domingo, 9 de outubro de 2016

Abre-alas - Helena Antoun



Parecia creme de milho, aquela mistura no meio-fio da avenida Presidente Vargas, na manhã da quarta-feira de cinzas, quando ele, atrasado e apressado, saiu pra trabalhar. Quando o sinal abriu, atravessava o asfalto, tentando identificar qual seria a composição da mistura despejada naquele pequeno trecho da avenida. Provavelmente, quando ali derramaram, sua consistência era mais líquida, e, à medida que se espalhava, foi lentamente engrossando, perdendo movimento, e, no decorrer da madrugada, estava ali aquela forma que mais parecia uma península pastosa.
Enquanto caminhava para o trabalho, lembrava de ter adormecido, na noite anterior, embalado pelo barulho da algazarra de carnaval, que entrava pela janela de seu quarto. Poderia, ele mesmo, ser o creme de milho que avistara, minutos atrás. Uma vida inicialmente líquida, onde não se supunha a forma a que chegaria, crescendo e se movimentando, em meio a uma algazarra carnavalesca, oriunda da felicidade decorrente “não saber”, da infância ávida por acontecer. Tudo naquele tempo era possível se dar, até mesmo ser conduzido ao bueiro mais próximo, e dali compartilhar espaço com os ratos e a matéria putrefata do submundo da existência.
Tudo, naquela vida, era a “possibilidade de”. Nada se sabia sobre a forma, ou sobre algum tipo de engessamento, a que se poderia chegar. Nada havia de certo, nada, nada, nada. Sim, definitivamente, ele era um creme de milho, despejado ao longo do meio-fio da avenida de sua própria vida, a construir, a partir de seus movimentos, a sua forma final.
Encontrava-se ele, agora, parado, à espera que abrisse o sinal da avenida Rio Branco, quando, desconsoladamente, percebeu que se encontrava na sua forma final da quarta-feira de cinzas de sua própria existência. Não havia mais movimento, maleabilidade, ou liquidez, que permitisse que algo pudesse ser construído, ou reformado, naquela escultura pastosa de ser, que fora distraidamente construída pelo destino.
Diante de tão dolorosa constatação, nada mais restava, que não fosse farejando por todos os becos e ruelas de sua mente, buscar algo que diluísse a península engessada, e permitisse o leve fluir para outros caminhos, que não aquele em que se encontrava. Não encontrava saída, não tinha, estava paralisado, na sua forma final, e nada havia que pudesse fazer para se deslocar.
A rotina em que mergulhara a sua vida soava, diariamente, como um sino que se desdobra, ignorando a vida que acontece no asfalto, os blocos carnavalescos que continuam passando, e os vendedores ambulantes que gritam incansavelmente, buscando serem ouvidos em meio às ensurdecedoras marchinhas, Ao final, ficaria ali, no chão, a mistura de confetes e serpentinas diluídos nos restos de cerveja e refrigerantes, que os foliões derramavam, e que formavam uma espécie de papel machê, ao longo das avenidas, que se confundiam com tão delicada iguaria de milho.

Já no escritório, enquanto batia o ponto, na avenida Presidente Vargas, dois garis varriam a península esculpida na véspera, enquanto um dizia ao outro: “Já parou pra pensar quanta ressaca espalhada pelo Rio, hoje? O outro – Dá pra ter uma ideia, pela quantidade de vômito que a gente já limpou...

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