sexta-feira, 20 de abril de 2007

A Canja - Helena

A Canja – Helena Antoun

Naquela manhã de outono, Iracema acordou, e percebeu na cama, ao seu lado, o corpo inerte e frio de seu marido que morrera durante a noite. Iracema lembrou que, na madrugada, sentira Osvaldo, se remexer muito durante o sono, mas acreditou ser mais um dos pesadelos que seu marido costumava ter, onde combatia seres marinhos que invadiam a cidade em busca dos vasos de cerâmica que as mulheres do povoado fabricavam. “Provavelmente o coração do marido não suportara o combate noturno”, pensou Iracema, enquanto, de novo, tentava se acordar, na esperança de ter sido apenas um sonho ruim. Em meio às lágrimas e aos lamentos, repetidos como ladainha, Cema, como Osvaldo costumava chamá-la, tratou de vestir uma roupa mais decente no marido, penteou e perfumou os cabelos do morto, se aprontou e saiu, na manhã fria, em busca do farmacêutico, que era uma espécie de médico de tudo, para descobrir se a causa da morte de fato havia sido a guerra aquática, jurando que urinaria e defecaria diariamente no mar, para vingar a morte de seu marido, até que todos os oceanos se transformassem em fossas abertas dos continentes, e que todas as criaturas oceânicas se reduzissem a um gigantesco Iceberg de merda.

Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.
Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.

O sonho (pesadelo?) Americano – Helena

O, difundido mundialmente, ‘Sonho Americano’ – dorme distraído sobre a cama dura do pesadelo dos imigrantes.
Falta ao povo americano sair do seu mundo de faz-de-conta, e acordar para a realidade que, mundialmente, salta aos olhos de todos, e que aponta para a participação ativa e maciça dos imigrantes, na construção do clássico “sonho americano”.
Por décadas, o império americano vem sendo mantido pela mão-de-obra cosmopolita. Centenas de milhares de imigrantes correm para a América em busca de melhores condições de vida, proporcionadas pelo propagado sonho, sem saberem que são eles os próprios mantenedores deste. A América, através do sistema das leis de imigração, vive uma farsa onde, fingindo não saber, deixa cair migalhas para o cachorrinho que, em expectativa silenciosa, aguarda escondido debaixo da mesa. E dessas migalhas se sustentam os milhões de imigrantes, atraídos pelo aroma, e impulsionados pela fome em busca de alimento. As migalhas são nada mais nada menos do que todo o trabalho desqualificado pelo cidadão americano. Há muito, os trabalhos domésticos (limpeza, jardinagem, serviços de babá, etc), vêm sendo executados por mão-de-obra imigrante. À medida em que essa massa de trabalhadores foi comprovando dedicação e competência, os horizontes foram se ampliando, até chegar aos dias de hoje, em que os mais diversos setores da economia americana têm como componente esse tipo de mão-de-obra. Isso seria pouco, se não acrescentássemos o fato de que cidadãos honrados em seus países de origem, se vêm, para que possam trabalhar, obrigados a lançar mão de expedientes ilegais como documentação e até nomes falsos. Pessoas que querem justamente buscar no trabalho, um meio digno de sobrevivência não podem receber o status de criminoso. Isso seria uma flagrante inversão de valores.
A partir do momento em que o imigrante se estabelece num emprego usando documentação falsa, os recolhimentos de impostos são iniciados. Porém, o trabalhador não pode sequer gozar dos benefícios decorrentes. Com isso a América se beneficia de incontáveis milhões de doláres anuais, que nunca retornam às mãos de quem contribuiu para que se chegasse a esse número.
Será que podemos nomear como criminosos, aqueles que colocam em risco suas vidas para que possam trabalhar? Que visão estrábica é essa onde o trabalho, ou melhor, a busca pelo trabalho duro, é rotulada como crime, enquanto a manutenção desse sistema de exploração vergonhosa, é praticada sob o olhar condescendente de governos, igrejas e autoridades, tida como uma coisa normal e aceitável? Não se coloca uma maçã na frente de um faminto, sem que o submeta à uma escolha injusta: a fome ou o “crime”de roubar a maçã. Acontece que a “maçã” de que falamos, nada mais é do que os trabalhos duros que a América não quer fazer. E entre esses estão até mesmo os cuidados pessoais com os idosos americanos, cuidados maternos com crianças americanas, e cuidados caseiros muitas vezes preparando a comida de inúmeras famílias americanas.
Depois da escravatura, era necessário encontrar um meio de se ter mão-de-obra barata para o país, pois o povo outrora escravizado, lutara por seus direitos, tornando-se mão-de-obra onerosa. Seria então o imigrante que, atraído pela isca do “sonho americano” jogada na midia, iria manter uma forma, legitimada pelo mundo, de exploração do trabalho humano - transformando o “algoz” em “vítima”; o “explorado” em “criminoso”.
Lastimável - Na América, o imigrante não tem acesso (senão pela ilegalidade) a tratamento médico, pois para que se inscreva num seguro saúde, exige-se o número do seguro social, o que só é concedido aos cidadãos americanos. Nos Estados Unidos, o tratamento médico é muito mas muito dispendioso. Uma família imigrante, com seus ganhos somados, não consegue sustentar o tratamento de sequer um dos membros portador de alguma enfermidade grave, ou acidentado, que venha a precisar de tratamento médico-hospitalar, medicação e exames. Com isso, o imigrante vê sua saúde sendo subtraída, seus dentes se perdendo, seu corpo tendo que se adequar às modificacoes impostas pelas enfermidades que possam surgir. Em suma: O imigrante não pode ficar doente, pois precisa trabalhar, e mesmo trabalhando, não tem como pagar o tratamento.
A cultura de uso de produtos descartáveis se alastrou como infecção no organismo da nação americana, chegando à fase aguda, onde, em delirios convulsivos, o país começa acreditar que “vidas também são descartáveis”.

