de ídolos que salva o Homem dessa imensa angústia decorrente das escolhas que são a expressão da liberdade. Assim, cada vez mais, o ser humano foge de si mesmo, se substitui por ídolos, e abre mão de ‘ser’ entrando em intenso processo de despersonalização e perda de identidade.
A auto-consciência não poupa o indivíduo das angústias decorrentes do processo de escolhas, mas lhe assegura a capacidade de elaborá-las, levando-o a uma liberdade saudável que, logicamente, não se traduz em fazer o que é proibido, fazer tudo o que se quer, ou não fazer o que se deve, mas sim buscar a justa adequação entre esses três aspectos. Tudo se agrava à medida em que o sujeito se vê controlado por condicionamentos da infância que, mesmo esquecidos, ainda o impulsionam inconscientemente, impelindo-o sem que ele possa controlar. Nessas condições, a pessoa torna-se enfraquecida e manipulável. Vemos em muitos autores, idéias como estas aqui descritas que, parece, se completam, se acrescentam, se enriquecem. Se procurarmos, encontraremos, talvez centenas, talvez milhares de outros tantos artigos, crônicas, novelas, poemas, livros, filmes, peças, ensaios, conversas... onde as mesmas impressões são deixadas, as mesmas preocupações são demonstradas, os mesmos sonhos são embalados. Então, porque a humanidade ainda não se apercebeu disso tudo e não conseguiu equacionar esse conflito ? Seria por que... “o Homem é o único animal que...” é masoquista???
Escolha! A manifestação mais precisa da liberdade! Estamos a todo momento fazendo escolhas, e estas, por mais variadas que sejam, acabam por se resumirem a numa simples oposição: por nós x contra nós. Se não soubermos quem somos nós (auto-consciência), não podemos fazer escolhas. Sem escolhas: sem liberdade.
‘Escolher’ assusta. O Homem diante da escolha se torna vulnerável. O processo de escolha, em que vivemos, nos faz passar a todo momento pela angústia do desconhecimento do ‘porvir’. Amedrontado, o Homem foge dessa liberdade real, abrindo hiatos para a entrada da ‘anti-liberdade’, a padronização, a fábrica de ídolos que salva o Homem dessa imensa angústia decorrente das escolhas que são a expressão da liberdade. Assim, cada vez mais, o ser humano foge de si mesmo, se substitui por ídolos, e abre mão de ‘ser’ entrando em intenso processo de despersonalização e perda de identidade.
A auto-consciência não poupa o indivíduo das angústias decorrentes do processo de escolhas, mas lhe assegura a capacidade de elaborá-las, levando-o a uma liberdade saudável que, logicamente, não se traduz em fazer o que é proibido, fazer tudo o que se quer, ou não fazer o que se deve, mas sim buscar a justa adequação entre esses três aspectos. Tudo se agrava à medida em que o sujeito se vê controlado por condicionamentos da infância que, mesmo esquecidos, ainda o impulsionam inconscientemente, impelindo-o sem que ele possa controlar. Nessas condições, a pessoa torna-se enfraquecida e manipulável. Vemos em muitos autores, idéias como estas aqui descritas que, parece, se completam, se acrescentam, se enriquecem. Se procurarmos, encontraremos, talvez centenas, talvez milhares de outros tantos artigos, crônicas, novelas, poemas, livros, filmes, peças, ensaios, conversas... onde as mesmas impressões são deixadas, as mesmas preocupações são demonstradas, os mesmos sonhos são embalados. Então, porque a humanidade ainda não se apercebeu disso tudo e não conseguiu equacionar esse conflito ? Seria por que... “o Homem é o único animal que...” é masoquista???
O mergulho da entrega – Helena
Na loucura,
Só o paciente
conhece o caminho da ida.
Dê-lha a mão doutor!
Ele te conduzirá até lá.
Uma vez lá estando doutor,
dispa-se de seu pensar,
de nada lhe servirá.
Use os trajes que seu anfitrião lhe sugere.
Cuspa fora suas próprias palavras e linguagem
Adote o idioma que lá é entendido,
mesmo que lhe pareça absurdo.
Depois ofereça-lhe a mão doutor,
pois talvez, dos dois,
só você saiba o caminho de volta.
Com os fragmentos
do pensar ali encontrado,
vá tecendo a estrada,
E sobre a estrada doutor,
conduza-o de volta,
Mesmo que depois ele retorne.
O importante
É trazê-lo sempre que possível.
Mas lembre-se doutor!
Nunca se esqueça: Você deverá estar completamente nú.
Só o paciente
conhece o caminho da ida.
Dê-lha a mão doutor!
Ele te conduzirá até lá.
Uma vez lá estando doutor,
dispa-se de seu pensar,
de nada lhe servirá.
Use os trajes que seu anfitrião lhe sugere.
Cuspa fora suas próprias palavras e linguagem
Adote o idioma que lá é entendido,
mesmo que lhe pareça absurdo.
Depois ofereça-lhe a mão doutor,
pois talvez, dos dois,
só você saiba o caminho de volta.
Com os fragmentos
do pensar ali encontrado,
vá tecendo a estrada,
E sobre a estrada doutor,
conduza-o de volta,
Mesmo que depois ele retorne.
O importante
É trazê-lo sempre que possível.
Mas lembre-se doutor!
Nunca se esqueça: Você deverá estar completamente nú.
O Medo do Medo - Helena (à minha amiga vítima da síndrome do pânico)
E agora ?
O medo de morrer, os suores frios,
As verigens, taquicardias,
Tremores e temores...
Eles se foram.
A morte, para a qual tanto se preparou,
Não veio...
As embalagens de remédio,
As sobras de Florais de Bach,
As orações, os amuletos, as simpatias,
Os cartões de clínicas de emergência,
Os resultados de eletrocardiogramas...
Joga-se tudo fora...
Mas as, constantes e repetidas,
Despedidas e providências escritas,
A cada momento que se acreditava ser o último,
Foram todas elas vistas, revistas...
E vão ficar por aí em alguma gaveta em busca de sentido.
Ou quem sabe possam, um dia, vir a ser realmente necessárias ?...
( realmente!? )
Talvez elas fiquem como uma prova de veracidade
Daquilo, que se espera, um dia acreditar
Ter sido um pesadelo.
Talvez fiquem como lembrança...
Pode ser que, enquanto tudo acontecia,
Medo e sujeito tenham se tornado cúmplices
E íntimos companheiros....
Sendo assim, sujeito não pode mais viver sem medo!
Mas que medo?
O medo ?
O medo de sentir medo?
O medo de não mais saber reconhecer o medo?
O medo de que, com o esquecimento
Trazido pelo passar dos tempos
Não se possa mais reconhecer no outro,
Traços daqueles “sentires” um dia sentidos.
Medo de que, para não mais sentir medo...
Tenha-se tornado embrutecido
E capaz de, como tantos um dia o fizeram,
Banalizar a agonia intermitente
Que é o medo-do-medo
O medo de morrer, os suores frios,
As verigens, taquicardias,
Tremores e temores...
Eles se foram.
A morte, para a qual tanto se preparou,
Não veio...
As embalagens de remédio,
As sobras de Florais de Bach,
As orações, os amuletos, as simpatias,
Os cartões de clínicas de emergência,
Os resultados de eletrocardiogramas...
Joga-se tudo fora...
Mas as, constantes e repetidas,
Despedidas e providências escritas,
A cada momento que se acreditava ser o último,
Foram todas elas vistas, revistas...
E vão ficar por aí em alguma gaveta em busca de sentido.
Ou quem sabe possam, um dia, vir a ser realmente necessárias ?...
( realmente!? )
Talvez elas fiquem como uma prova de veracidade
Daquilo, que se espera, um dia acreditar
Ter sido um pesadelo.
Talvez fiquem como lembrança...
Pode ser que, enquanto tudo acontecia,
Medo e sujeito tenham se tornado cúmplices
E íntimos companheiros....
Sendo assim, sujeito não pode mais viver sem medo!
Mas que medo?
O medo ?
O medo de sentir medo?
O medo de não mais saber reconhecer o medo?
O medo de que, com o esquecimento
Trazido pelo passar dos tempos
Não se possa mais reconhecer no outro,
Traços daqueles “sentires” um dia sentidos.
Medo de que, para não mais sentir medo...
