sexta-feira, 1 de maio de 2009

Meu amigo HSTR - Helman

(ou... Entendi, Mas Não Concordo)
( a respeito do seu comentário no meu texto postado em 22 de abril de 2009)
Creio meu amigo, que a loucura esteja presente em toda e qualquer criatura humana. O que difere de uma pessoa para a outra, é o quanto ela já rompeu com aquela parte que chamam de "sanidade". É fato que quando ela romper definitivamente ela nunca mais falará a respeito de sua própria loucura , visto que este será seu estado natural, não lhe restando a crítica "sã. A questão, na minha opinião é claro, não é o quanto somos loucos, mas sim o quanto ainda temos de "são" para administrarmos satisfatoriamente, essas nossas duas faces, e nos tornarmos, ao menos, toleráveis socialmente. Quanto ao "enaltecer a loucura", citado no seu comentário, isso vai depender das lentes que se usa quando se lê um texto. Onde você enxergou "enaltecimento" eu escrevi “dor”. Não falávamos ali sobre "loucos" vítimas de transtornos patológicos. Falávamos, sim, de loucuras internas. Loucuras internas são aquelas que persistiram por não conseguirmos dominá-las no árduo combate que travamos durante a construção de nossas personalidades. Durante o processo de nossa formação, nossas figuras parentais, nos injetam doses maciças de algo que não somos nós e, durante esse processo, precisamos estar todo o tempo em conflito entre o “eu” e o “eu do outro”. É claro que não saímos impunes dessa batalha! Criamos um mundo de fantasias para que possamos transitar entre essas duas dimensões do “eu”. A essas fantasias dou o nome de “loucuras”. Aquilo que muitas vezes rotulamos em outra pessoa como um “desagradável comportamento”, muitas vezes é um dos aspectos da sua (dela) loucura. Quando, por amor, tentamos nos adequar ou, até, adotarmos idêntico comportamento (que não é naturalmente nosso), pode vir a ocorrer aquilo que menciono no meu texto, que foi a razão do seu comentário postado. Confesso que estranhei a sua escolha nos adjetivos usados em seu comentários. Mais pareciam comentários de alguém indignado com algo tão simples e comum. Talvez sua própria “loucura” seja totalmente avessa e esse tipo de uso do termo, julgado por você, como algo “clichetizado”, quando sua crítica poderia ter, de minha parte, o mesmo adjetivo. Mas sou obrigada a concordar quando você fala do que há de poético nesse tipo de loucura, mas até mesmo sobre isso eu gostaria de dizer que, mais uma vez na minha opinião, não existe poesia sem loucura nem a loucura (seja ela qual for) sem poesia, pois ambas se encontram emaranhadas entre si no nosso mundo interno chamado sensibilidade. Talvez tudo que falei seja clichê, ou talvez sejam clichês seus comentários sobre tudo o que falei, mas, parafraseando o louco-poeta, William Shakespeare, “Há mais loucura no mundo ‘são’ do que supõe a sua ‘sã’ filosofia”

Com carinho
Helena
Obs.: acho que já podemos dizer que retornamos às nossas trocas (risos carinhosos)

Um comentário:

HTSR disse...