o Homem é o único animal que... – Helena

São cinco os nossos sentidos físicos; visão, audição, tato, olfato e paladar. Eles dão ao Homem a percepção do mundo em que vive. Mas como obter a percepção de nós mesmos? Como saber quem é esse “ser” que vê, que ouve, que toca, que cheira e que prova o mundo exterior? Todos os nossos órgãos dos sentidos, olhos, ouvidos, pele, nariz e boca, estão, na verdade, de costas para nós. A bem da verdade, existem mecanismos para dar ao Homem a percepção de si, a auto-consciência, mas parece que o Homem busca sempre se afastar da percepção de si mesmo. Pode-se reparar isso nas afirmações do tipo: “ o Homem é o único animal que...”, expressão tão repetida por todos, e que busca fazer comparações entre a espécie humana, e as demais espécies do reino animal, buscando equiparar o comportamento humano com o dos animais irracionais nos mais diversos aspectos: ... que toma leite depois de adulto; ...que se acasala sem ser para procriação... O Homem não pode se comparar com os demais animais, simplesmente, porque: o Homem é o único animal que... pensa! E se pensa, pode adquirir consciência de si e consequentemente ser livre (ou não) através da escolha. O Homem não pode ser catalogado, nem avaliado como membro do mundo animal irracional!
Escolha! A manifestação mais precisa da liberdade! Estamos a todo momento fazendo escolhas, e estas, por mais variadas que sejam, acabam por se resumirem a numa simples oposição: por nós x contra nós. Se não soubermos quem somos nós (auto-consciência), não podemos fazer escolhas. Sem escolhas: sem liberdade.
‘Escolher’ assusta. O Homem diante da escolha se torna vulnerável. O processo de escolha, em que vivemos, nos faz passar a todo momento pela angústia do desconhecimento do ‘porvir’. Amedrontado, o Homem foge dessa liberdade real, abrindo hiatos para a entrada da ‘anti-liberdade’, a padronização, a fábrica de ídolos que salva o Homem dessa imensa angústia decorrente das escolhas que são a expressão da liberdade. Assim, cada vez mais, o ser humano foge de si mesmo, se substitui por ídolos, e abre mão de ‘ser’ entrando em intenso processo de despersonalização e perda de identidade.
A auto-consciência não poupa o indivíduo das angústias decorrentes do processo de escolhas, mas lhe assegura a capacidade de elaborá-las, levando-o a uma liberdade saudável que, logicamente, não se traduz em fazer o que é proibido, fazer tudo o que se quer, ou não fazer o que se deve, mas sim buscar a justa adequação entre esses três aspectos. Tudo se agrava à medida em que o sujeito se vê controlado por condicionamentos da infância que, mesmo esquecidos, ainda o impulsionam inconscientemente, impelindo-o sem que ele possa controlar. Nessas condições, a pessoa torna-se enfraquecida e manipulável. Vemos em muitos autores, idéias como estas aqui descritas que, parece, se completam, se acrescentam, se enriquecem. Se procurarmos, encontraremos, talvez centenas, talvez milhares de outros tantos artigos, crônicas, novelas, poemas, livros, filmes, peças, ensaios, conversas... onde as mesmas impressões são deixadas, as mesmas preocupações são demonstradas, os mesmos sonhos são embalados. Então, porque a humanidade ainda não se apercebeu disso tudo e não conseguiu equacionar esse conflito ? Seria por que... “o Homem é o único animal que...” é masoquista???

O mergulho da entrega – Helena

Na loucura,
Só o paciente
conhece o caminho da ida.
Dê-lha a mão doutor!
Ele te conduzirá até lá.
Uma vez lá estando doutor,
dispa-se de seu pensar,
de nada lhe servirá.
Use os trajes que seu anfitrião lhe sugere.
Cuspa fora suas próprias palavras e linguagem
Adote o idioma que lá é entendido,
mesmo que lhe pareça absurdo.
Depois ofereça-lhe a mão doutor,
pois talvez, dos dois,
só você saiba o caminho de volta.
Com os fragmentos
do pensar ali encontrado,
vá tecendo a estrada,
E sobre a estrada doutor,
conduza-o de volta,
Mesmo que depois ele retorne.
O importante
É trazê-lo sempre que possível.
Mas lembre-se doutor!
Nunca se esqueça: Você deverá estar completamente nú.

O Medo do Medo - Helena (à minha amiga vítima da síndrome do pânico)

E agora ?
O medo de morrer, os suores frios,
As verigens, taquicardias,
Tremores e temores...
Eles se foram.
A morte, para a qual tanto se preparou,
Não veio...
As embalagens de remédio,
As sobras de Florais de Bach,
As orações, os amuletos, as simpatias,
Os cartões de clínicas de emergência,
Os resultados de eletrocardiogramas...
Joga-se tudo fora...

Mas as, constantes e repetidas,
Despedidas e providências escritas,
A cada momento que se acreditava ser o último,
Foram todas elas vistas, revistas...
E vão ficar por aí em alguma gaveta em busca de sentido.

Ou quem sabe possam, um dia, vir a ser realmente necessárias ?...
( realmente!? )

Talvez elas fiquem como uma prova de veracidade
Daquilo, que se espera, um dia acreditar
Ter sido um pesadelo.

Talvez fiquem como lembrança...