Tenha-se tornado embrutecido
E capaz de, como tantos um dia o fizeram,
Banalizar a agonia intermitente
Que é o medo-do-medo
quinta-feira, 19 de abril de 2007
A Canja – Helena
Naquela manhã de outono, Iracema acordou, e percebeu na cama, ao seu lado, o corpo inerte e frio de seu marido que morrera durante a noite. Iracema lembrou que, na madrugada, sentira Osvaldo, se remexer muito durante o sono, mas acreditou ser mais um dos pesadelos que seu marido costumava ter, onde combatia seres marinhos que invadiam a cidade em busca dos vasos de cerâmica que as mulheres do povoado fabricavam. “Provavelmente o coração do marido não suportara o combate noturno”, pensou Iracema, enquanto, de novo, tentava se acordar, na esperança de ter sido apenas um sonho ruim. Em meio às lágrimas e aos lamentos, repetidos como ladainha, Cema, como Osvaldo costumava chamá-la, tratou de vestir uma roupa mais decente no marido, penteou e perfumou os cabelos do morto, se aprontou e saiu, na manhã fria, em busca do farmacêutico, que era uma espécie de médico de tudo, para descobrir se a causa da morte de fato havia sido a guerra aquática, jurando que urinaria e defecaria diariamente no mar, para vingar a morte de seu marido, até que todos os oceanos se transformassem em fossas abertas dos continentes, e que todas as criaturas oceânicas se reduzissem a um gigantesco Iceberg de merda.
Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.
Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.
Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.
Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Evangelho do Homem – Helena
Eu me perco
por medo de me perder...
e assim não
terei perdido nada,
mas tudo terá me perdido
(o que não deixa de ser
uma forma de se perder)
Pois vivo no campo
das idéias.
A vida prática
me cansa, me enoja,
pois nela se cria a
anti-humanidade.
Mentira!
Eu não vivo
no campo das idéias
eu me ausento, me refugio,
me escondo nele.
Total incompetência para a realidade.
Preciso me proteger
da vida, pois minha forma de ser
ainda não foi comprendida
pelo mundo em que vivo.
O caminho é este em que estou
ou qualquer outro.
Por que caminhos não levam
a lugar nenhum.
Nós sabemos pra onde
estamos indo.
Estejamos onde quer que seja,
estamos todos indo a um mesmo lugar.
Caminhos, caminhos ...
são só ilusões...
Quando você não faz nada,
o tempo pára.
Se você faz alguma coisa
para passar o tempo,
o tempo passa.
Quando você pára completamente,
o tempo também pára.
Pára tão completamente...
você morre.
Pra onde você caminha?...
por medo de me perder...
e assim não
terei perdido nada,
mas tudo terá me perdido
(o que não deixa de ser
uma forma de se perder)
Pois vivo no campo
das idéias.
A vida prática
me cansa, me enoja,
pois nela se cria a
anti-humanidade.
Mentira!
Eu não vivo
no campo das idéias
eu me ausento, me refugio,
me escondo nele.
Total incompetência para a realidade.
Preciso me proteger
da vida, pois minha forma de ser
ainda não foi comprendida
pelo mundo em que vivo.
O caminho é este em que estou
ou qualquer outro.
Por que caminhos não levam
a lugar nenhum.
Nós sabemos pra onde
estamos indo.
Estejamos onde quer que seja,
estamos todos indo a um mesmo lugar.
Caminhos, caminhos ...
são só ilusões...
Quando você não faz nada,
o tempo pára.
Se você faz alguma coisa
para passar o tempo,
o tempo passa.
Quando você pára completamente,
o tempo também pára.
Pára tão completamente...
você morre.
Pra onde você caminha?...
Padecer? Mãe é Paraíso, Pai é Para Isso – Helena
Já foi o tempo em que o dia dos pais representava o dia internacional da gravata.
Os pais de hoje simplesmente não usam gravatas, e por isso podemos afirmar que o dia dos pais perdeu o sentido, pois estávamos todos acostumados com as lindas gravatinhas, que, quando não verdadeiras, eram feitas de cartolina pelos filhos na escola, com a ajuda e estímulo compulsório das professoras.
Desde que aboliram as gravatas, as cuecas, as meias e os lenços tentaram fazer carreira, mas não deu em nada. Os pais atuais gostam de ganhar CDs, perfume Polo, DVD, mouse sem fio (ainda, se tivesse fio, poderíamos ter um déjà vu das gravatas), câmeras digitais, etc. E o mais interessante disso tudo: não são eles que pagam o presente ! Sim, verdade. Agora, as mães, ou até mesmo os filhos, bancam o presente do papai. Não precisa mais aquele familiar teatrinho onde a mãe fala pro marido:
– Meu bem, preciso de dinheiro pra dar pras crianças comprarem seus presentes do dia dos pais.
O marido responde:
– Quanto você quer?
– Sei lá... De que você está precisando?
– Linha para pescaria, ou uma toalha pra sauna, uma joelheira pro futebol de domingo... ou um calção de piscina... qualquer coisa, meu amor.
– Ok, vou procurar.
Na sexta-feira, ela vai com as crianças na loja de departamentos mais famosa do bairro, e passa a tarde lá. Enquanto as crianças olham a seção de brinquedos, ela vai pra seção do lar e eletrodomésticos. Ela compra um brinquedinho de cartela pra cada filho e uma tesoura de destrinchar frango para o frango que vai assar no dia dos pais. Depois, vão para lanchonete dentro da loja, e cada um faz uma deliciosa escolha: banana split, waffle com geléia, x-tudo, e por aí vai. A mãe olha o relógio, e diz:
– Crianças, vamos rápido, que temos que comprar os presentes do papi.
No domingo, como de costume, todos vão almoçar fora. Os restaurantes estão lotados, mas, mesmo assim, o pai concorda em não ver televisão, para tomar lugar na fila de alguma churrascaria rodízio, ponto de encontro dos pais de toda a galáxia neste dia. Durante o barulhento e conturbado almoço, entre picanhas, cupins e anéis de cebola à milanesa, as crianças sacam os presentes de uma bolsa um tanto ou quanto amassada, de tanto rodar nas mãos dos pequenos, que estavam entediados por carregá-la. O pai começa abrir os presentes. O filho mais novo trouxe uma gravata, no lugar da linha de pescaria. O pai exclama:
– Que linda! - enrola no pescoço, e diz - Estou me sentindo um lindo peixinho de aquário fisgado.
De presente do segundo, no lugar da toalha pra sauna, ele ganha uns lencinhos, e começa imediatamente suar e enxugar a testa, enquanto manifesta:
– Nossa! Muito bons, bem absorventes, ideais para situações de alta transpiração, como saunas, por exemplo. Pensando ter em mãos o par de joelheiras embrulhado pra presente, ele abre o pacote do terceiro filho: dois pares de meias soquete pretas, próprias para o trabalho. Só resta agora a esse conformado pai, dar um mergulho na piscina com o calção de banho que ganhou do filho mais velho. Ops! Não é um calção; é uma cueca. A esposa diz:
– Meu bem, tava tudo tão caro, que não deu pra fazer o que você pediu (isso, aos sussuros, no ouvido do marido, que apenas fica imaginando como seria pular na piscina de cuecas, pescar com uma gravata, puxar as meias até que cheguem aos joelhos, e o mais sexy de tudo: pendurar o lencinho ‘naquele lugar’ mais importante, quando ele estiver na sauna mista.) E pensa consternado: “ainda se eu fumasse, talvez ganhasse um cinzeiro ou um isqueiro zippo”.
Como faz falta o tempo em que o dia dos pais era o dia internacional das gravatinhas...
Os pais de hoje simplesmente não usam gravatas, e por isso podemos afirmar que o dia dos pais perdeu o sentido, pois estávamos todos acostumados com as lindas gravatinhas, que, quando não verdadeiras, eram feitas de cartolina pelos filhos na escola, com a ajuda e estímulo compulsório das professoras.
Desde que aboliram as gravatas, as cuecas, as meias e os lenços tentaram fazer carreira, mas não deu em nada. Os pais atuais gostam de ganhar CDs, perfume Polo, DVD, mouse sem fio (ainda, se tivesse fio, poderíamos ter um déjà vu das gravatas), câmeras digitais, etc. E o mais interessante disso tudo: não são eles que pagam o presente ! Sim, verdade. Agora, as mães, ou até mesmo os filhos, bancam o presente do papai. Não precisa mais aquele familiar teatrinho onde a mãe fala pro marido:
– Meu bem, preciso de dinheiro pra dar pras crianças comprarem seus presentes do dia dos pais.
O marido responde:
– Quanto você quer?
– Sei lá... De que você está precisando?
– Linha para pescaria, ou uma toalha pra sauna, uma joelheira pro futebol de domingo... ou um calção de piscina... qualquer coisa, meu amor.
– Ok, vou procurar.
