terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Os Primeiros Natais - Helena

O dia amanhece, e eu me levanto com a velha e costumeira sensação de que é o Primeiro Natal. Até hoje nunca entendi porque, pra mim, todo ano eu tenho essa mesma impressão, ainda que seja o mesmo lugar, as mesma pessoas, os mesmos rituais, sempre a mesma comida... o peru! Gente, o peru! ”... Peru de Natal Peru de Natal é tão fácil de fazer vem temperado e pronto pra assar lá lá lá...”. A mesma propaganda! Nao pode ser ! Tudo tão igual, e eu pulo da cama como uma criança que alivia a úlcera da ansiedade natalina e diz pra si mesma: “Enfim, é hoje”. Sim é hoje! É hoje que comerei a mesma comida no mesmo lugar com as memas pessoas as mesmas conversas e musicas... ou não? Não! Não dessa vez! Dessa vez é o primeiro sim! Com certeza!

Eu sinto dentro de mim eu percebo nas pessoas, nos aromas, nos ruídos... é real o sentimento de estar vivendo isso tudo pela primeira vez... É real essa predisposição em renovar “o igual,” em tornar impar cada experiência que se repete igualzinha a cada ano. É verdadeiro o desejo de ver “o novo”, “no velho”. Sim é o espírito da renovação que se precipita dentro de cada um de nós trazendo em si, a esperança, a coragem, e a determinação em recomeçar a continuação de nossas vidas no próximo ano que virá. Sim! Definitivamente é o Primeiro Natal, foi o Primeiro Natal, e será o Primeiro Natal e ainda que lograsse existir um que fosse o derradeiro, ainda assim, este seria o Primeiro Natal!

Desejo a voces todos um Natal Especial - o primeiro de uma série de tantos outros primeiros que virão. E que a cada um deles, seu coração, mais e mais, possa tocar o espírito de renovação e usufruir de todas as suas benesses. Espero, também, que tudo transcorra no mais absoluto sucesso com sua saúde.





Um Beijo da Helena

sábado, 15 de setembro de 2007

Cazuza e Fernandinho à beira-mar (ou... Siro Darlan, você está enganado) - Helena

(“ A única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não” Siro Darlan)


Ambos foram vítimas do abondono.
Abandono compensado por mimos,
Abandono dissimulado em maus tratos.
Um comprava calças e rasgava-as antes de usar.
Outro ganhava calças que remendava para vestir.
Um visitava o mundo do outro, pela porta da frente.
Ali, comprava motivos para viver.
Outro invadia o mundo do Um, pelo fundos,
Lá, roubava o motivo da sobrevivência.
Um, poeta.
Outro, personagem do poeta.
Um buscou e alcançou a fama
Outro foi alcançado por ela.
Um, idolatrado por muitos , hostlizado por alguns.
Outro odiado por quase todos, amado por poucos.
Para Um, o palco era a sua praça.
Para Outro a praça era o seu palco.
Ambos cativos na solidão superpovoada do abandono.
Um, por estar ocupado vivendo, se distraiu e não conseguiu sobreviver.
Outro não teve tempo de viver por estar atento, ocupado sobrevivendo.
De Um, podia-se ouvir o nome à beira-mar.
De Outro, podia-se ouvir Beira-mar no nome.
Como tantos outros Agenores e Fernandos

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

(Fernando Pessoa preferiu escrever isso antes de mim, por que sabia que, mesmo sentindo, eu não teria capacidade de fazê-lo)