Pode ser que, enquanto tudo acontecia,
Medo e sujeito tenham se tornado cúmplices
E íntimos companheiros....
Sendo assim, sujeito não pode mais viver sem medo!
Mas que medo?
O medo ?
O medo de sentir medo?
O medo de não mais saber reconhecer o medo?
O medo de que, com o esquecimento
Trazido pelo passar dos tempos
Não se possa mais reconhecer no outro,
Traços daqueles “sentires” um dia sentidos.
Medo de que, para não mais sentir medo...
Tenha-se tornado embrutecido
E capaz de, como tantos um dia o fizeram,
Banalizar a agonia intermitente
Que é o medo-do-medo

quinta-feira, 19 de abril de 2007

A Canja – Helena

Naquela manhã de outono, Iracema acordou, e percebeu na cama, ao seu lado, o corpo inerte e frio de seu marido que morrera durante a noite. Iracema lembrou que, na madrugada, sentira Osvaldo, se remexer muito durante o sono, mas acreditou ser mais um dos pesadelos que seu marido costumava ter, onde combatia seres marinhos que invadiam a cidade em busca dos vasos de cerâmica que as mulheres do povoado fabricavam. “Provavelmente o coração do marido não suportara o combate noturno”, pensou Iracema, enquanto, de novo, tentava se acordar, na esperança de ter sido apenas um sonho ruim. Em meio às lágrimas e aos lamentos, repetidos como ladainha, Cema, como Osvaldo costumava chamá-la, tratou de vestir uma roupa mais decente no marido, penteou e perfumou os cabelos do morto, se aprontou e saiu, na manhã fria, em busca do farmacêutico, que era uma espécie de médico de tudo, para descobrir se a causa da morte de fato havia sido a guerra aquática, jurando que urinaria e defecaria diariamente no mar, para vingar a morte de seu marido, até que todos os oceanos se transformassem em fossas abertas dos continentes, e que todas as criaturas oceânicas se reduzissem a um gigantesco Iceberg de merda.

Alcindo, ao ver o corpo de Osvaldo lamentou em voz alta: - “O pobre coitado deve ter tentado respirar”. E mostrou a Iracema a coloração extremamente arroxeada para o pouco tempo de morto, mas a mulher via a cor como um sinal claro de afogamento nas profundezas marítimas. Os olhos arregalados e saltados, que para Iracema eram um forte indício de que o marido tentara se transformar em alguma espécie de peixe durante o sono – eram na verdade sinais incontestáveis da asfixia. Alcindo pôs-se, então, a examinar meticulosamente o corpo do amigo, enquanto lembrava das últimas visitas que Osvaldo fizera à farmácia em busca de pedra ume para curar suas aftas. Verificou que o interior da boca de Osvaldo se encontrava entumescido pelo excesso de sangue ali agrupado, e que seus dentes estavam, quase todos, na iminência de se soltarem. Mais adiante, conforme introduzia os dedos pela garganta do amigo, Alcindo encontrou, na laringe, a causa mortis do infeliz: um molar. Osvaldo havia se asfixiado com seu próprio dente que, através da raiz pontuda, se prendera à laringe, provocando inchação e fechamento, causando a axfixia.
Alcindo, enquanto escrevia o laudo de óbito, explicava à Iracema que Osvaldo vinha sofrendo, talvez, de algum mal que lhe tornava frouxos os dentes, e que por essa razão, o dente se subtraíra durante o sono, causando a morte do amigo. Iracema enquanto ouvia, chorava e preparava um café com broa para o médico. Pensava no quanto devia ter sido difícil para o marido, combater os seres aquáticos e ainda se livrar do dente que se acovardara e insistia em abandonar a batalha. Assim que Alcindo saiu, Iracema correu ao espelho do banheiro para verificar seus próprios dentes que também andavam frouxos querendo abandonar seus lugares. Desde então, teve medo de comer qualquer coisa mastigável.
O funeral transcorrera normalmente. O café com sanduíches de mortadela (era costume serví-los em funerais) foram servidos na casa da vizinha Cléo. Por algum motivo os sanduíches quase não foram tocados, exceto pelas crianças. As conversas giravam em torno das batalhas noturnas de Osvaldo, que Iracema não se conteve em calar por acreditar serem a causa de tudo – e do outono dos dentes do falecido.
À noite, Iracema não conseguia dormir, temia que seus dentes resolvessem desertar durante o sono, ou que os seres marinhos a procurassem para continuar a batalha de onde seu marido parara. Foi para a frente da casa olhar a noite, e procurar por algum acontecimento noturno que ela desconhecesse, e que pudesse servir de pista para a descoberta desse mal dentário que invadira sua casa. Reparou que todas as casas vizinhas mantinham, algumas luzes acesas. O calor era grande e Iracema, ainda na sua dieta líquida, preparou um suco de graviola, sentou-se no banco de pedra da calçada e, enquanto tomava o alimento, observava intrigada um certo movimento noturno nas casa vizinhas e de que nunca se dera conta.
Quando amanheceu, preparou um café forte para conseguir ficar de pé, depois da noite insone, e tomou-o com algumas sobras do pão do funeral molhados no café até se tornarem-se pasta.
Iracema dava aulas de soma e subtração na escola do povoado. Neste dia, enquanto caminhava para a escola, pensava no que seria da cidade sem a proteção de Osvaldo nas guerras molhadas de todas as noites. À tarde, trabalhou como de costume nos vasos de cerâmica, e tratou de guardá-los no porão da casa onde Osvaldo costumava escondê-los dos seres abissais.
Quando a noite chegava, sentia-se fraca por falta de sono e pela alimentação precária. Resolveu fazer uma canja de galinha bem cozida, tomou alguns pratos da sopa e sentiu-se refeita, Até planos de proteção da cidade fizera. Durante a vigília noturna, pode contar com algumas companhias da vizinhança, que alegavam o calor como impedimento de seus sonos. Com elas compartilhou teorias acerca do prenúncio de seu marido. Os vizinhos confessaram que não dormiam desde o funeral e que não comiam nada que exigissem o uso dos dentes, pois, assim como Iracema, todos sofriam também da ameaça do abandono dentário. As noites que se seguiram foram, cada vez mais, povoadas pela vizinhança. Iracema havia ensinado a todos o milagre da canja. Desde que começara a consumí-la, seus dentes vinham se mantendo estáveis, e sua fadiga, devida às noites insones, havia desaparecido. Durante às noites, discutiam formas de proteger os artefatos de cerâmica que era o meio de vida da cidade, e de contornar os problemas de alimentação e sono devidos à revolução dentária. Todos podiam cochilar um pouco através de revezamento, e sob a vigilância cuidadosa dos que ficavam acordados. Todos da cidade já participavam das reuniões, que agora eram feitas de modo organizado. O bêbado Euclides tornou-se uma espécie de lider do grupo, por ser muito experiente nos três mais importantes assuntos: vigília na madrugada, dieta líquida, e era, desde sempre, completamente desdentado. Jânio, o açougueiro, desde que a cidade se dedicou ao combate à invasão marinha, e à fuga dos caninos molares e incisivos – passou a comercializar somente galinhas. Três vezes por semana, um barco, vindo da granja da capital, atracava no porto trazendo caixotes e mais caixotes das aves. As galinhas vinham vivas, e só eram mortas um pouco antes de se tornarem canja.
Numa noite fria de junho, quando chegaram à praça para a costumeira reunião, os Alves, muito assustados fizeram a declaração: ambos haviam perdido dois dentes cada um. Envergonhados exibiram os dentes a todos. Os dentes passaram de mão em mão, e foram minuciosamente provados e cheirados, na expectativa de se encontrar ali algum resíduo de maresia.
Essa situação, junto com o fato de muitos passarem o dia cochilando no trabalho, e as vezes até mesmo no banho, correndo o risco de se afogarem – deixou evidente a importância de se fazer algo mais decisivo para evitar mal maior. Foi durante um discurso inflamado de Euclides – que segurava em suas mãos, de punho cerrado, os quatro dentes dos Alves – que a costureira Janete reparou nas palavras do orador quando ele dizia: “... para que todos possam usufruir do sono tranquilo que eu tenho, durante o dia, e que as galinhas têm durante a noite!”. Aos berros, enquanto todos aplaudiam, Janete pedia a palavra dizendo ter encontrado uma ‘meia’ solução para o problema. Janeta mostrou que, tanto Euclides, quanto as galinhas, não possuíam dentes, e que por isso podiam dormir tranquilos. Que se todos extraíssem os dentes naturais, não se preocupariam mais com a morte pelo dente. A princípio, foi um alvoroço só. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Ninguém se conformava com a idéia de nunca mais recuperarem seus dentes. Aos poucos a idéia foi tomando corpo e, antes que o dia amanhecesse, já discutiam modelos de dentadura, e potes de cerâmica com o nome gravado para guardá-las durante a noite, e não confundí-las pela manhã.
As entregas de galinhas eram mais assíduas. A canja tornou-se refeição obrigatória de todos. Os moleques se especializavam no ofício de matar e limpar as galinhas. Mais da metade da população aguardava suas dentaduras, o restante ainda tirava o molde da arcada para que fossem encomendadas as chapas. Os dentes extraídos foram todos guardados num grande vaso de cerâmica com o nome da cidade e circulado com pinturas de galinhas de todas as cores. O vaso era guardado na igreja para que fossem protegidos e vigiados pela providência divina. As vigílias noturnas continuavam, só que agora em turnos, e com a finalidade única de proteger a cidade da invasão dos seres das profundezas do mar. Elias, o sapateiro, inventou um preparado para tratamento das penas das galinhas à base de ervas e, em pouco tempo, o povoado passou a fabricar travesseiros, com vendas equiparáveis à dos vasos.

