sexta-feira, 30 de março de 2007

Esperança - Mário Quintana

(“Natal, uma tentativa agonizante de o ser humano acreditar que conquistou alguma coisa no decorrer do ano. Mas a humanidade não evoluiu absolutamente nada desde o primeiro Natal.” - Helena Antoun)
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

quarta-feira, 28 de março de 2007

A coisa (Mário Quintana)

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

segunda-feira, 26 de março de 2007

O cupim que consome o Brasil - Helena

“Se o Brasil fosse uma árvore, a esperteza brasileira seria o cupim.”

O péssimo hábito brasileiro de criticar e nada se orgulhar de seus próprios produtos, estende-se de forma flagrante à esfera de nossos dirigentes eleitos. Vivo nos Estados Unidos, e vejo a diferença na postura do povo daqui. Até mesmo os brasileiros que aqui residem acabam por respeitar o direito do outro, a propriedade do outro, ou seja, respeitar os limites de carater e moral tão necessários para que uma sociedade possa avançar. Mesmo não tendo votado no presidente que se encontra no poder, o norte-americano tem o costume saudável de colaborar com as decisões tomadas por esse mesmo presidente (ou governador ou prefeito). Não há sabotagem nem crítica esculhambatória, apenas críticas construtivas, claro com alguma dose de humor às vezes. O norte-americano prioriza a sua própria sociedade, a sua própria nação. Por essa razão, sabotar os planos de dirigentes no poder, é visto como estupidez, leviandade, burrice e outras coisas mais. Aqui, comparam-se pontos negativos de um dirigente, com os pontos negativos de um outro dirigente oponente, e não como se faz no Brasil, onde se comparam os pontos negativos de um com a possibilidade de pontos positivos de um outro canditado que porventura poderia ter sido eleito, ou continuado seu mandato, ou isso ou aquilo. E assim, o brasileiro acaba por comparar realidade com sonhos e com esperanças do que poderia ter sido melhor. É difícil demais julgar corretamente. Nós brasileiros temos o costume de lançarmos mão de uma onipotência, que julgamos possuir, para determinarmos que seria melhor com um ou com outro governante. Fazemos isso quando se trata de governantes, técnicos de futebol, professores, médicos, jurados de festivais, jurados de desfile de escolas de samba e tantos outros. Àqueles que ousam tomar decisões críticas e delicadas em nosso nome, presenteamos com uma chuva de críticas perjorativas, insultos, e até mesmo o caráter de sujeito se torna passível de suspeita. Aqui, na América do Norte, julga-se o presidente pelos resultados, mas sabe-se esperar os resultados, e colabora-se com os meios para se alcançar os resultados. Mas lamentávelmente nós, brasileiros, nunca procuramos saber, com imparcialidade, a que fim pretende chegar um governante, quando este toma uma decisão que não é de nosso agrado.

Qualquer mudança de governo gera momentos difícieis e todos deviam saber disso, principalmente se considerarmos que o anterior nada facilitou para o proximo que virá, e ainda escondeu de seu sucessor a real situação caótica à sua espera. Eu imagino que assuste ser presidente. Muitos acreditaram estar preparados para tal. Acreditaram mesmo! Como nós mesmos também acreditamos ser capazes de tantas coisas. Quando a responsabilidade, de fato e de direito, lhe chegas às mãos, o sujeito percebe o quanto é dificil fazê-lo, ainda mais tratando-se de um país que está, há muito, mergulhado no caos.

É fácil governar um país que já funciona. Um país cujas engrenagens estão devidamente “azeitadas” e deslizam umas nas outras. Mas governar um país que nunca chegou nem perto disso ou de qualquer outro bom funcionamento... Nossa! Isso na minha opinião deve ser quase impossível.

Bom, enfim, de fato fica difícl que algum presidente (dirigente) eleito possa conseguir fazer qualquer tipo de trabalho produtivo ou promissor quando nós, o povo, praticamos, em micro sistema, pequenas concordatas, subornos, velhacarias, apropriações indevidas, tais quais aquelas que se realizam, em macro sistema, nas esferas governamentais.