Em primeiro lugar, gostaria de destacar que muito folgo com a retomada de nossas correspondências, em tempo real ou semanal (até rimou) e as possíveis e respectivas trocas. Segundamente, e dando prosseguimento a minha resposta a tão honroso comentário – posto o nome de minha pessoa ter sido cololcado em destaque – quero frisar que não era minha intenção polemizar (não nesse momento). Assim sendo, sequer passou-me pelo âmbito da vontade (consciente, ao menos) classificar teus escritos como de “lugar comum” ou coisa que o valha. Como parece que foi o caso a má interpretação mútua, sinto-me na obrigação de prestar alguns esclarecimentos que poderão soar ora meio didáticos, cliches e ora defensivos – mas tudo em prol da boa comunicação. Antes de ir adiante, quero lembrar-te que mais me interesso em saber de ti do que discutir conceituações acadêmicas ou literárias acerca da realçada “loucura”, com ou sem aspas. Penso ser óbvio que para se discutir acerca de qualquer assunto as pessoas devem falar a mesma “linguagem”, esta mais do que significar um idioma quer referir-se ao domínio semântico dos interlocutores. Desse modo, a mesma palavra pode ter significados distantes ou completamente distintos, dependendo do fórum em que é requerida. Assim, “dente” para o engenheiro é uma coisa e para o dentista é outra. Igualmente se passa com a palavra “loucura” – penso. Como reconheço o uso polivalente da mesma - e mesmo me utilizo dessa disponibilidade - não faz sentido a suposição de algum fundo de indignação em meus comentários. Ainda que tenha minhas quedas literárias (agora premiadas em recente concurso nacional), meus “calos” intelectuais se formaram pelo contínuo atritar ora na ciência ora na filosofia. Por isso num primeiro momento – ao menos – sou remetido a um desses campos ao ler certas palavras e termos tão “lugar comum” naquelas paragens. Por exemplo: “loucura circular” é um termo cunhado por Falret, em 1854, para caracterizar a “revolução sucessiva e regular do estado maníaco, do estado melancólico e de um intervalo lúcido mais ou menos prolongado”. Nada tão assombroso, portanto, em se reportar a essa significação, ou aparentadas, quando em contato com o termo. O mesmo estranhamento se dá ao ler “loucuras internas”. Primeiro: por oposição, o que são “loucuras externas”? Se as mesmas não existem, não seria redundância o uso da palavra “interna” ao se referir à loucura? E, mais, quantas loucuras podem coexistir em um mesmo indivíduo? Se, academicamente, loucura se refere a um desvio da “normalidade” (enquanto um estado consensualmente aceito), as diferentes manifestações apenas não requeririam para si adjetivos qualificativos, dispensando o termo plural “loucuras”?
Ora, ora... comentário clichê... algo pertencente a muitos... e daí? Mesmo neologismos se tornam clichês, por exemplo: “dolarização”. A originalidade linguística tem seu momento de estranhamento – diante do novo – e vulgarização, após o domínio coletivo. A maneira como trataste a “loucura”, circular ou não, em um primeiro momento não ficou clara para mim. Teus últimos escritos trouxeram luz ao que já supunha: o uso de um tempero poético à expressão.
“Crítica” para a maioria das pessoas não tem a significação que é do domínio filosófico. Em uma “interpretação clichê”, aquela palavra significaria censura, algo muito distante do filosófico entendimento, a partir da qual se busca indagar pelas condições de possibilidade do “objeto” em estudo, bem como das afirmações que dá origem. Por outro lado, se uso o termo “resposta suspensiva” – sem os devidos esclarecimentos do que quero dizer com isso – o mesmo não significará nada à maioria das pessoas, ainda que utilze em sua composição palavras conhecidíssimas. Em música a expressão não é novidade, mas em filosofia poderia ser. Quem sabe significasse algo semelhante a “resposta inconclusiva”? Assim, as coisas se tornaram mais claras quando colocas o que pretendes afirmar por loucura, ainda que a questão plural, a internalidade e circularidade das mesmas ainda estejam em “suspensão” – ao menos para mim.
Por fim, mais um termo “alvoroçante”: ironia. A ironia é “um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos”. Pretendi dar a entender que percebia tuas linhas mais impregnadas de um “verniz” literário “livre” e recorrendo à irônia, enquanto ferramenta nesse contexto, do que se baseando na psicologia acadêmica. Mas como não ficar em dúvida, sabendo eu de tua formação? Pensei que com a tal ironia utilizasses de tua formação para gozar (provocar) dessa coisa – a loucura – ou mesmo alguém (ou outros), de forma artística com vista a obter uma reação do leitor (es) ou possíveis interlocutores (tais como eu).
À busca do “eu”, por outro lado, não precisa imprescindivelmente ser monopolizada pela intitulação de “loucura interna” (ainda que tal denominação não seja necessariamente dispensável). Pessoalmente me refiro a isso como egoísmo (em significação fora do circuito clichê), em oposição ao egocentrismo e me afinando a autores que usam termos tais como “ética do amor próprio” ou o “único e sua propriedade”. Termos, termos e termos... Nessas horas sinto a angústia wittgensteiniana e seu propósito numa filosofia da linguagem.
Polêmicas à parte, ainda que meu discurso ou o seu contivessem elementos ou mesmo estivessem no âmago do “lugar comum”, isso não tem nada de censurável, ainda mais tendo em conta que a própria crítica (enquanto censura) ao “lugar comum” já se tornou, ela própria, igualmente clichê.
Parece-me ter ficado evidenciado, no contexto que dicutimos, o significado de loucura enquanto movimentos particulares, por vezes não convencionais e até mesmo pouco compreendidos – ou quiçá incompreensíveis – na busca do “Eu” e na afirmação de “Si”. Evidentemente, o conjunto desses movimentos não são compartilháveis e qualquer tentativa de imitação por terceiros implica em apropriação indébita (não tem razão de ser) por um “outro”. Apropriação essa de uma busca única sobre a qual não tem qualquer propriedade, revestido-se de inautenticidade (“assumir” o “eu do outro”) e prováveis, bem como desnecessários, sofrimentos. Sobre isso concordo sem qualquer revolta. Contudo, quando frisei a questão de quem está louco não mais frisar a própria loucura, pensei em termos existenciais e metafísicos. Como lembrou Comte-Sponville em seu “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, a humildade não tem como reconhecer a si mesma – posto que absulutamente humilde não tem como se enaltecer em nenhum grau. Tendo um olho em Erasmo de Roterdã e sua obra “Elogio da Loucura”, penso que a mesma riria de tudo isso. Talvez eu não seja louco o bastante para evidenciar, louvar ou reinventar a loucura ou, por outro lado, seja tão louco que não me aperceba dessas necessidades. E agora, “José”? Descontados “mortos e feridos” resta a “loucura” de te querer bem.
HTSR