Na sexta-feira, ela vai com as crianças na loja de departamentos mais famosa do bairro, e passa a tarde lá. Enquanto as crianças olham a seção de brinquedos, ela vai pra seção do lar e eletrodomésticos. Ela compra um brinquedinho de cartela pra cada filho e uma tesoura de destrinchar frango para o frango que vai assar no dia dos pais. Depois, vão para lanchonete dentro da loja, e cada um faz uma deliciosa escolha: banana split, waffle com geléia, x-tudo, e por aí vai. A mãe olha o relógio, e diz:
– Crianças, vamos rápido, que temos que comprar os presentes do papi.
No domingo, como de costume, todos vão almoçar fora. Os restaurantes estão lotados, mas, mesmo assim, o pai concorda em não ver televisão, para tomar lugar na fila de alguma churrascaria rodízio, ponto de encontro dos pais de toda a galáxia neste dia. Durante o barulhento e conturbado almoço, entre picanhas, cupins e anéis de cebola à milanesa, as crianças sacam os presentes de uma bolsa um tanto ou quanto amassada, de tanto rodar nas mãos dos pequenos, que estavam entediados por carregá-la. O pai começa abrir os presentes. O filho mais novo trouxe uma gravata, no lugar da linha de pescaria. O pai exclama:
– Que linda! - enrola no pescoço, e diz - Estou me sentindo um lindo peixinho de aquário fisgado.
De presente do segundo, no lugar da toalha pra sauna, ele ganha uns lencinhos, e começa imediatamente suar e enxugar a testa, enquanto manifesta:
– Nossa! Muito bons, bem absorventes, ideais para situações de alta transpiração, como saunas, por exemplo. Pensando ter em mãos o par de joelheiras embrulhado pra presente, ele abre o pacote do terceiro filho: dois pares de meias soquete pretas, próprias para o trabalho. Só resta agora a esse conformado pai, dar um mergulho na piscina com o calção de banho que ganhou do filho mais velho. Ops! Não é um calção; é uma cueca. A esposa diz:
– Meu bem, tava tudo tão caro, que não deu pra fazer o que você pediu (isso, aos sussuros, no ouvido do marido, que apenas fica imaginando como seria pular na piscina de cuecas, pescar com uma gravata, puxar as meias até que cheguem aos joelhos, e o mais sexy de tudo: pendurar o lencinho ‘naquele lugar’ mais importante, quando ele estiver na sauna mista.) E pensa consternado: “ainda se eu fumasse, talvez ganhasse um cinzeiro ou um isqueiro zippo”.
Como faz falta o tempo em que o dia dos pais era o dia internacional das gravatinhas...
Desvarios Educacionais - Helena
São tantas as discussões em torno da Educação que muitas vezes quando tentamos discorrer sobre ela, o assunto parece esgotado. À medida em que buscamos inspiração, nos deparamos com o desapontamento, ao ver o que fizemos de nós em decorrência de uma educação alicerçada sobre valores sociais e políticos, em vez de valores humanos.
Os conceitos errôneos de ‘ser’ e de ‘fazer parte’, fizeram do Homem um elemento incapaz de desejar e fazer escolhas, baseado em seus próprios valores. Isso ocorre por ter ele absorvido o ‘comportamento’, o ‘ser’, e o ‘pensar’ que não os seus, mas sim aqueles determinados pela sociedade como sendo os mais adequados e oportunos para o momento. A mídia foi, durante todo esse tempo, a ferramenta utilizada de modo a inculcar idéias ao Homem até que se pudesse moldá-lo.
Fazendo-se analogia com os personagens infantis podemos encontrar:
Popeye e o espinafre; He-mam e a espada; O Homem de Ferro e a armadura; O Capitão América, o escudo; O Batmam, o Bat-cinto, o Bat-carro; Hulk , a raiva – entre tantos outros. Todos nos passando a idéia de que, para ‘sermos’, para ‘conseguirmos’, precisamos ‘ter’, ‘ingerir’, ‘vestir’. É quase impossível encontrar um personagem infantil que não precise lançar mão de algum tipo de artifício-artefato para estar apto a enfrentar o mal. É inadmissível que não existam formas de se obter do ser humano seus próprios valores, fazendo-o investir em si mesmo. Não precisamos de espinafre, nem de cintos, ou escudos, ou fúria. Possuímos armas poderosíssimas: inteligência, desejo e sensibilidade. Será que isso não poderia ser o caminho?
Com isso, desde muito, estabelece-se a idéia de ‘nada ser’ enquanto não se preencher determinados requisitos que sempre variam, e escondem a verdadeira intenção de se exercer poder sobre o desejo do outro.
Não seria possível uma personagem comum que através de valores humanos reais pudesse alcançar objetivos saudáveis para o próprio Homem?
Porque o Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho, o mais inteligente? Porque a Emília, uma boneca de pano, a mais esperta? O que pensavam Pedrinho e Narizinho a respeito? Alguém pretendeu perguntar?
O Homem é agora um ser assustado, com medo e, cada vez mais, distante do próprio Homem, buscando em valores ditados, a melhor forma de preparar seus filhos, visto não se sentir capaz para tal. E assim se educou e se vem educando as crianças, sobre valores sociais, políticos e religiosos convenientes para a ocasião. Esse com certeza é um dos motivos que trouxe o Homem à situação em que se encontra. Vê-se hoje, um Homem esmagado pelas mensagens cada vez mais encharcadas de duplo vínculo, que o fragmentam e convencem-no em escala exponencial de que ele não é, e nem será nada: se não...
Os conceitos errôneos de ‘ser’ e de ‘fazer parte’, fizeram do Homem um elemento incapaz de desejar e fazer escolhas, baseado em seus próprios valores. Isso ocorre por ter ele absorvido o ‘comportamento’, o ‘ser’, e o ‘pensar’ que não os seus, mas sim aqueles determinados pela sociedade como sendo os mais adequados e oportunos para o momento. A mídia foi, durante todo esse tempo, a ferramenta utilizada de modo a inculcar idéias ao Homem até que se pudesse moldá-lo.
Fazendo-se analogia com os personagens infantis podemos encontrar:
Popeye e o espinafre; He-mam e a espada; O Homem de Ferro e a armadura; O Capitão América, o escudo; O Batmam, o Bat-cinto, o Bat-carro; Hulk , a raiva – entre tantos outros. Todos nos passando a idéia de que, para ‘sermos’, para ‘conseguirmos’, precisamos ‘ter’, ‘ingerir’, ‘vestir’. É quase impossível encontrar um personagem infantil que não precise lançar mão de algum tipo de artifício-artefato para estar apto a enfrentar o mal. É inadmissível que não existam formas de se obter do ser humano seus próprios valores, fazendo-o investir em si mesmo. Não precisamos de espinafre, nem de cintos, ou escudos, ou fúria. Possuímos armas poderosíssimas: inteligência, desejo e sensibilidade. Será que isso não poderia ser o caminho?
Com isso, desde muito, estabelece-se a idéia de ‘nada ser’ enquanto não se preencher determinados requisitos que sempre variam, e escondem a verdadeira intenção de se exercer poder sobre o desejo do outro.
Não seria possível uma personagem comum que através de valores humanos reais pudesse alcançar objetivos saudáveis para o próprio Homem?
Porque o Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho, o mais inteligente? Porque a Emília, uma boneca de pano, a mais esperta? O que pensavam Pedrinho e Narizinho a respeito? Alguém pretendeu perguntar?
O Homem é agora um ser assustado, com medo e, cada vez mais, distante do próprio Homem, buscando em valores ditados, a melhor forma de preparar seus filhos, visto não se sentir capaz para tal. E assim se educou e se vem educando as crianças, sobre valores sociais, políticos e religiosos convenientes para a ocasião. Esse com certeza é um dos motivos que trouxe o Homem à situação em que se encontra. Vê-se hoje, um Homem esmagado pelas mensagens cada vez mais encharcadas de duplo vínculo, que o fragmentam e convencem-no em escala exponencial de que ele não é, e nem será nada: se não...
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Inscrições - Helena
Era impressionante o esforço que eu fazia
Para que não saísse a marca de batom,
Cuidadosamente carimbada
Pelos lábios de minha mãe,
No dorso de minha mão.
Era um ritual só nosso.
Ela se aprontava para o trabalho
E eu, ainda tão pequena,
Acompanhava todos os seus movimentos
Com a devoção de um torcedor na arquibancada.
Quando ela estava pronta,
Pegava minha mão esquerda
(a do coração, dizia )
E suavemente, ali,
Selava seus lábios em batom.
Chamávamos isso de
‘Beijinho pra marcar’.
Não se admitia a possibilidade
De minha mãe sair,
Pra onde quer que fosse,
Sem que deixasse registrada
A sua presença em mim,
Através das cores e perfumes
De seus mais variados batons.
Era tão lindo cheiroso e perfeito
O contorno de sua boca...