Ainda que nos fosse trazido um Messias, esse correria o risco de ser contaminado pelo virús da histórica e patética ”Esperteza Brasileira”.

O crachá religioso – Helena

A questão da opção religiosa se dá ultimamente como um cartão de visita, ou melhor, como um crachá de aceitação em determinados meios sociais. Pasmem! Mas ainda encontramos (e muito!) pessoas que selecionam outras de acordo com a opção religiosa. Difícil saber de onde pode surgir tanta prepotência em acreditar que se fez a escolha correta e portanto quem não comunga da mesma opção deva ser alijado de nosso meio. Outro dia eu escutava duas senhoras conversando e fazendo críticas severas, crúeis até, a uma outra pessoa que não se encontrava no local. Acontece que essa pessoa a que ambas criticavam, pertencia ao Candomblé, e por essa razão, sofreu em menos de dez minutos toda a sorte de enxovalhos, inclusive sobre seu caráter. Longe de procurarem saber sobre o que falavam, essas duas senhoras discorreram sobre o Candomblé com tamanha fúria que me vi impelida a procurar entender um pouco sobre o assunto para poder pensar algo em sua defesa. Com isso me vi de frente ao racismo cultural que é uma realidade que acompanha a nossa história, desde os seus primórdios. Estaria mais ligado às diferenças apresentadas por grupos humanos pertencentes a um sistema delimitado geneticamente, e caracterizado por comportamentos sociais, características biológicas, e culturais significativamente diferentes daqueles apresentados dentro de uma sociedade maior. Essas características passam a ser a causa e ao mesmo tempo a justificativa para a diferenciação do grupo em questão e, principalmente, para o surgimento de preconceitos e injustiças.

Confesso que me comovi.
Decidi, então, discutir o Racismo Cultural, discorrendo sobre um dos mais fortes e assustadores de nossa história. A escravidão de negros, e a perseguição feita à sua cultura e, em especial, à sua cultura religiosa.

As religiões africanas sofreram modificações de sua origem, por terem que se inserir em meio escravo. Ali, eram evidentes a miséria e degradação humana, e havia muito pouca esperança de modificação dessa realidade. Sem falar das perseguições que acompanharam seu povo desde um dos mais desumanos e vergonhosos holocaustos praticados até hoje, e que adquiriu um caráter consensual entre as civilizações.

Ao contrário da repugnante ideologia nazista tão repudiada pelas mais diversas representações da humanidade, o regime da escravidão, tido por muitos como natural, foi mantido sob o olhar vigilante, dos que se diziam possuidores de princípios humanitários pautados na ética e na moral.

Eis a mais pura manifestação da “insanidade” humana. O retrato mais claro do ponto de degradação a que pode chegar a humanidade.

Diferente do nazismo que se estabeleceu em decorrência do domínio de um indivíduo psicótico sobre as massas, a escravatura visava auferir benefícios materiais a quem a adotava.

Até hoje nada foi feito para reparar o mal a que se submeteu esse povo que, arrancado de sua terra natal, obrigado viver uma vida de humilhações, mortes e sofrimentos constantes, ainda está a colher os frutos de tão inclassificável empresa.
Se a sociedade é um organismo vivo decerto conheceu na escravatura, um vírus que leva a humanidade à ameaça de autodestrtuição.

Diante disso achei, por bem, que o mínimo que eu poderia fazer por esse povo, era olhar sua religião como uma doutrina santa e merecedora de respeito das demais.

Alguns depoimentos:

Mãe Stella de Oxóssi nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3e_Stella_de_Ox%C3%B3ssi)
“Daqui prá frente, os filhos de gente de Santo rompem decididamente, com quase cinco séculos de silêncio, imposto desde a chegada das masmorras e pelourinhos, para fazer de sua religião uma só voz. O Candomblé não é uma questão de opinião. É uma realidade religiosa que só pode ser realizada dentro de sua pureza de propósitos”.

Pierre Verger nos diz:
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Fatumbi_Verger)
“O Candomblé sobrevive até hoje, porque não querer convencer às pessoas sobre uma verdade absoluta, ao contrário da maioria das religiões

Eu concluo:
“O Candomblé sobrevive, por ter sido professado por um povo que sobreviveu à escravidão, aos preconceitos raciais, aos preconceitos sociais, e a colonizações desumanas. Como é possível, então, que sua religião também não sobreviva?”