Na janta, Iracema tomou sua canja como de costume, se preparou para dormir, tirou as dentaduras colocou-as no copo de cerâmica com seu nome gravado, apagou a luz do abajur e deitou-se. Durante as orações, pediu ao marido que a ajudasse no pesadelo da batalha noturna pois fora a escalada da noite para sonhar com guerra molhada e lutar em defesa da cidade. Sempre que era sua vez de sonhar, pedia ajuda a Osvaldo pois nunca se dera muito bem com as coisas do mar.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Evangelho do Homem – Helena

Eu me perco
por medo de me perder...
e assim não
terei perdido nada,
mas tudo terá me perdido
(o que não deixa de ser
uma forma de se perder)
Pois vivo no campo
das idéias.
A vida prática
me cansa, me enoja,
pois nela se cria a
anti-humanidade.
Mentira!
Eu não vivo
no campo das idéias
eu me ausento, me refugio,
me escondo nele.
Total incompetência para a realidade.
Preciso me proteger
da vida, pois minha forma de ser
ainda não foi comprendida
pelo mundo em que vivo.
O caminho é este em que estou
ou qualquer outro.
Por que caminhos não levam
a lugar nenhum.
Nós sabemos pra onde
estamos indo.
Estejamos onde quer que seja,
estamos todos indo a um mesmo lugar.
Caminhos, caminhos ...
são só ilusões...
Quando você não faz nada,
o tempo pára.
Se você faz alguma coisa
para passar o tempo,
o tempo passa.
Quando você pára completamente,
o tempo também pára.
Pára tão completamente...
você morre.
Pra onde você caminha?...