Essa cumplicidade era de tal
Relevância em minha vida,
Que eu zelava com fervor religioso
Para que a marca perdurasse,
Até o momento do retorno de mamãe,
Quando, orgulhosa, eu lhe mostrava
O cuidado que dispensara aos seus lábios.
Na sesta,
Eu deitava com as mãos pra cima
Segurando o espaldar da cama,
De modo a recordar , mesmo durante o sono,
Que ali havia algo precioso
A ser preservado.
Ao me dar banho, Rutinha já sabia
Da proibição de tocar
Naquela área sagrada.
E creio que,
Por mais respeito aos lábios de mamãe
Do que a mim,
Ela seguia as determinações
Com obediência canina.
Até hoje,
Quando olho minhas mãos,
Vejo a marca indelével
Da tatuagem feita pelos lábios de mamãe
Em minha alma.
Para que não saísse a marca de batom,
Cuidadosamente carimbada
Pelos lábios de minha mãe,
No dorso de minha mão.
Era um ritual só nosso.
Ela se aprontava para o trabalho
E eu, ainda tão pequena,
Acompanhava todos os seus movimentos
Com a devoção de um torcedor na arquibancada.
Quando ela estava pronta,
Pegava minha mão esquerda
(a do coração, dizia )
E suavemente, ali,
Selava seus lábios em batom.
Chamávamos isso de
‘Beijinho pra marcar’.
Não se admitia a possibilidade
De minha mãe sair,
Pra onde quer que fosse,
Sem que deixasse registrada
A sua presença em mim,
Através das cores e perfumes
De seus mais variados batons.
Era tão lindo cheiroso e perfeito
O contorno de sua boca...
Essa cumplicidade era de tal
Relevância em minha vida,
Que eu zelava com fervor religioso
Para que a marca perdurasse,
Até o momento do retorno de mamãe,
Quando, orgulhosa, eu lhe mostrava
O cuidado que dispensara aos seus lábios.
Na sesta,
Eu deitava com as mãos pra cima
Segurando o espaldar da cama,
De modo a recordar , mesmo durante o sono,
Que ali havia algo precioso
A ser preservado.
Ao me dar banho, Rutinha já sabia
Da proibição de tocar
Naquela área sagrada.
E creio que,
Por mais respeito aos lábios de mamãe
Do que a mim,
Ela seguia as determinações
Com obediência canina.
Até hoje,
Quando olho minhas mãos,
Vejo a marca indelével
Da tatuagem feita pelos lábios de mamãe
Em minha alma.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
O Dia do Lixo - Helena
Se você passa por uma coisa agradável, por exemplo, todo domingo você vai ao parque - você vai ansiar pelo prazer que te espera. Você nem sente o ciclo do passar do tempo. Mas, por outro lado, toda segunda-feira, o lixeiro passa. Todo domingo à noite, você tem o trabalho de ajeitar o lixo. Quando chega o domingo, está você de novo falando: "Caramba, estou aqui de novo ajeitando o lixo". Essa percepção do tempo é que fragiliza o sujeito: ou ele foge, e aliena, ou ele encara, e deprime. Um simples lixeiro (ninguém sabe, nem mesmo ele) pode trazer a percepção da fugacidade do tempo. Porque, toda segunda-feira, o lixeiro passa, e toda segunda-feira você diz: menos uma semana.
terça-feira, 10 de abril de 2007
A Cadeira da Calçada – Helena
Ela sempre tivera uma vida pacata e ordenada. Suas balas de coco eram inigualáveis a qualquer outra de qualquer outra cidade. Todos costumavam dizer que suas balas tinham poderes sobre a alma humana. Era comum, os moradores procurá-las no meio da madrugada, em busca de alívio para qualquer alegria às avessas: perda de amores, desgosto de filha, insônia – até mesmo o banqueiro da cidade, apelava para as balas quando os negócios não iam bem. Talvez por isso a região nunca tivesse precisado recorrer a qualquer tipo de ajuda, nem das igrejas, nem dos bombeiros, nem da polícia, nem da prefeitura. Tudo naquele povoado transcorria na mais santa paz, com a benção e a concordância das igrejas, dos bombeiros, da polícia, e da prefeitura, que não pouparam esforços em homenageá-la no dia de sua morte. Dona Bela das balas era uma mulher suave e firme, que trazia sempre a aparência de estar na cidade só de passagem. Suas mãos tinham a palmas marcadas pelas infinitas vezes que pegava a calda quente de açúcar e coco, para transformá-las nas deliciosas e prodigiosas balinhas. Não havia quem as experimentasse, sem que se tornasse consumidor fiel. A polícia militar, certa vez, mandou algumas delas para exame na perícia, temendo que ali pudesse haver algum tipo de narcótico. Encontram apenas açúcar, água e leite de coco, que era extraído diretamente da fruta pela própria Bela.
Suas tarefas diárias terminavam à tardinha, quando entregava os pacotinhos para serem levados a todas as vendas da cidade. Dividia a cidade em cinco partes e reservava um dia da semana para cada região. Aos sábados, Bela cuidava do jardim, arrumava a casa, preparava bolo e salgadinhos para o domingo, e saía para conversar com os vizinhos no portão de sua casa. Era uma mulher gorda, porém demasiadamente ativa. Nunca ouviram-na dizer estar cansada.
Aos domingos, depois de ir à missa bem cedinho, visitava algumas casas com o objetivo de pintar as unhas, cortar e pentear os cabelos de senhoras bem idosas. Bela sempre dizia: “É preciso envelhecer com boa aparência”. Talvez por isso, quando seus olhos resolveram parar de trabalhar, Bela, mesmo cega, era capaz de pintar suas próprias unhas com a perfeição de um artista. Bela apadrinhara duas crianças do orfanato, e cuidava delas como sendo seus filhos, apesar de nunca ter conseguido adotá-las, por ser uma mulher só, e por sua baixa renda.
Quando a idade chegou, e o diabetes levou-lhe a visão, Bela limitou suas tarefas apenas às balas, e sua produção era bem menor. Diariamente sentava-se à calçada numa cadeira de balanço que tinha a idade de seu avô, mas o viço de seus bisnetos. Nessa ocasião, ela fazia longos rolinhos, bem justos, de folhas de jornais que eram usados para acender fornos caseiros e aquecedores. Vendia os rolinhos em pacotes feitos de jornal contendo em cada um trinta unidades. O valor que cobrava por eles era quase nada, mas Bela se divertia com a transação por si só. Dizem que, inexplicavelmente, ninguém precisou usar o segundo rolinho, pois o primeiro nunca acabava. Aos domingos, sentada em sua cadeira, ensinava a criançada, que ignorava sua cegueira, a fazer roupas de boneca e pipas.
Numa bela manhã de junho, Bela não apareceu à porta, e todos já sabiam por que. A imagem daquela cadeira desocupada na calçada trazia aos olhos de todos a mesma sensação da mão quando busca, e não encontra, o relógio no pulso, e trazia ao coração a mesma sensação dos olhos quando busca o tempo num relógio parado. O povoado principiou os procedimentos de organização do funeral, antes mesmo da confirmação da morte de Bela. Na véspera Bela levantara-se da cadeira mais cedo dizendo: “Por favor, me dêem licença, pois me sinto cansada e preciso descansar”. Por esse motivo, quando não apareceu naquela manhã, todos já sabiam o que fazer. Logo nos primeiros dias ninguém se prontificou a retirar a cadeira de Bela da calçada, como se Bela fosse precisar dela a qualquer momento. Nos cincos dias que se sucederam aos primeiros, a cidade foi tomada por um temporal que mais parecia o choro de todos os anjos de todos os santos e todos os mortos. Preferiram, então, deixar a cadeira secar ao sol antes de retirá-la de lá. Nos cem dias seguintes ao temporal, discutiram sem êxito, onde guardariam a cadeira. Nos cem dias que seguiram à discussão, a cada tentativa de tirar a cadeira de lá, temeram toda sorte de mau agouro que pudesse suceder à retirada.
Então a cadeira permaneceu no mesmo lugar.
Já nessa época, muitos vinham pedir conselhos à cadeira, que respondia a todos através de uma espécie de código: quando balançava para frente, dizia ‘sim’ – quando balançava para trás, dizia ‘não’. As balançadas da cadeira tinham um efeito semelhante ao das balinhas, ajudava a todos nos impasses mais atormentadores. Nunca mais se falou ou pensou na retirada da cadeira. Ela já fazia parte da paisagem da rua da cidade e do mundo. A prefeitura mandou instalar dois bancos de jardim, um em cada lado da cadeira. Ali, encontros eram marcados, vendas de propriedades, casamentos e até partos. Numa manhã, uma galinha resolveu chocar seus ovos ali, na cadeira. Ninguém se atreveu a retirá-la, e dizem que suas unhas adquiriram um brilho como se estivessem pintadas. As quermesses da igreja eram todas feitas na rua da cadeira. Junto à cadeira, os meninos faziam pipas e as meninas acompanhavam fazendo roupas de bonecas.