Amando o Amor - Helena

Se perguntarmos, a cada uma das pessoas que habitam este planeta, a respeito do amor e, mais especificamente, saber o que representa para elas o amor, por certo, de cada uma obteríamos uma resposta. Provavelmente, na maioria encontraríamos um amor complexo, sublime, perfeito, supremo, inatingível, inalcançável, tudo isso na vã tentativa de fazer do amor algo tão distante, tão irreal, que seria perfeitamente admissível que a natureza humana, tão falha, não pudesse alcançá-lo. Mas o amor é uma coisa simples, é muito simples, é tão simples que não precisa ser definido, e sim, sentido e vivido.
Não estamos aqui a falar do amor entre o homem e a mulher, nem do amor maternal, nem do amor religioso. Falamos do amor do elemento humano por ele mesmo e, conseqüentemente, por outro elemento humano. Aquele amor que “pede” o envolvimento do indivíduo com seu semelhante. Aquele amor que “faz ver” o outro, que “faz respeitar” o outro, que “faz a cumplicidade” com o outro. Mas é justamente desse amor que todos fugimos...
Do amor que liberta e ao mesmo tempo une, que cria laços, mas não cria amarras...
Mas parece que o medo que se tem de amar é o medo dessa liberdade.
Talvez o Homem não saiba gozar do prazer de ser livre, apenas, sonhar com ele.
Nossa! Como eu desejo que a humanidade se ame mais. Mas se ame tanto que faça do amor uma coisa tão natural, que não careça nunca mais de definição.
Quem sabe assim, a evolução possa se processar em marcha progressiva, segura e tranquila para o nosso planeta?

sábado, 24 de março de 2007

Privacidade é bom e a gente gosta - Helena

Hoje quero falar a todos um assunto super delicado.
Outro dia recebi de um grande amigo um convite pra ingressar num site de rede. Desses tipo, icq msn etc. Neste convite havia um link onde eu deveria clicar para que pudesse me cadastar. Cliquei! Lá chegando, percebi que alguns de meus dados pessoais já haviam sido prévia e inocentemente fornecidos por esse amigo, como, por exemplo,  endereço eletrônico, nome completo cidade e país. Mas, ainda assim, não me dei conta do problema e, inocentemente também, continuei meu cadastro. A “ficha” só caiu mesmo quando, concluído o cadastro, tentei entrar na rede de amigos e descobri que só conseguiria ir adiante, se eu também fornecesse mais um outro email de amigo, a pretexto de convidarem-no pro mesmo site. Indignada diante de tal condição imposta, eu utilizei do artifício de fornecer o meu próprio email. Justo aquele com que eu havia me cadastrado. Pasmem! Foi aceito e, assim, consegui entrar no site que nada de maravilhoso ou original tinha a me oferecer.
Pelo menos eles não conseguiram , através de mim, obter mais um endereço eletrônico pra sua lista. Esse episódio fez com que eu despertasse pra algumas coisas que posteriormente passei a investigar. Claro que nenhum de vocês é obrigado a concordar, mas peço a todos que ponderem a respeito.
É sobre esses sites que todos nós conhecemos que fornecem o serviço de envio de cartões de felicitações, amor, humor, brincadeiras, testes, horóscopo, pesquisas etc.
Quem nunca enviou pelo menos um desses cartões a um amigo? Eu mesma já entrei nessa e enviei os meus. Mas o que acontece é que esses sites vivem da obtenção de emails de pessoas.
Aproveitando-se de nossas afetividades, esses sites recolhem por dia, centenas de milhares de emails que nós, inocentemente, fornecemos. Com isso a privacidade de nossos endereços eletrônicos fica comprometida em mãos de pessoas que desconhecemos completamente. Essas empresas vendem nossos emails pra outras empresas de mala-direta que prestam serviço a fabricantes, comerciantes e outros, na divulgação de produtos em geral. Sem contar que empresas voltadas para a fabrição de vacinas contra os vírus que elas mesmas produzem, se utilizam desses meios pra obtenção de emails que serão utiliizados na disseminação desses mesmos vírus e, posteriormente, venderão a vacina.
Mas vale lembrar que, independente de tudo isso, o email de um amigo, é algo nos foi fornecido através de laços de confiança que este depositou em nós e se, porventura, precisarmos repassar a terceiros, devemos antes consultar o dono do endereço e só fazê-lo com seu consentimento.
Convém lembrar também que sempre que enviarmos uma mensagem pra mais de uma pessoa, que o façamos através do expediente de cópia oculta. É importante esse cuidado!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Eu acho que éMail difícil de aturar - Helena

