sábado, 15 de setembro de 2007

Cazuza e Fernandinho à beira-mar (ou... Siro Darlan, você está enganado) - Helena

(“ A única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não” Siro Darlan)


Ambos foram vítimas do abondono.
Abandono compensado por mimos,
Abandono dissimulado em maus tratos.
Um comprava calças e rasgava-as antes de usar.
Outro ganhava calças que remendava para vestir.
Um visitava o mundo do outro, pela porta da frente.
Ali, comprava motivos para viver.
Outro invadia o mundo do Um, pelo fundos,
Lá, roubava o motivo da sobrevivência.
Um, poeta.
Outro, personagem do poeta.
Um buscou e alcançou a fama
Outro foi alcançado por ela.
Um, idolatrado por muitos , hostlizado por alguns.
Outro odiado por quase todos, amado por poucos.
Para Um, o palco era a sua praça.
Para Outro a praça era o seu palco.
Ambos cativos na solidão superpovoada do abandono.
Um, por estar ocupado vivendo, se distraiu e não conseguiu sobreviver.
Outro não teve tempo de viver por estar atento, ocupado sobrevivendo.
De Um, podia-se ouvir o nome à beira-mar.
De Outro, podia-se ouvir Beira-mar no nome.
Como tantos outros Agenores e Fernandos

7 comentários:

Anônimo disse...

"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas
frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua
aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por
isso a aldeia é maior que a cidade..."(Fernando Pessoa)
...a aldeia é sua alma, Helena...

"Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus
nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do
tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até
às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma
segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago
luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer
palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da
matéria vazia."(Fernando Pessoa)

...essa é você: olhar que identifica humanidade...

Elisa Antoun disse...

Cacete!!
Demais! Adorei!

Elisa Antoun disse...

lindo lindo lindo

Barrão disse...

poxa, quanto tempo sem conseguir entrar em contato com uma máquina escrevente que direciona grandes textos sensíveis, como os que leio aqui, para uma rede mundial que pode usufruir de prestígios como a internet!

fico embaraçado com seus gracejos sobre os textículos que escrevo. mas, mais dia, menos dia até que eu morra, eles aparecerão por aí.
estou em outra cidade por um tempo, isolado da mansidão mineira para conhecer o provincianismo do sul do país. escrever é preciso. sim. mas ainda não consegui inspirações (lugares para sentar e soltar o verbo;ou até mesmo verbos.)

é uma dor ver blogues abandonados. principalmente quando são bons.!
é uma pena deixar de lado planos que deveriam ser prioridades. mas confessando: há uma agenda com aforismos estúpidos resistrados; um dia os libertarei.

que bela descomparação! entre cazuza e Beira-mar há muito mais do que só o local de nascimento. há fragmentos históricos construídos pelas elites brasileiras que foram capazes de se perpetuarem enquanto elite centralizadora de rendas. ou como diria Darcy Ribeiro "de alta competência... ela é façanhuda..."

talvez o autor da frase tenha criticado as ações subversivas ou ditas criminosas de cazuza. se foi nesse sentido, fica difícil conversar. pois são pessoas um pouco anacrônicas... e eu tenho dificuldades com pessoas que vivem ainda segundo os pensamentos da guerra fria. ou do cientificismo do século xix.

mas se não foi nada disso, escuso-me.

fico falando besteiras por aí.
porque se um dia meus enigmas forem desvendados numa dessas, espero que alguém me diga, para que eu possa saber.
rá!

toda força pra ti!

beijo beijo

Carlospaibabao disse...

É a dura realidade dos extremos... Mas ainda que haja em comum a busca desesperada da sob(re)vivência, o que mais assusta é que o "supostamente" mais aquinhoado foi o que menos sobreviveu...

Um beijo Helena....

Fran disse...

É inegável que o texto foi increvivelmente bem escrito e a partir de uma visão poética, é lindo!

Mas como análisando suas palavras, não concordo!

O Cazuza não é esse marginal que você descreveu e nem o Beira Mar é esse santinho, se ele roubasse só para comer, eu não o condenaria, mas ele fez muito mais que isso e não se contentou com pouco, nem com muito...

Cazuza não foi nenhum exemplo de caráter perfeito, mas é visível que ele tinha problemas, não digo com família, mas ele devia fugir de algo na busca pela diversão excessiva, não é uma atitude forte ou nobre, mas todos estamos suscetíveis a erros e fraquezas!

Não posse negar que é um belo texto, mas não concordo com o modo como julga o Cazuza...

Anônimo disse...

Nunca. Nunca mais pense em parar de escrever. Esse texto foi como um afago em meu coração de artista.

Nunca pare de escrever.
Você é linda!



ALL, 17 DE MARÇO DE 2009