Certa vez um bêbado tentou perguntar a cadeira os números que seriam sorteados na loteria. Por três dias a cadeira não balançou.
Todos entenderam por que. Bela sempre ensinara que o trabalho era o caminho para uma vida feliz e digna. A prefeitura decretou que estava proibido perguntar à cadeira qualquer coisa ligada a jogos de azar, ou a tentativa insistente de se prever o futuro, sob pena de prisão por subverter a ordem pública. A rua foi toda reformada para dar um cenário condizente com a respeitada cadeira. O botequim defronte, que pusera várias mesinhas na calçada e toldos protegendo do sol e da chuva, de modo que as pessoas pudessem almoçar e apreciar a paisagem da prodigiosa cadeira – havia sido todo reformado e, no domingo, houve uma festa de inauguração que começou com o café da manhã, só terminou à noite depois do jantar. Toda a cidade havia sido convidada a comer e beber de graça. À noite, o dono do estabelecimento ligou a TV que mandara trazer da capital e todos puderam assistir enfim, assistir à novela, que foi a atração naquela noite.
A festa acabou quando a TV foi desligada e todos, que haviam comido e bebido demais, foram para suas casas dormir sem reparar que a cadeira não estava mais lá.
Suas tarefas diárias terminavam à tardinha, quando entregava os pacotinhos para serem levados a todas as vendas da cidade. Dividia a cidade em cinco partes e reservava um dia da semana para cada região. Aos sábados, Bela cuidava do jardim, arrumava a casa, preparava bolo e salgadinhos para o domingo, e saía para conversar com os vizinhos no portão de sua casa. Era uma mulher gorda, porém demasiadamente ativa. Nunca ouviram-na dizer estar cansada.
Aos domingos, depois de ir à missa bem cedinho, visitava algumas casas com o objetivo de pintar as unhas, cortar e pentear os cabelos de senhoras bem idosas. Bela sempre dizia: “É preciso envelhecer com boa aparência”. Talvez por isso, quando seus olhos resolveram parar de trabalhar, Bela, mesmo cega, era capaz de pintar suas próprias unhas com a perfeição de um artista. Bela apadrinhara duas crianças do orfanato, e cuidava delas como sendo seus filhos, apesar de nunca ter conseguido adotá-las, por ser uma mulher só, e por sua baixa renda.
Quando a idade chegou, e o diabetes levou-lhe a visão, Bela limitou suas tarefas apenas às balas, e sua produção era bem menor. Diariamente sentava-se à calçada numa cadeira de balanço que tinha a idade de seu avô, mas o viço de seus bisnetos. Nessa ocasião, ela fazia longos rolinhos, bem justos, de folhas de jornais que eram usados para acender fornos caseiros e aquecedores. Vendia os rolinhos em pacotes feitos de jornal contendo em cada um trinta unidades. O valor que cobrava por eles era quase nada, mas Bela se divertia com a transação por si só. Dizem que, inexplicavelmente, ninguém precisou usar o segundo rolinho, pois o primeiro nunca acabava. Aos domingos, sentada em sua cadeira, ensinava a criançada, que ignorava sua cegueira, a fazer roupas de boneca e pipas.
Numa bela manhã de junho, Bela não apareceu à porta, e todos já sabiam por que. A imagem daquela cadeira desocupada na calçada trazia aos olhos de todos a mesma sensação da mão quando busca, e não encontra, o relógio no pulso, e trazia ao coração a mesma sensação dos olhos quando busca o tempo num relógio parado. O povoado principiou os procedimentos de organização do funeral, antes mesmo da confirmação da morte de Bela. Na véspera Bela levantara-se da cadeira mais cedo dizendo: “Por favor, me dêem licença, pois me sinto cansada e preciso descansar”. Por esse motivo, quando não apareceu naquela manhã, todos já sabiam o que fazer. Logo nos primeiros dias ninguém se prontificou a retirar a cadeira de Bela da calçada, como se Bela fosse precisar dela a qualquer momento. Nos cincos dias que se sucederam aos primeiros, a cidade foi tomada por um temporal que mais parecia o choro de todos os anjos de todos os santos e todos os mortos. Preferiram, então, deixar a cadeira secar ao sol antes de retirá-la de lá. Nos cem dias seguintes ao temporal, discutiram sem êxito, onde guardariam a cadeira. Nos cem dias que seguiram à discussão, a cada tentativa de tirar a cadeira de lá, temeram toda sorte de mau agouro que pudesse suceder à retirada.
Então a cadeira permaneceu no mesmo lugar.
Já nessa época, muitos vinham pedir conselhos à cadeira, que respondia a todos através de uma espécie de código: quando balançava para frente, dizia ‘sim’ – quando balançava para trás, dizia ‘não’. As balançadas da cadeira tinham um efeito semelhante ao das balinhas, ajudava a todos nos impasses mais atormentadores. Nunca mais se falou ou pensou na retirada da cadeira. Ela já fazia parte da paisagem da rua da cidade e do mundo. A prefeitura mandou instalar dois bancos de jardim, um em cada lado da cadeira. Ali, encontros eram marcados, vendas de propriedades, casamentos e até partos. Numa manhã, uma galinha resolveu chocar seus ovos ali, na cadeira. Ninguém se atreveu a retirá-la, e dizem que suas unhas adquiriram um brilho como se estivessem pintadas. As quermesses da igreja eram todas feitas na rua da cadeira. Junto à cadeira, os meninos faziam pipas e as meninas acompanhavam fazendo roupas de bonecas.
Certa vez um bêbado tentou perguntar a cadeira os números que seriam sorteados na loteria. Por três dias a cadeira não balançou.
Todos entenderam por que. Bela sempre ensinara que o trabalho era o caminho para uma vida feliz e digna. A prefeitura decretou que estava proibido perguntar à cadeira qualquer coisa ligada a jogos de azar, ou a tentativa insistente de se prever o futuro, sob pena de prisão por subverter a ordem pública. A rua foi toda reformada para dar um cenário condizente com a respeitada cadeira. O botequim defronte, que pusera várias mesinhas na calçada e toldos protegendo do sol e da chuva, de modo que as pessoas pudessem almoçar e apreciar a paisagem da prodigiosa cadeira – havia sido todo reformado e, no domingo, houve uma festa de inauguração que começou com o café da manhã, só terminou à noite depois do jantar. Toda a cidade havia sido convidada a comer e beber de graça. À noite, o dono do estabelecimento ligou a TV que mandara trazer da capital e todos puderam assistir enfim, assistir à novela, que foi a atração naquela noite.
A festa acabou quando a TV foi desligada e todos, que haviam comido e bebido demais, foram para suas casas dormir sem reparar que a cadeira não estava mais lá.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
A visita do acaso - Helena
Desde que criei este blog só três pessoas conhecidas receberam o endereço. Farei deste blog, o "Blog do Acaso". Ontem verifiquei que não havia ainda um comentário sequer e acabei, eu mesma postando um comentário. Resolvi não passar pra mais ninguém o endereço do meu blog. Só o acaso trará "Ilustres Desconhecidos" até aqui. Será legal ver o acaso acontecer, poderei assim conhecer a sua ociosidade.
Meu site está batendo recorde de solidão. Existem lá, páginas onde canto, outras onde escrevo outras onde falo poesia (só uma por enquanto). Mas sabe? Chega a fazer eco! É uma casa vazia onde passeiam os fantasmas da minha sensiblidade. Esses fantasmas são tão poderosos que ultimamente me impedem de entrar para colocar o restante das coisas que deveriam estar lá.
Vou dormir... amanhã postarei mais "Hiatos"
Noves fora .... nada - Helena
A mim,
Nunca foi dado
O direito de chegar
Apenas o de ir
Me sinto sobrando...
Me sobram braços,
Me sobram pernas...