Padecer? Mãe é Paraíso, Pai é Para Isso – Helena

Já foi o tempo em que o dia dos pais representava o dia internacional da gravata.
Os pais de hoje simplesmente não usam gravatas, e por isso podemos afirmar que o dia dos pais perdeu o sentido, pois estávamos todos acostumados com as lindas gravatinhas, que, quando não verdadeiras, eram feitas de cartolina pelos filhos na escola, com a ajuda e estímulo compulsório das professoras.
Desde que aboliram as gravatas, as cuecas, as meias e os lenços tentaram fazer carreira, mas não deu em nada. Os pais atuais gostam de ganhar CDs, perfume Polo, DVD, mouse sem fio (ainda, se tivesse fio, poderíamos ter um déjà vu das gravatas), câmeras digitais, etc. E o mais interessante disso tudo: não são eles que pagam o presente ! Sim, verdade. Agora, as mães, ou até mesmo os filhos, bancam o presente do papai. Não precisa mais aquele familiar teatrinho onde a mãe fala pro marido:
– Meu bem, preciso de dinheiro pra dar pras crianças comprarem seus presentes do dia dos pais.
O marido responde:
– Quanto você quer?
– Sei lá... De que você está precisando?
– Linha para pescaria, ou uma toalha pra sauna, uma joelheira pro futebol de domingo... ou um calção de piscina... qualquer coisa, meu amor.
– Ok, vou procurar.
Na sexta-feira, ela vai com as crianças na loja de departamentos mais famosa do bairro, e passa a tarde lá. Enquanto as crianças olham a seção de brinquedos, ela vai pra seção do lar e eletrodomésticos. Ela compra um brinquedinho de cartela pra cada filho e uma tesoura de destrinchar frango para o frango que vai assar no dia dos pais. Depois, vão para lanchonete dentro da loja, e cada um faz uma deliciosa escolha: banana split, waffle com geléia, x-tudo, e por aí vai. A mãe olha o relógio, e diz:
– Crianças, vamos rápido, que temos que comprar os presentes do papi.
No domingo, como de costume, todos vão almoçar fora. Os restaurantes estão lotados, mas, mesmo assim, o pai concorda em não ver televisão, para tomar lugar na fila de alguma churrascaria rodízio, ponto de encontro dos pais de toda a galáxia neste dia. Durante o barulhento e conturbado almoço, entre picanhas, cupins e anéis de cebola à milanesa, as crianças sacam os presentes de uma bolsa um tanto ou quanto amassada, de tanto rodar nas mãos dos pequenos, que estavam entediados por carregá-la. O pai começa abrir os presentes. O filho mais novo trouxe uma gravata, no lugar da linha de pescaria. O pai exclama:
– Que linda! - enrola no pescoço, e diz - Estou me sentindo um lindo peixinho de aquário fisgado.
De presente do segundo, no lugar da toalha pra sauna, ele ganha uns lencinhos, e começa imediatamente suar e enxugar a testa, enquanto manifesta:
– Nossa! Muito bons, bem absorventes, ideais para situações de alta transpiração, como saunas, por exemplo. Pensando ter em mãos o par de joelheiras embrulhado pra presente, ele abre o pacote do terceiro filho: dois pares de meias soquete pretas, próprias para o trabalho. Só resta agora a esse conformado pai, dar um mergulho na piscina com o calção de banho que ganhou do filho mais velho. Ops! Não é um calção; é uma cueca. A esposa diz:
– Meu bem, tava tudo tão caro, que não deu pra fazer o que você pediu (isso, aos sussuros, no ouvido do marido, que apenas fica imaginando como seria pular na piscina de cuecas, pescar com uma gravata, puxar as meias até que cheguem aos joelhos, e o mais sexy de tudo: pendurar o lencinho ‘naquele lugar’ mais importante, quando ele estiver na sauna mista.) E pensa consternado: “ainda se eu fumasse, talvez ganhasse um cinzeiro ou um isqueiro zippo”.

Como faz falta o tempo em que o dia dos pais era o dia internacional das gravatinhas...

Desvarios Educacionais - Helena

São tantas as discussões em torno da Educação que muitas vezes quando tentamos discorrer sobre ela, o assunto parece esgotado. À medida em que buscamos inspiração, nos deparamos com o desapontamento, ao ver o que fizemos de nós em decorrência de uma educação alicerçada sobre valores sociais e políticos, em vez de valores humanos.

Os conceitos errôneos de ‘ser’ e de ‘fazer parte’, fizeram do Homem um elemento incapaz de desejar e fazer escolhas, baseado em seus próprios valores. Isso ocorre por ter ele absorvido o ‘comportamento’, o ‘ser’, e o ‘pensar’ que não os seus, mas sim aqueles determinados pela sociedade como sendo os mais adequados e oportunos para o momento. A mídia foi, durante todo esse tempo, a ferramenta utilizada de modo a inculcar idéias ao Homem até que se pudesse moldá-lo.
Fazendo-se analogia com os personagens infantis podemos encontrar:
Popeye e o espinafre; He-mam e a espada; O Homem de Ferro e a armadura; O Capitão América, o escudo; O Batmam, o Bat-cinto, o Bat-carro; Hulk , a raiva – entre tantos outros. Todos nos passando a idéia de que, para ‘sermos’, para ‘conseguirmos’, precisamos ‘ter’, ‘ingerir’, ‘vestir’. É quase impossível encontrar um personagem infantil que não precise lançar mão de algum tipo de artifício-artefato para estar apto a enfrentar o mal. É inadmissível que não existam formas de se obter do ser humano seus próprios valores, fazendo-o investir em si mesmo. Não precisamos de espinafre, nem de cintos, ou escudos, ou fúria. Possuímos armas poderosíssimas: inteligência, desejo e sensibilidade. Será que isso não poderia ser o caminho?
Com isso, desde muito, estabelece-se a idéia de ‘nada ser’ enquanto não se preencher determinados requisitos que sempre variam, e escondem a verdadeira intenção de se exercer poder sobre o desejo do outro.
Não seria possível uma personagem comum que através de valores humanos reais pudesse alcançar objetivos saudáveis para o próprio Homem?
Porque o Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho, o mais inteligente? Porque a Emília, uma boneca de pano, a mais esperta? O que pensavam Pedrinho e Narizinho a respeito? Alguém pretendeu perguntar?