Estava eu lendo o seu email. Quando me deparei com aquela frase. Parei a leitura, pois concluí que era um daqueles emails estupidamente elaborados para conduzir o destinatário até para a ‘casa do cacete’ se preciso for.
Como a minha intenção é aproveitar o meu tempo de forma saudável, ao invés de ler o seu email, preferi usá-lo (o tempo) escrevendo essa linda e criativa cartinha pra você, dizendo o quão idiotas são essas pessoas que usam o canal de emails para propagandas e anti-propagandas políticas, venda de enciclópedia, correntes, exoterismo, religiões, auto-ajuda e outros do genero. Sendo assim, espero que você entenda de uma vez por todas que se quiser ser feliz e ter sua vida repleta de dádivas do céu, basta apenas seguir as seguintes instruções e. Acredite, isso aconteceu um dia: Mandei novecentas e setenta e duas copias de um email, que recebi, para novecentos e setenta e dois amigos, mandarei esse email pra você também. Mas é preciso que dos novecentos e setenta e dois amigos, novecentos e setenta s sejam hermafroditas e órfãos de pai (sendo que o pai deverá ter sido gay).
Depois que eu mandei todos esses emails e tomei a decisão de não voltar mais pro patê (ou será não votar mais no pt?.... sei lá), depois disso tudo, eu me tornei a pessoa mais feliz da minha vida. Só que, num belo dia, algum idiota cortou a corrente, e agora eu estou na lama, perdi toda a minha fortuna, ninguém se apaixona mais por mim, e parece que to virando hermafrodita ... ah! Meu pai também anda desmunhecando por aí.
Por esse motivo, quando abri o teu email e li a determinada frase, achei que ia começar tudo de novo, então parei no meio e preferi te chamar de idiota.

Flagrantes – O adubo da Vida – Helena e Nara

Ela: achei uma merda essa gravação

A outra: num tá não, tá emocionando... é pq vc tá habituada com aquela garra toda

Ela: que bom, melhor assim

A outra: vc tava mais sensível, só isso

Ela: mas eu continuo achando uma merda

A outra: mas tá lindaaaaaaaaaaaaa... uma merda lindaaaaaaaaaaaa ... uma merda sensível... a merda tá sentindo, pulsando... lindaaaaaaaaaaaa...

Ela: mas pra mim toda merda é sensível

A outra: nem toda... se for uma merda alemã, por exemplo, não há como! com chucrute, num tem merda sensível

Ela: a merda é a expressão que resume tudo no mundo

A outra: é a síntese do resumo! Isso!

Ela: pois tudo acaba assim

A outra: nem tudo acaba em merda tenha certeza... aliás... pensando bem, tudo o que acaba, acaba em merda

Ela: merda é comida processada pelo corpo

A outra: só o que não acaba, não acaba em merda! é isso! ... ou mais ou menos isso...

Ela: enquanto meu cérebro produz música... projetos ... meu corpo produz merda!

A outra: affffffffffff

Ela: não deixa de ser uma arte!

A outra: e se tua alma produz poesia? acaba em merda também? eu hein? que visão estrábica da música, da poesia, e da própria merda

Ela: não! alma é alma... merda é corpo

A outra: merda é anti-corpo num é corpo

Ela: não! engano seu! ... tanto merda é corpo, que não há melhor adubo! Merda, minha cara, é vida

A outra: adubo onde nada mais pode se fazer nascer... merda é a vida no vaso... nos intestinos... é a morte!