Sei que a porta está fechada
Sei que ninguém me espera
Mas teimo em chegar
Não sei por que faço isso.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
O Amigo e o Retrovisor – Helena
Mesmo sabendo que o número de passageiros em busca de condução aumentava generosamente em dias chuvosos como aquele, ele experimentava sempre um intenso distanciamento da vida nesses momentos. Tudo lhe parecia estranho. Seus movimentos e suas respostas ao mundo exterior eram acidamente autômatos. A cada braço estendido, à beira da calçada, seu estômago revirava diante da idéia de se ver obrigado a fazer um mínimo contato direto com o mundo vivente, ao menos para saber o destino da viagem. Sua vontade era circular solitário até que a chuva, ou o seu coração parasse - o que acontecesse primeiro. A rotina era sempre a mesma. Respondia ao cumprimento do passageiro com um meio sorriso que se confundia com um forte espasmo facial. Ouvia o endereço de destino como um cão que escuta os lamentos de seu dono, enquando olha o trajeto das formigas no quintal. Assim que o carro entrava em movimento, se sentia seguro, graças a cumplicidade da paisagem que capturava o olhar do passageiro. Sua alma partia então em direção a algum lugar, que ele nunca soube bem onde era, mas que, quando voltava, trazia na boca o sabor dos séculos, e nas costas o peso de todas as palavras resumidas na voz do passageiro perguntando: “Quanto é?”.
Teria sido tudo exatamente assim se, naquele dia, seus olhos não tivessem passado rapidamente pelo retrovisor, antes que sua alma se retirasse para a habitual viagem. Como um soco no estômago, se vira prisioneiro da tempestade de imagens do passado que desfilavam, compondo, desde a infância, a imagem do homem que aparecia no espelho.
Sim era ele! Seu passageiro fora, durante muitos anos, o seu maior amigo, com que viveu as primeiras perguntas, sofreu as primeiras respostas, trocou abraços, socos, sonhos, segredos, namoradas, e que agora estava ali, no banco de trás de seu táxi, olhando para a rua com aquela expressão de antepassado.
E se quando o sinal fechasse ele virasse para trás e repetisse a saudação que ambos costumavam usar quando se encontravam? O amigo entenderia? E se não lembrasse dele? E se o achasse velho e acabado e infeliz? Decididamente não olharia para trás, não faria a saudação, não se deixaria descobrir pelo amigo, que agora mais parecia uma foto de jornal. Seria suficiente olhá-lo dentro do campo de visão que o retrovisor permitia. Buscou na memória a cena de minutos atrás, quando o amigo acenou para o táxi, em busca de sua imagem de corpo inteiro. Mas lembrou que, naquele momento, tentava suportar as reviravoltas de seu estômago. Nada conseguiria lembrar pois nada havia visto, a não ser a ameaça da presença de um passageiro no seu carro.
As cenas de sua infância e adolescência passeavam de mãos dadas no pequeno espaço do retrovisor, que agora já era um imenso palco, onde uma vida de cem anos caberia.
Pelo visto o amigo estava bem... teria casado? ... com certeza estava em situação melhor que a de um simples motorista de táxi.... A vontade de abraçar o amigo tomava conta de seus braços. Talvez ele quisesse encontrar nesse abraço, a razão pela qual suas vidas se subtrairam pela distância, no tempo e no espaço. Ou talvez quisesse apenas abraçar o amigo e dizer: “Cara! Seria isso uma chance?”. Mas o amigo não sabia daquela motorista, com quem compartilhara toda a cumplicidade que uma amizade suporta. Será que o amigo ainda sentia o medo do assobio da ventania, acreditando ser chegada do ‘buraco do mundo’, como costumava dizer a portuguesa que vendia cocadas e pipas para criançada?
E se na hora de pagar a viagem o amigo o reconhecesse? Será que iriam pro “Bar do Bardo” tomar cerveja com limão pra evitar a gripe, por terem pego um temporal na volta de algum lugar? Ou será que iria apenas cantarolar as teimosas músicas que fizeram durante o desejo visionário de que um dia seriam um dupla de sucesso?
Pelos trajes, o amigo devia estar bem de vida e talvez não tivesse olhar para as lembranças... “Há amizades que não precisam de convivência nem, contato, se preservam por si só. Há outras que sucumbem, se não houver convivência... " Qual teria sido a amizade deles? Sido? Será que não era mais? Vasculhou a memória tentando lembrar a última vez que pensara no amigo antes que ele entrasse no seu carro há minutos atrás. Não conseguia lembrar, parece que o amigo sempre estivera ali exatamente como um espelho retrovisor, que a gente nem lembra que existe, a não ser quando resolve precisar dele e não o encontra.
Talvez fosse, aquela, a última chance de ele reencontrar o amigo que sempre estivera lá, e se ele deixasse passar nunca mais o reencontraria, e nunca mais ele estaria lá. Então seria melhor fazer a ‘familiar saudação’ ao amigo. Ou melhor, ele sorriria para o amigo. Sorriria em código. O amigo, com certeza, reconheceria, pois sempre que precisavam se comunicar em público sem que ninguém reparasse, usavam ‘caras e bocas’ que tinham, todas, significado próprio.
O endereço de destino estava chegando, seu coração parecia que ia saltar pela boca. Nesses últimos minutos percebeu o quanto tinha envelhecido e também o quanto se deixou envelhecer. Naquele instante se sentia um menino pronto para pular o muro da escola e jogar bola, ou um rapaz ansioso por entrar de ‘penetra’ no baile e dançar com a mais linda garota. Um desfile, cada vez mais rápido, de cenas da sua vida com seu amigo passageiro - passava por sua mente. Chegou a ouvir sons, sentir cheiros, sabores e texturas. Tudo, de uma vez só, se precipitava naquele momento. Despertou com a voz do amigo: - “É logo ali na frente. O prédio azul”.
Ele tinha ainda a mesma voz. E com certeza era muito rico (a valer pelo prédio). Talvez não valesse a pena segurar essa chance. Talvez não fosse uma chance.
– “Quanto é? “. Olhou para trás. Pegou o dinheiro. – “Pode ficar com o troco”.
Ele também estava bem marcado pelo tempo... Não era o mesmo do retrovisor... Talvez não fosse tão feliz assim... Talvez não tivesse filhos...
Despertou para o mundo do nada com o som da porta batendo. E seguiu em círculos a espera do que parasse primeiro. A chuva ou seu coração.
No quarto do zelador do grande prédio azul:
- “Nossa meu filho, que dia de merda! Tomei um banho de chuva, tive que negociar meus vales-transporte pra poder pegar um táxi, e ainda peguei um motorista viado que me olhou o tempo todo pelo retrovisor, e quase me agarrou na hora em que fui pagar. Deixei o troco para ele e me mandei.”
Teria sido tudo exatamente assim se, naquele dia, seus olhos não tivessem passado rapidamente pelo retrovisor, antes que sua alma se retirasse para a habitual viagem. Como um soco no estômago, se vira prisioneiro da tempestade de imagens do passado que desfilavam, compondo, desde a infância, a imagem do homem que aparecia no espelho.
Sim era ele! Seu passageiro fora, durante muitos anos, o seu maior amigo, com que viveu as primeiras perguntas, sofreu as primeiras respostas, trocou abraços, socos, sonhos, segredos, namoradas, e que agora estava ali, no banco de trás de seu táxi, olhando para a rua com aquela expressão de antepassado.
E se quando o sinal fechasse ele virasse para trás e repetisse a saudação que ambos costumavam usar quando se encontravam? O amigo entenderia? E se não lembrasse dele? E se o achasse velho e acabado e infeliz? Decididamente não olharia para trás, não faria a saudação, não se deixaria descobrir pelo amigo, que agora mais parecia uma foto de jornal. Seria suficiente olhá-lo dentro do campo de visão que o retrovisor permitia. Buscou na memória a cena de minutos atrás, quando o amigo acenou para o táxi, em busca de sua imagem de corpo inteiro. Mas lembrou que, naquele momento, tentava suportar as reviravoltas de seu estômago. Nada conseguiria lembrar pois nada havia visto, a não ser a ameaça da presença de um passageiro no seu carro.
As cenas de sua infância e adolescência passeavam de mãos dadas no pequeno espaço do retrovisor, que agora já era um imenso palco, onde uma vida de cem anos caberia.
Pelo visto o amigo estava bem... teria casado? ... com certeza estava em situação melhor que a de um simples motorista de táxi.... A vontade de abraçar o amigo tomava conta de seus braços. Talvez ele quisesse encontrar nesse abraço, a razão pela qual suas vidas se subtrairam pela distância, no tempo e no espaço. Ou talvez quisesse apenas abraçar o amigo e dizer: “Cara! Seria isso uma chance?”. Mas o amigo não sabia daquela motorista, com quem compartilhara toda a cumplicidade que uma amizade suporta. Será que o amigo ainda sentia o medo do assobio da ventania, acreditando ser chegada do ‘buraco do mundo’, como costumava dizer a portuguesa que vendia cocadas e pipas para criançada?
E se na hora de pagar a viagem o amigo o reconhecesse? Será que iriam pro “Bar do Bardo” tomar cerveja com limão pra evitar a gripe, por terem pego um temporal na volta de algum lugar? Ou será que iria apenas cantarolar as teimosas músicas que fizeram durante o desejo visionário de que um dia seriam um dupla de sucesso?