O Homem é agora um ser assustado, com medo e, cada vez mais, distante do próprio Homem, buscando em valores ditados, a melhor forma de preparar seus filhos, visto não se sentir capaz para tal. E assim se educou e se vem educando as crianças, sobre valores sociais, políticos e religiosos convenientes para a ocasião. Esse com certeza é um dos motivos que trouxe o Homem à situação em que se encontra. Vê-se hoje, um Homem esmagado pelas mensagens cada vez mais encharcadas de duplo vínculo, que o fragmentam e convencem-no em escala exponencial de que ele não é, e nem será nada: se não...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Inscrições - Helena

Era impressionante o esforço que eu fazia
Para que não saísse a marca de batom,
Cuidadosamente carimbada
Pelos lábios de minha mãe,
No dorso de minha mão.
Era um ritual só nosso.
Ela se aprontava para o trabalho
E eu, ainda tão pequena,
Acompanhava todos os seus movimentos
Com a devoção de um torcedor na arquibancada.
Quando ela estava pronta,
Pegava minha mão esquerda
(a do coração, dizia )
E suavemente, ali,
Selava seus lábios em batom.
Chamávamos isso de
‘Beijinho pra marcar’.
Não se admitia a possibilidade
De minha mãe sair,
Pra onde quer que fosse,
Sem que deixasse registrada
A sua presença em mim,
Através das cores e perfumes
De seus mais variados batons.
Era tão lindo cheiroso e perfeito
O contorno de sua boca...
Essa cumplicidade era de tal
Relevância em minha vida,
Que eu zelava com fervor religioso
Para que a marca perdurasse,
Até o momento do retorno de mamãe,
Quando, orgulhosa, eu lhe mostrava
O cuidado que dispensara aos seus lábios.
Na sesta,
Eu deitava com as mãos pra cima
Segurando o espaldar da cama,
De modo a recordar , mesmo durante o sono,
Que ali havia algo precioso
A ser preservado.
Ao me dar banho, Rutinha já sabia
Da proibição de tocar
Naquela área sagrada.
E creio que,
Por mais respeito aos lábios de mamãe
Do que a mim,
Ela seguia as determinações
Com obediência canina.
Até hoje,
Quando olho minhas mãos,
Vejo a marca indelével
Da tatuagem feita pelos lábios de mamãe
Em minha alma.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

O Dia do Lixo - Helena

Se você passa por uma coisa agradável, por exemplo, todo domingo você vai ao parque - você vai ansiar pelo prazer que te espera. Você nem sente o ciclo do passar do tempo. Mas, por outro lado, toda segunda-feira, o lixeiro passa. Todo domingo à noite, você tem o trabalho de ajeitar o lixo. Quando chega o domingo, está você de novo falando: "Caramba, estou aqui de novo ajeitando o lixo". Essa percepção do tempo é que fragiliza o sujeito: ou ele foge, e aliena, ou ele encara, e deprime. Um simples lixeiro (ninguém sabe, nem mesmo ele) pode trazer a percepção da fugacidade do tempo. Porque, toda segunda-feira, o lixeiro passa, e toda segunda-feira você diz: menos uma semana.

terça-feira, 10 de abril de 2007

A Cadeira da Calçada – Helena

Ela sempre tivera uma vida pacata e ordenada. Suas balas de coco eram inigualáveis a qualquer outra de qualquer outra cidade. Todos costumavam dizer que suas balas tinham poderes sobre a alma humana. Era comum, os moradores procurá-las no meio da madrugada, em busca de alívio para qualquer alegria às avessas: perda de amores, desgosto de filha, insônia – até mesmo o banqueiro da cidade, apelava para as balas quando os negócios não iam bem. Talvez por isso a região nunca tivesse precisado recorrer a qualquer tipo de ajuda, nem das igrejas, nem dos bombeiros, nem da polícia, nem da prefeitura. Tudo naquele povoado transcorria na mais santa paz, com a benção e a concordância das igrejas, dos bombeiros, da polícia, e da prefeitura, que não pouparam esforços em homenageá-la no dia de sua morte. Dona Bela das balas era uma mulher suave e firme, que trazia sempre a aparência de estar na cidade só de passagem. Suas mãos tinham a palmas marcadas pelas infinitas vezes que pegava a calda quente de açúcar e coco, para transformá-las nas deliciosas e prodigiosas balinhas. Não havia quem as experimentasse, sem que se tornasse consumidor fiel. A polícia militar, certa vez, mandou algumas delas para exame na perícia, temendo que ali pudesse haver algum tipo de narcótico. Encontram apenas açúcar, água e leite de coco, que era extraído diretamente da fruta pela própria Bela.
Suas tarefas diárias terminavam à tardinha, quando entregava os pacotinhos para serem levados a todas as vendas da cidade. Dividia a cidade em cinco partes e reservava um dia da semana para cada região. Aos sábados, Bela cuidava do jardim, arrumava a casa, preparava bolo e salgadinhos para o domingo, e saía para conversar com os vizinhos no portão de sua casa. Era uma mulher gorda, porém demasiadamente ativa. Nunca ouviram-na dizer estar cansada.
Aos domingos, depois de ir à missa bem cedinho, visitava algumas casas com o objetivo de pintar as unhas, cortar e pentear os cabelos de senhoras bem idosas. Bela sempre dizia: “É preciso envelhecer com boa aparência”. Talvez por isso, quando seus olhos resolveram parar de trabalhar, Bela, mesmo cega, era capaz de pintar suas próprias unhas com a perfeição de um artista. Bela apadrinhara duas crianças do orfanato, e cuidava delas como sendo seus filhos, apesar de nunca ter conseguido adotá-las, por ser uma mulher só, e por sua baixa renda.
Quando a idade chegou, e o diabetes levou-lhe a visão, Bela limitou suas tarefas apenas às balas, e sua produção era bem menor. Diariamente sentava-se à calçada numa cadeira de balanço que tinha a idade de seu avô, mas o viço de seus bisnetos. Nessa ocasião, ela fazia longos rolinhos, bem justos, de folhas de jornais que eram usados para acender fornos caseiros e aquecedores. Vendia os rolinhos em pacotes feitos de jornal contendo em cada um trinta unidades. O valor que cobrava por eles era quase nada, mas Bela se divertia com a transação por si só. Dizem que, inexplicavelmente, ninguém precisou usar o segundo rolinho, pois o primeiro nunca acabava. Aos domingos, sentada em sua cadeira, ensinava a criançada, que ignorava sua cegueira, a fazer roupas de boneca e pipas.