Ela: vida que dá sua vez... dá sua vez à outra

A outra: o fim de tudo... o começo de outras vidas... isso!

Ela: é passagem ... merda é passagem! merda é alimento transformado em alimento para o Alimento

A outra: sempreeeeeeeeeee! quando me chamarem de merda agora, me emocionarei! xá comigo!

Ela: merda é trasformação... merda é renascer..
.
A outra: merda é mutação de vida

Ela: sendo assim ,minha cara, merda é merda!

A outra: a prova de que na vida nada se cria, tudo se copia... hoje, uma merda.... amanhã, quem sabe? uma flor... ... um prato de saladas finas...


Ela: Ih! Preciso ir ao banheiro ! beijosss!

O ombro – Helena

Amparar alguém no momento de desabafo é, de algum modo, nos tornarmos esgoto aberto das dores que recebemos. O outro vem, despeja suas angústias, e nós: o continente de sua excreção emocional. O material despejado fica conosco e o outro não quer proximidade daquilo. Talvez por que tema inconscientemente ter de volta toda a substância esvaziada ou, quem sabe, a simples aproximação traga o desconforto da lembrança. Em suma, o outro some se afasta de nós, evita nossa presença. O fato é que somos um recipiente repleto, e sem válvula de desacarga. Isso nos torna uma ameaça para o outro, considerando o seu medo de que os julguemos fracos, e nos desapontemos com ele.
De alguma forma, somos todos assim. Criamos máscaras para enfrentarmos a vida. Tirá-las torna-se um processo difícil, doloroso e, na maioria das vezes, nos arrependemos de fazê-lo. Muitas vezes, mais fácil seria despir-se da própria pele que reveste o corpo a ter que retirar as vestes que escondem o ‘eu’. Por isso, diante da nessessidade de despojar as máscaras, fugimos ... fugimos daquele que nos viu sem nossos trajes dissimulativos.
Quando precisamos novamente nos despir, voltamos a procurar aquele que já conhece essa temida nudez.
Ingratidão? Não, medo!

O outro nos busca por medo e foge de nós por essse mesmo medo. Medo não significa ausência de querer bem, ou ausência de amor, medo significa tão-somente: medo.
Em algum momento, e de algum modo nós nos elegemos confidentes do outro. É uma espécie de de vocação sabe? Não tem como fugir disso! Talvez nossa capacidade de dar ao outro a segurança para o desabafo, deixe-o certo de que somos seguros também para o abandono, e de que temos condição de levar o barco sozinhos. Mas também temos medo, medo de não sermos amados, medo de nos reduzirmos a um canteiro de lixo emocional, medo de não encontrarmos canteiro para os nossos lixos e termos que, nós mesmos, acumulá-los. Esse medo que sentimos, faz com que, experimentemos o sentimento de sermos descartáveis, usados e jogados fora. Então, voltamos para o outro nosso olhar de incompreensão, indignação e até cobrança. Para que nos livrássemos desse estigma, seria preciso que estivéssemos aptos a desintegrar o material que recebemos a cada desabafo, ou que fôssemos capazes de convencer o outro de que não lembramos de mais nada após o despejo. Mas não! Somos um recipiente sem válvula de descarga!
Decerto, todos nós evitamos que alguém tenha o conhecimento de nossas fragilidades. Imagine: Voce está numa festa muito feliz alegre sorridente, quando entra no salão o dentista que te fez sua dentadura, ou o médico que operou sua hemorróida, ou tratou de sua flatulência, ou de sua falta de ereção, ou de seu vaginismo... em suma: apesar de você ter certeza de que essa intimidade não será propagada pelo profissional em questão, a sua festa fica comprometida, pois a presença dele fará você lembrar suas limitações, suas fragilidades... e isso já é suficiente para que você não consiga mais sorrir, pois ali presente, encontra-se alguém que sabe se tratar de dentes artificiais.