Pelos trajes, o amigo devia estar bem de vida e talvez não tivesse olhar para as lembranças... “Há amizades que não precisam de convivência nem, contato, se preservam por si só. Há outras que sucumbem, se não houver convivência... " Qual teria sido a amizade deles? Sido? Será que não era mais? Vasculhou a memória tentando lembrar a última vez que pensara no amigo antes que ele entrasse no seu carro há minutos atrás. Não conseguia lembrar, parece que o amigo sempre estivera ali exatamente como um espelho retrovisor, que a gente nem lembra que existe, a não ser quando resolve precisar dele e não o encontra.
Talvez fosse, aquela, a última chance de ele reencontrar o amigo que sempre estivera lá, e se ele deixasse passar nunca mais o reencontraria, e nunca mais ele estaria lá. Então seria melhor fazer a ‘familiar saudação’ ao amigo. Ou melhor, ele sorriria para o amigo. Sorriria em código. O amigo, com certeza, reconheceria, pois sempre que precisavam se comunicar em público sem que ninguém reparasse, usavam ‘caras e bocas’ que tinham, todas, significado próprio.
O endereço de destino estava chegando, seu coração parecia que ia saltar pela boca. Nesses últimos minutos percebeu o quanto tinha envelhecido e também o quanto se deixou envelhecer. Naquele instante se sentia um menino pronto para pular o muro da escola e jogar bola, ou um rapaz ansioso por entrar de ‘penetra’ no baile e dançar com a mais linda garota. Um desfile, cada vez mais rápido, de cenas da sua vida com seu amigo passageiro - passava por sua mente. Chegou a ouvir sons, sentir cheiros, sabores e texturas. Tudo, de uma vez só, se precipitava naquele momento. Despertou com a voz do amigo: - “É logo ali na frente. O prédio azul”.
Ele tinha ainda a mesma voz. E com certeza era muito rico (a valer pelo prédio). Talvez não valesse a pena segurar essa chance. Talvez não fosse uma chance.
– “Quanto é? “. Olhou para trás. Pegou o dinheiro. – “Pode ficar com o troco”.
Ele também estava bem marcado pelo tempo... Não era o mesmo do retrovisor... Talvez não fosse tão feliz assim... Talvez não tivesse filhos...
Despertou para o mundo do nada com o som da porta batendo. E seguiu em círculos a espera do que parasse primeiro. A chuva ou seu coração.
No quarto do zelador do grande prédio azul:
- “Nossa meu filho, que dia de merda! Tomei um banho de chuva, tive que negociar meus vales-transporte pra poder pegar um táxi, e ainda peguei um motorista viado que me olhou o tempo todo pelo retrovisor, e quase me agarrou na hora em que fui pagar. Deixei o troco para ele e me mandei.”
sexta-feira, 30 de março de 2007
Esperança - Mário Quintana
(“Natal, uma tentativa agonizante de o ser humano acreditar que conquistou alguma coisa no decorrer do ano. Mas a humanidade não evoluiu absolutamente nada desde o primeiro Natal.” - Helena Antoun)
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
quarta-feira, 28 de março de 2007
A coisa (Mário Quintana)
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
segunda-feira, 26 de março de 2007
O cupim que consome o Brasil - Helena
“Se o Brasil fosse uma árvore, a esperteza brasileira seria o cupim.”
O péssimo hábito brasileiro de criticar e nada se orgulhar de seus próprios produtos, estende-se de forma flagrante à esfera de nossos dirigentes eleitos. Vivo nos Estados Unidos, e vejo a diferença na postura do povo daqui. Até mesmo os brasileiros que aqui residem acabam por respeitar o direito do outro, a propriedade do outro, ou seja, respeitar os limites de carater e moral tão necessários para que uma sociedade possa avançar. Mesmo não tendo votado no presidente que se encontra no poder, o norte-americano tem o costume saudável de colaborar com as decisões tomadas por esse mesmo presidente (ou governador ou prefeito). Não há sabotagem nem crítica esculhambatória, apenas críticas construtivas, claro com alguma dose de humor às vezes. O norte-americano prioriza a sua própria sociedade, a sua própria nação. Por essa razão, sabotar os planos de dirigentes no poder, é visto como estupidez, leviandade, burrice e outras coisas mais. Aqui, comparam-se pontos negativos de um dirigente, com os pontos negativos de um outro dirigente oponente, e não como se faz no Brasil, onde se comparam os pontos negativos de um com a possibilidade de pontos positivos de um outro canditado que porventura poderia ter sido eleito, ou continuado seu mandato, ou isso ou aquilo. E assim, o brasileiro acaba por comparar realidade com sonhos e com esperanças do que poderia ter sido melhor. É difícil demais julgar corretamente. Nós brasileiros temos o costume de lançarmos mão de uma onipotência, que julgamos possuir, para determinarmos que seria melhor com um ou com outro governante. Fazemos isso quando se trata de governantes, técnicos de futebol, professores, médicos, jurados de festivais, jurados de desfile de escolas de samba e tantos outros. Àqueles que ousam tomar decisões críticas e delicadas em nosso nome, presenteamos com uma chuva de críticas perjorativas, insultos, e até mesmo o caráter de sujeito se torna passível de suspeita. Aqui, na América do Norte, julga-se o presidente pelos resultados, mas sabe-se esperar os resultados, e colabora-se com os meios para se alcançar os resultados. Mas lamentávelmente nós, brasileiros, nunca procuramos saber, com imparcialidade, a que fim pretende chegar um governante, quando este toma uma decisão que não é de nosso agrado.
Qualquer mudança de governo gera momentos difícieis e todos deviam saber disso, principalmente se considerarmos que o anterior nada facilitou para o proximo que virá, e ainda escondeu de seu sucessor a real situação caótica à sua espera. Eu imagino que assuste ser presidente. Muitos acreditaram estar preparados para tal. Acreditaram mesmo! Como nós mesmos também acreditamos ser capazes de tantas coisas. Quando a responsabilidade, de fato e de direito, lhe chegas às mãos, o sujeito percebe o quanto é dificil fazê-lo, ainda mais tratando-se de um país que está, há muito, mergulhado no caos.
É fácil governar um país que já funciona. Um país cujas engrenagens estão devidamente “azeitadas” e deslizam umas nas outras. Mas governar um país que nunca chegou nem perto disso ou de qualquer outro bom funcionamento... Nossa! Isso na minha opinião deve ser quase impossível.
Bom, enfim, de fato fica difícl que algum presidente (dirigente) eleito possa conseguir fazer qualquer tipo de trabalho produtivo ou promissor quando nós, o povo, praticamos, em micro sistema, pequenas concordatas, subornos, velhacarias, apropriações indevidas, tais quais aquelas que se realizam, em macro sistema, nas esferas governamentais.
Ainda que nos fosse trazido um Messias, esse correria o risco de ser contaminado pelo virús da histórica e patética ”Esperteza Brasileira”.
O péssimo hábito brasileiro de criticar e nada se orgulhar de seus próprios produtos, estende-se de forma flagrante à esfera de nossos dirigentes eleitos. Vivo nos Estados Unidos, e vejo a diferença na postura do povo daqui. Até mesmo os brasileiros que aqui residem acabam por respeitar o direito do outro, a propriedade do outro, ou seja, respeitar os limites de carater e moral tão necessários para que uma sociedade possa avançar. Mesmo não tendo votado no presidente que se encontra no poder, o norte-americano tem o costume saudável de colaborar com as decisões tomadas por esse mesmo presidente (ou governador ou prefeito). Não há sabotagem nem crítica esculhambatória, apenas críticas construtivas, claro com alguma dose de humor às vezes. O norte-americano prioriza a sua própria sociedade, a sua própria nação. Por essa razão, sabotar os planos de dirigentes no poder, é visto como estupidez, leviandade, burrice e outras coisas mais. Aqui, comparam-se pontos negativos de um dirigente, com os pontos negativos de um outro dirigente oponente, e não como se faz no Brasil, onde se comparam os pontos negativos de um com a possibilidade de pontos positivos de um outro canditado que porventura poderia ter sido eleito, ou continuado seu mandato, ou isso ou aquilo. E assim, o brasileiro acaba por comparar realidade com sonhos e com esperanças do que poderia ter sido melhor. É difícil demais julgar corretamente. Nós brasileiros temos o costume de lançarmos mão de uma onipotência, que julgamos possuir, para determinarmos que seria melhor com um ou com outro governante. Fazemos isso quando se trata de governantes, técnicos de futebol, professores, médicos, jurados de festivais, jurados de desfile de escolas de samba e tantos outros. Àqueles que ousam tomar decisões críticas e delicadas em nosso nome, presenteamos com uma chuva de críticas perjorativas, insultos, e até mesmo o caráter de sujeito se torna passível de suspeita. Aqui, na América do Norte, julga-se o presidente pelos resultados, mas sabe-se esperar os resultados, e colabora-se com os meios para se alcançar os resultados. Mas lamentávelmente nós, brasileiros, nunca procuramos saber, com imparcialidade, a que fim pretende chegar um governante, quando este toma uma decisão que não é de nosso agrado.