Numa bela manhã de junho, Bela não apareceu à porta, e todos já sabiam por que. A imagem daquela cadeira desocupada na calçada trazia aos olhos de todos a mesma sensação da mão quando busca, e não encontra, o relógio no pulso, e trazia ao coração a mesma sensação dos olhos quando busca o tempo num relógio parado. O povoado principiou os procedimentos de organização do funeral, antes mesmo da confirmação da morte de Bela. Na véspera Bela levantara-se da cadeira mais cedo dizendo: “Por favor, me dêem licença, pois me sinto cansada e preciso descansar”. Por esse motivo, quando não apareceu naquela manhã, todos já sabiam o que fazer. Logo nos primeiros dias ninguém se prontificou a retirar a cadeira de Bela da calçada, como se Bela fosse precisar dela a qualquer momento. Nos cincos dias que se sucederam aos primeiros, a cidade foi tomada por um temporal que mais parecia o choro de todos os anjos de todos os santos e todos os mortos. Preferiram, então, deixar a cadeira secar ao sol antes de retirá-la de lá. Nos cem dias seguintes ao temporal, discutiram sem êxito, onde guardariam a cadeira. Nos cem dias que seguiram à discussão, a cada tentativa de tirar a cadeira de lá, temeram toda sorte de mau agouro que pudesse suceder à retirada.
Então a cadeira permaneceu no mesmo lugar.
Já nessa época, muitos vinham pedir conselhos à cadeira, que respondia a todos através de uma espécie de código: quando balançava para frente, dizia ‘sim’ – quando balançava para trás, dizia ‘não’. As balançadas da cadeira tinham um efeito semelhante ao das balinhas, ajudava a todos nos impasses mais atormentadores. Nunca mais se falou ou pensou na retirada da cadeira. Ela já fazia parte da paisagem da rua da cidade e do mundo. A prefeitura mandou instalar dois bancos de jardim, um em cada lado da cadeira. Ali, encontros eram marcados, vendas de propriedades, casamentos e até partos. Numa manhã, uma galinha resolveu chocar seus ovos ali, na cadeira. Ninguém se atreveu a retirá-la, e dizem que suas unhas adquiriram um brilho como se estivessem pintadas. As quermesses da igreja eram todas feitas na rua da cadeira. Junto à cadeira, os meninos faziam pipas e as meninas acompanhavam fazendo roupas de bonecas.
Certa vez um bêbado tentou perguntar a cadeira os números que seriam sorteados na loteria. Por três dias a cadeira não balançou.
Todos entenderam por que. Bela sempre ensinara que o trabalho era o caminho para uma vida feliz e digna. A prefeitura decretou que estava proibido perguntar à cadeira qualquer coisa ligada a jogos de azar, ou a tentativa insistente de se prever o futuro, sob pena de prisão por subverter a ordem pública. A rua foi toda reformada para dar um cenário condizente com a respeitada cadeira. O botequim defronte, que pusera várias mesinhas na calçada e toldos protegendo do sol e da chuva, de modo que as pessoas pudessem almoçar e apreciar a paisagem da prodigiosa cadeira – havia sido todo reformado e, no domingo, houve uma festa de inauguração que começou com o café da manhã, só terminou à noite depois do jantar. Toda a cidade havia sido convidada a comer e beber de graça. À noite, o dono do estabelecimento ligou a TV que mandara trazer da capital e todos puderam assistir enfim, assistir à novela, que foi a atração naquela noite.
A festa acabou quando a TV foi desligada e todos, que haviam comido e bebido demais, foram para suas casas dormir sem reparar que a cadeira não estava mais lá.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

A visita do acaso - Helena

Desde que criei este blog só três pessoas conhecidas receberam o endereço. Farei deste blog, o "Blog do Acaso". Ontem verifiquei que não havia ainda um comentário sequer e acabei, eu mesma postando um comentário. Resolvi não passar pra mais ninguém o endereço do meu blog. Só o acaso trará "Ilustres Desconhecidos" até aqui. Será legal ver o acaso acontecer, poderei assim conhecer a sua ociosidade.
Meu site está batendo recorde de solidão. Existem lá, páginas onde canto, outras onde escrevo outras onde falo poesia (só uma por enquanto). Mas sabe? Chega a fazer eco! É uma casa vazia onde passeiam os fantasmas da minha sensiblidade. Esses fantasmas são tão poderosos que ultimamente me impedem de entrar para colocar o restante das coisas que deveriam estar lá.
Vou dormir... amanhã postarei mais "Hiatos"

Noves fora .... nada - Helena

A mim,
Nunca foi dado
O direito de chegar
Apenas o de ir
Me sinto sobrando...
Me sobram braços,
Me sobram pernas...
Sei que a porta está fechada
Sei que ninguém me espera
Mas teimo em chegar
Não sei por que faço isso.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