Por Favor não diga alô - Helena

Durante todo o dia ela ligava insistentemente à espera que alguém atendesse. Já era uma rotina familiar ao seu dia-a-dia, mas naquele dia resolveu reforçar com emails que continham apelos do tipo: "Trimmm, por favor, atenda ao telefone".
O envio de emails começou a ficar cada vez mais intenso, chegou a superar as tentativas telefônicas. Enquanto executava essas tarefas rotineiras de chamar, ou através de emails ou via telefone, não abandonava as suas outras tarefas diárias, inclusive seu ofício de profissional de informática.
Ela sabia que seus envios poderiam contar com mais de um endereço eletrônico, pois todos levariam ao mesmo lugar. Então, criou um grupo de contatos composto por todos os endereços comuns.
A arte de chamar foi se tornando cada vez mais sofisticada, e também mais contundente. Os emails já continham apelos como: "Trimmmm atende essa merda peste!".
Diariamente se levantava com munições diferentes engenhosas e criativas. Pensou em usar também o correio comum, através de telegramas, mas logo desistiu devido ao custo.
Para não se tornar repetivia nos adjetivos e apelos, passou a registrar em um arquivo texto, tudo que escrevera ou escreveria. Nas mensagens, usava o campo do assunto, não utilizava o corpo de texto, pois o efeito era mais rápido e dispensava a abertura do email por parte do destinatário. O corpo da mensagem estava sempre em branco.
Um dia aconteceu algo inesperado. Recebeu um email que dizia: “liga, que vou atender”.
Isso não poderia acontecer! Pegou o telefone, chamou e, antes que atendessem, desligou depressa. Verificou que chegava em seguida, uma nova mensagem em sua caixa de entrada. Assunto da mensagem: “como posso atender se você desliga?”.
Meu Deus! Isso era o fim! Já mal lembrava para quem estava ligando, e a pessoa tinha o desplante de atender?????
Desesperada, começou a mandar emails novamente: “puta merda atende logo antes que eu desista”. Corria ao telefone e ligava deixando tocar apenas o suficiente pra sentir que atendiam. Desligava. Olhava o computador e via o email chegando na caixa de entrada. Não acreditou no que lia. Estavam copiando e usando suas mensagens antigas! Isso era um assinte!!!. Aumentou a artilharia. O outro lado fez o mesmo. Não suportava mais ver os emails que chegavam com todas as suas mensagem, outrora enviadas, onde apenas tiveram o cuidado de substituir a palavra “atende”, pela palavra “liga”. Passou o dia todo procurando sinônimos no dicionário, e adicionando ao arquivo texto novas formas de mensagens. Virou a noite.
No dia seguinte contava com 7.243 formas distintas de dizer a mesma coisa: “trim, atende ao telefone”. Feito isso colocou todos os endereços de emails no lixo eletrônico e ficou com apenas um. Desativou seu outlook e agora não via mais as mensagens chegando, e não mais tinha contato com sua caixa de entrada. Usaria apenas o botão , remontaria as novas mensagens e as enviaria.

Feito isso, foi tranquilamente passar um café.
Meses se passaram...

Trimmm!
Dou outro lado da linha o dono da padaria dizia:
- Porra! Vou trocar o número dessa merda! Faz dois dias que instalei esse telefone, e tem um maluco que já ligou mais de duas mil vezes sem dizer nada.

Enquanto isso, na sua caixa de entrada, centena de milhares de devoluções de emails constando o status: ENDEREÇO NÃO ENCONTRADO.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Gozo: O Fim do Tesão - Helena

Não sabe o que é isso
Não sabe como isso acaba
(não sabe nem se acaba!)

Ora!
Disseram o que fazer,
O que pensar,
O que esquecer
O que não lembrar

O que olhar,
O que não ver
O que ouvir,
O que não escutar

No torturante construir
Das leis da interdição
Não disseram o que sentir
Não falaram do Tesão

Depois de tudo aprendido
Te pegaram de surpresa
O corpo se rebelando
Deixa o coração rendido
Traz o gosto de estranheza

Desejo é só desconforto!
Algo tão dilacerante
O corpo prefere estar morto
E não acredita ser
Aquele amor do prazer
Aquele do corpo amante

Não sabe o que é isso
Não sabe como isso acaba
(não sabe nem se acaba!)