Qualquer mudança de governo gera momentos difícieis e todos deviam saber disso, principalmente se considerarmos que o anterior nada facilitou para o proximo que virá, e ainda escondeu de seu sucessor a real situação caótica à sua espera. Eu imagino que assuste ser presidente. Muitos acreditaram estar preparados para tal. Acreditaram mesmo! Como nós mesmos também acreditamos ser capazes de tantas coisas. Quando a responsabilidade, de fato e de direito, lhe chegas às mãos, o sujeito percebe o quanto é dificil fazê-lo, ainda mais tratando-se de um país que está, há muito, mergulhado no caos.
É fácil governar um país que já funciona. Um país cujas engrenagens estão devidamente “azeitadas” e deslizam umas nas outras. Mas governar um país que nunca chegou nem perto disso ou de qualquer outro bom funcionamento... Nossa! Isso na minha opinião deve ser quase impossível.
Bom, enfim, de fato fica difícl que algum presidente (dirigente) eleito possa conseguir fazer qualquer tipo de trabalho produtivo ou promissor quando nós, o povo, praticamos, em micro sistema, pequenas concordatas, subornos, velhacarias, apropriações indevidas, tais quais aquelas que se realizam, em macro sistema, nas esferas governamentais.
Ainda que nos fosse trazido um Messias, esse correria o risco de ser contaminado pelo virús da histórica e patética ”Esperteza Brasileira”.
O crachá religioso – Helena
A questão da opção religiosa se dá ultimamente como um cartão de visita, ou melhor, como um crachá de aceitação em determinados meios sociais. Pasmem! Mas ainda encontramos (e muito!) pessoas que selecionam outras de acordo com a opção religiosa. Difícil saber de onde pode surgir tanta prepotência em acreditar que se fez a escolha correta e portanto quem não comunga da mesma opção deva ser alijado de nosso meio. Outro dia eu escutava duas senhoras conversando e fazendo críticas severas, crúeis até, a uma outra pessoa que não se encontrava no local. Acontece que essa pessoa a que ambas criticavam, pertencia ao Candomblé, e por essa razão, sofreu em menos de dez minutos toda a sorte de enxovalhos, inclusive sobre seu caráter. Longe de procurarem saber sobre o que falavam, essas duas senhoras discorreram sobre o Candomblé com tamanha fúria que me vi impelida a procurar entender um pouco sobre o assunto para poder pensar algo em sua defesa. Com isso me vi de frente ao racismo cultural que é uma realidade que acompanha a nossa história, desde os seus primórdios. Estaria mais ligado às diferenças apresentadas por grupos humanos pertencentes a um sistema delimitado geneticamente, e caracterizado por comportamentos sociais, características biológicas, e culturais significativamente diferentes daqueles apresentados dentro de uma sociedade maior. Essas características passam a ser a causa e ao mesmo tempo a justificativa para a diferenciação do grupo em questão e, principalmente, para o surgimento de preconceitos e injustiças.
Confesso que me comovi.
Decidi, então, discutir o Racismo Cultural, discorrendo sobre um dos mais fortes e assustadores de nossa história. A escravidão de negros, e a perseguição feita à sua cultura e, em especial, à sua cultura religiosa.
As religiões africanas sofreram modificações de sua origem, por terem que se inserir em meio escravo. Ali, eram evidentes a miséria e degradação humana, e havia muito pouca esperança de modificação dessa realidade. Sem falar das perseguições que acompanharam seu povo desde um dos mais desumanos e vergonhosos holocaustos praticados até hoje, e que adquiriu um caráter consensual entre as civilizações.
Ao contrário da repugnante ideologia nazista tão repudiada pelas mais diversas representações da humanidade, o regime da escravidão, tido por muitos como natural, foi mantido sob o olhar vigilante, dos que se diziam possuidores de princípios humanitários pautados na ética e na moral.
Eis a mais pura manifestação da “insanidade” humana. O retrato mais claro do ponto de degradação a que pode chegar a humanidade.
Diferente do nazismo que se estabeleceu em decorrência do domínio de um indivíduo psicótico sobre as massas, a escravatura visava auferir benefícios materiais a quem a adotava.
Até hoje nada foi feito para reparar o mal a que se submeteu esse povo que, arrancado de sua terra natal, obrigado viver uma vida de humilhações, mortes e sofrimentos constantes, ainda está a colher os frutos de tão inclassificável empresa.
Se a sociedade é um organismo vivo decerto conheceu na escravatura, um vírus que leva a humanidade à ameaça de autodestrtuição.
Diante disso achei, por bem, que o mínimo que eu poderia fazer por esse povo, era olhar sua religião como uma doutrina santa e merecedora de respeito das demais.
Alguns depoimentos:
Mãe Stella de Oxóssi nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3e_Stella_de_Ox%C3%B3ssi)
“Daqui prá frente, os filhos de gente de Santo rompem decididamente, com quase cinco séculos de silêncio, imposto desde a chegada das masmorras e pelourinhos, para fazer de sua religião uma só voz. O Candomblé não é uma questão de opinião. É uma realidade religiosa que só pode ser realizada dentro de sua pureza de propósitos”.
Pierre Verger nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Fatumbi_Verger)
“O Candomblé sobrevive até hoje, porque não querer convencer às pessoas sobre uma verdade absoluta, ao contrário da maioria das religiões
Eu concluo:
“O Candomblé sobrevive, por ter sido professado por um povo que sobreviveu à escravidão, aos preconceitos raciais, aos preconceitos sociais, e a colonizações desumanas. Como é possível, então, que sua religião também não sobreviva?”
Confesso que me comovi.
Decidi, então, discutir o Racismo Cultural, discorrendo sobre um dos mais fortes e assustadores de nossa história. A escravidão de negros, e a perseguição feita à sua cultura e, em especial, à sua cultura religiosa.
As religiões africanas sofreram modificações de sua origem, por terem que se inserir em meio escravo. Ali, eram evidentes a miséria e degradação humana, e havia muito pouca esperança de modificação dessa realidade. Sem falar das perseguições que acompanharam seu povo desde um dos mais desumanos e vergonhosos holocaustos praticados até hoje, e que adquiriu um caráter consensual entre as civilizações.
Ao contrário da repugnante ideologia nazista tão repudiada pelas mais diversas representações da humanidade, o regime da escravidão, tido por muitos como natural, foi mantido sob o olhar vigilante, dos que se diziam possuidores de princípios humanitários pautados na ética e na moral.
Eis a mais pura manifestação da “insanidade” humana. O retrato mais claro do ponto de degradação a que pode chegar a humanidade.
Diferente do nazismo que se estabeleceu em decorrência do domínio de um indivíduo psicótico sobre as massas, a escravatura visava auferir benefícios materiais a quem a adotava.
Até hoje nada foi feito para reparar o mal a que se submeteu esse povo que, arrancado de sua terra natal, obrigado viver uma vida de humilhações, mortes e sofrimentos constantes, ainda está a colher os frutos de tão inclassificável empresa.
Se a sociedade é um organismo vivo decerto conheceu na escravatura, um vírus que leva a humanidade à ameaça de autodestrtuição.
Diante disso achei, por bem, que o mínimo que eu poderia fazer por esse povo, era olhar sua religião como uma doutrina santa e merecedora de respeito das demais.
Alguns depoimentos:
Mãe Stella de Oxóssi nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3e_Stella_de_Ox%C3%B3ssi)
“Daqui prá frente, os filhos de gente de Santo rompem decididamente, com quase cinco séculos de silêncio, imposto desde a chegada das masmorras e pelourinhos, para fazer de sua religião uma só voz. O Candomblé não é uma questão de opinião. É uma realidade religiosa que só pode ser realizada dentro de sua pureza de propósitos”.
Pierre Verger nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Fatumbi_Verger)
“O Candomblé sobrevive até hoje, porque não querer convencer às pessoas sobre uma verdade absoluta, ao contrário da maioria das religiões
Eu concluo:
“O Candomblé sobrevive, por ter sido professado por um povo que sobreviveu à escravidão, aos preconceitos raciais, aos preconceitos sociais, e a colonizações desumanas. Como é possível, então, que sua religião também não sobreviva?”
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