O Amigo e o Retrovisor – Helena

Mesmo sabendo que o número de passageiros em busca de condução aumentava generosamente em dias chuvosos como aquele, ele experimentava sempre um intenso distanciamento da vida nesses momentos. Tudo lhe parecia estranho. Seus movimentos e suas respostas ao mundo exterior eram acidamente autômatos. A cada braço estendido, à beira da calçada, seu estômago revirava diante da idéia de se ver obrigado a fazer um mínimo contato direto com o mundo vivente, ao menos para saber o destino da viagem. Sua vontade era circular solitário até que a chuva, ou o seu coração parasse - o que acontecesse primeiro. A rotina era sempre a mesma. Respondia ao cumprimento do passageiro com um meio sorriso que se confundia com um forte espasmo facial. Ouvia o endereço de destino como um cão que escuta os lamentos de seu dono, enquando olha o trajeto das formigas no quintal. Assim que o carro entrava em movimento, se sentia seguro, graças a cumplicidade da paisagem que capturava o olhar do passageiro. Sua alma partia então em direção a algum lugar, que ele nunca soube bem onde era, mas que, quando voltava, trazia na boca o sabor dos séculos, e nas costas o peso de todas as palavras resumidas na voz do passageiro perguntando: “Quanto é?”.
Teria sido tudo exatamente assim se, naquele dia, seus olhos não tivessem passado rapidamente pelo retrovisor, antes que sua alma se retirasse para a habitual viagem. Como um soco no estômago, se vira prisioneiro da tempestade de imagens do passado que desfilavam, compondo, desde a infância, a imagem do homem que aparecia no espelho.
Sim era ele! Seu passageiro fora, durante muitos anos, o seu maior amigo, com que viveu as primeiras perguntas, sofreu as primeiras respostas, trocou abraços, socos, sonhos, segredos, namoradas, e que agora estava ali, no banco de trás de seu táxi, olhando para a rua com aquela expressão de antepassado.
E se quando o sinal fechasse ele virasse para trás e repetisse a saudação que ambos costumavam usar quando se encontravam? O amigo entenderia? E se não lembrasse dele? E se o achasse velho e acabado e infeliz? Decididamente não olharia para trás, não faria a saudação, não se deixaria descobrir pelo amigo, que agora mais parecia uma foto de jornal. Seria suficiente olhá-lo dentro do campo de visão que o retrovisor permitia. Buscou na memória a cena de minutos atrás, quando o amigo acenou para o táxi, em busca de sua imagem de corpo inteiro. Mas lembrou que, naquele momento, tentava suportar as reviravoltas de seu estômago. Nada conseguiria lembrar pois nada havia visto, a não ser a ameaça da presença de um passageiro no seu carro.
As cenas de sua infância e adolescência passeavam de mãos dadas no pequeno espaço do retrovisor, que agora já era um imenso palco, onde uma vida de cem anos caberia.
Pelo visto o amigo estava bem... teria casado? ... com certeza estava em situação melhor que a de um simples motorista de táxi.... A vontade de abraçar o amigo tomava conta de seus braços. Talvez ele quisesse encontrar nesse abraço, a razão pela qual suas vidas se subtrairam pela distância, no tempo e no espaço. Ou talvez quisesse apenas abraçar o amigo e dizer: “Cara! Seria isso uma chance?”. Mas o amigo não sabia daquela motorista, com quem compartilhara toda a cumplicidade que uma amizade suporta. Será que o amigo ainda sentia o medo do assobio da ventania, acreditando ser chegada do ‘buraco do mundo’, como costumava dizer a portuguesa que vendia cocadas e pipas para criançada?
E se na hora de pagar a viagem o amigo o reconhecesse? Será que iriam pro “Bar do Bardo” tomar cerveja com limão pra evitar a gripe, por terem pego um temporal na volta de algum lugar? Ou será que iria apenas cantarolar as teimosas músicas que fizeram durante o desejo visionário de que um dia seriam um dupla de sucesso?
Pelos trajes, o amigo devia estar bem de vida e talvez não tivesse olhar para as lembranças... “Há amizades que não precisam de convivência nem, contato, se preservam por si só. Há outras que sucumbem, se não houver convivência... " Qual teria sido a amizade deles? Sido? Será que não era mais? Vasculhou a memória tentando lembrar a última vez que pensara no amigo antes que ele entrasse no seu carro há minutos atrás. Não conseguia lembrar, parece que o amigo sempre estivera ali exatamente como um espelho retrovisor, que a gente nem lembra que existe, a não ser quando resolve precisar dele e não o encontra.
Talvez fosse, aquela, a última chance de ele reencontrar o amigo que sempre estivera lá, e se ele deixasse passar nunca mais o reencontraria, e nunca mais ele estaria lá. Então seria melhor fazer a ‘familiar saudação’ ao amigo. Ou melhor, ele sorriria para o amigo. Sorriria em código. O amigo, com certeza, reconheceria, pois sempre que precisavam se comunicar em público sem que ninguém reparasse, usavam ‘caras e bocas’ que tinham, todas, significado próprio.
O endereço de destino estava chegando, seu coração parecia que ia saltar pela boca. Nesses últimos minutos percebeu o quanto tinha envelhecido e também o quanto se deixou envelhecer. Naquele instante se sentia um menino pronto para pular o muro da escola e jogar bola, ou um rapaz ansioso por entrar de ‘penetra’ no baile e dançar com a mais linda garota. Um desfile, cada vez mais rápido, de cenas da sua vida com seu amigo passageiro - passava por sua mente. Chegou a ouvir sons, sentir cheiros, sabores e texturas. Tudo, de uma vez só, se precipitava naquele momento. Despertou com a voz do amigo: - “É logo ali na frente. O prédio azul”.
Ele tinha ainda a mesma voz. E com certeza era muito rico (a valer pelo prédio). Talvez não valesse a pena segurar essa chance. Talvez não fosse uma chance.
– “Quanto é? “. Olhou para trás. Pegou o dinheiro. – “Pode ficar com o troco”.
Ele também estava bem marcado pelo tempo... Não era o mesmo do retrovisor... Talvez não fosse tão feliz assim... Talvez não tivesse filhos...
Despertou para o mundo do nada com o som da porta batendo. E seguiu em círculos a espera do que parasse primeiro. A chuva ou seu coração.
No quarto do zelador do grande prédio azul:
- “Nossa meu filho, que dia de merda! Tomei um banho de chuva, tive que negociar meus vales-transporte pra poder pegar um táxi, e ainda peguei um motorista viado que me olhou o tempo todo pelo retrovisor, e quase me agarrou na hora em que fui pagar. Deixei o troco para ele e me mandei.”