Você deseja o fim!
Mas só por desconhecê-lo
Já não mais sabe se o teme
(não sabe nem por que geme!)

Ora!
Tanto desprazer!
Que não há maior prazer
Que isso logo acabar
Aí, descobre que acaba!

Só é bom porque acaba
Só é bom por que já sabe
Como isso vai acabar

Se é o fim quem traz o gozo
Precisa recomeçar
Para de novo findar

Para de novo gozar

A Fernando Pessoa - Helena

Me comove ver escritos por outras pessoas, todos os sentimentos que experimento e tento, recursivamente, organizar dentro de mim, na tentativa frustrante de escrevê-los. Como pode?... São meus sentimentos! E outros, que nem ousaram saber da minha existência, saem por aí, a expor minhas mais recônditas angústias, alegrias, dúvidas, esperanças.... Não é possível que estivessem falando de si mesmos! Falavam de mim. Sim, falavam de mim! Ou, melhor, falavam por mim, choravam por mim, riam por mim, sofriam por mim. E ainda assim tantos sentires me sobraram, que creio haver uma inesgotável fonte de sentimentos, que nunca cessará, e sempre haverá alguém que, inadvertidamente, beberá dela, e entrará neste mundo de sensações que não pode ser descrito, mas sim, apenas sentido e vivido. Resta a mim, a repetida tarefa de dizer, dizer, e dizer o que sinto através das palavras que leio. Palavras de outras pessoas. Sim ! Outras pessoas que ousaram escrever os meus sentimentos sem que eu as autorizasse para que, a posteriori, eu lesse e indagasse silenciosamente: “quando eu escrevi isso?”. Palavras dessas outras pessoas que um dia, antes de mim, ousaram beber dessa fonte e por ela foram também tragadas, mas deixaram para mim, ecos de seus sentires, como uma prova da comunhão que paira sobre toda a humanidade, mas que apenas alguns poucos podem identificá-la.
Agradeço a todos por traduzirem aquilo que um dia eu sentiria e, muitas vezes, não entenderia em mim mesma.

À Nara

Quanto prazer sentimos na “amizade de varanda”, aquela em que se deita na rede, ou se joga no chão, e se fala tudo o que passa pela mente e pelo coração. Aquelas conversas em que “o pensar” é mero instrumento de organização do “sentir”.... . E foi assim que Nara, minha grande amiga de salinha de chat, foi lentamente recolhendo recortes de minha falas em nossas infindáveis conversas pela madrugada adentro. Como um “cão farejador”, Nara juntava aquilo que se precipitava de mim para dentro de conversas sobre os mais variados assuntos. Nara é uma amiga virtual, nunca nos vimos e há cinco anos nutrimos um amizade que baila na superfície e profundidade do que há de sensível na nossa tão falha natureza humana. Um dia minha amiga me surpreende me enviando um email. Mas era um email diferente, por se tratar de um email para mim, e escrito por mim mesma. Ao ler aqueles fragmentos de minhas conversas, vi passar à minha frente toda a história da amizade de nós duas. Nara havia juntado trechos escritos por mim, e montado um arquivo a que chamara de “Pérolas da Claudinha” (Cláudia é meu nickname nas salinhas de chat). Agora vejo que, durante toda a minha vida, estive a cuspir os meus sentires através das palavras sem me dar conta disso. Eu abortava embriões de poesia e Nara saía a catá-los ainda pequenos, e os deixava em prateleiras a incubar, até que pudesse perceber em mim o preparo, o desejo de assumir a paternidade de meus órfãos. Ao me ver diante de tão surpreendente momento, pude perceber que, como mãe distraída, estive toda a vida abortando poesias sem me dar conta de meu próprio fruto. Quantos orfãos deixei pela vida? Quem sabe estão por aí fortes sadios.. quem sabe deixaram de ser embriões e se tornaram poemas nas mãos de mães zelosas?.
Nara me ensinou, eu agora não me ouço mais com meus ouvidos e cabeça, mas sim com meu coração – como sempre fiz com os outros.

Obrigada Nara, pela sua obstinação!

Helena
USA – Inverno 2005/6