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Carta a um amigo – Helena

Meu doce amigo,

Quando perdemos a pessoa amada (ou acreditamos que perdemos), mais do que a perda da pessoa, sofremos a perda de nós mesmos nela. Quando temos alguém que amamos, e nos ama, esse alguém se torna um espelho, onde podemos ver no reflexo de nós mesmos, uma pessoa bonita, querida, amada. O ser amado nos dá uma imagem bonita de nós e isso é bom, a gente se ama um pouco mais com isso. Quando perdemos o ser amado, é como se perdêssemos a nossa imagem linda que tanto amávamos. É como se o espelho se virasse de costas, e nós quiséssemos desesperadamente virar novamente a face para nós. É difícil sair por aí sabendo que nossa imagem anda perdida a procura de nós, ou que nós mesmos andamos por aí à procura do nosso reflexo. E quando isso acontece, temos a sensação de estarmos passando ao largo das coisas do mundo e da vida, como se não mais fizéssemos parte de absolutamente nada. Aos poucos, vamos nos desapegando de tudo e de todos como se só existisse a nossa orfandade em relação à nossa alma perdida no espelho do outro. Mas tudo isso passa, creia em mim.
Como a dor de parto, perder um amor é nascer pra uma nova vida, e nascer dói. Perder um amor é termos que trilhar novas estradas e redesenhar sozinhos nosso futuro, e projetos outrora feitos a dois. Isso dói e assusta demais, como nos doeu, e não lembramos, no dia em que fomos postos no mundo desamparados, onde só buscávamos uma única coisa: as manifestações maternas.
Meu amigo, a nossa capacidade de adaptação é tamanha que pouco sabemos do que podemos resistir. Sua alma foi ferida e está inflamada e inchada, mas acredite, ela vai desinchar e ficará apenas uma cicatriz para que você possa sempre lembrar o quanto somos frágeis e fortes ao mesmo tempo, servindo de estímulo para o enfrentamento de novas vicissitudes.
Torço pra que aconteça o melhor pra você. Mas o melhor, lembre-se, não temos a onipotência de saber o que é.
Já diz o velho ditado: "O que é do homem, o bicho não come"... O que tiver que ser será.
Um beijo da Helena

sábado, 14 de julho de 2007

O universo onírico da realidade que não foi - Helena

“Acaso as lembranças daquilo que foi sonho são menores que as lembranças daquilo que foi real?... Não é tudo lembrança?... Que diferença fará sonhar ou viver a realidade, se, quando mais precisarmos, ambas serão lembranças?... É possível que, numa certa altura de nossas vidas, as lembranças dos sonhos sejam mais reais do que aquelas daquilo que um dia chamamos realidade, pois os sonhos são a nossa criação, como a nossa realidade é criação de Deus. Somos o deus de nossos sonhos, assim como Deus o é de nossa realidade. Sendo assim, nossos sonhos são tão reais para nós, quanto somos para Deus.”

domingo, 1 de julho de 2007

LADAINHA - Helena

Era quase sempre assim, ela avistava o seu “amado”, mesmo de longe, e - pronto! - era acometida por uma incontrolável vontade de molhar suas roupas íntimas, se esvaziando do líquido que seus rins cuidadosamente produziram. Em outras palavras, mijava-se toda. Nelma formava poças em torno dos pés, se contorcendo de tanto rir, enquanto procurava algum lugar para se esconder do seu príncipe encantado. As amigas sempre tentavam ajudá-la, buscando não dar a perceber que a conheciam, claro, mas sim que a encontraram em apuros e se mostravam solidárias.
Desde pequena, Nelma sofria desse estranho mal de se urinar, sempre que algo muito esperado estivesse por acontecer. Aliás, não só isso era estranho em Nelma. A moça, desde menina, guardava em uma caixa, milhares de recortes, e todos eles, sem exceção, eram da palavra “beijo”. Beijos de todas as fontes, tamanhos e cores. Quando as revistas, que sua mãe trazia das casas onde fazia faxina, escasseavam, Nelma se punha a desenhar, por tardes e tardes, centenas de palavras para sua coleção. Muitas vezes, chegava ao requinte de escrever com a mão esquerda, ou com a boca, para torná-las diferentes. Sempre que se despedia de alguém, ela ia à caixinha, pegava alguns “beijos”, e entregava à pessoa dizendo: “Leve alguns beijos, pois você poderá precisar”. Não havia um vidro sequer, ao alcance dos olhos de Nelma, que ela não limpasse, até que se tornasse imperceptível ao olhar humano.
Um dia, sua mãe levou-a ao médico, para entender o que havia de errado na cabeça da filha. No consultório, relatou os comportamentos estranhos da menina, desde a época em que o caçula largou o seio materno, e a igreja, que a família frequentava, recolheu doações, dentre elas, algumas latas de leite em pó. Na semana seguinte, Nelma amanheceu com um prisão de ventre de dias, que só a muito custo, e com a ajuda de dois talos de couve untados no azeite, resolveram o problema da menina. Foi então que descobriram a baixa nas latas de leite: três delas se encontravam vazias. Ali, se revelava o impulso, quase incontrolável, em Nelma de comer leite em pó sem água. Comer o pó às colheradas.
Dona Laura dizia ter começado se preocupar, desde esse episódio, mas que não era o episódio em si que a assustava, tanto que, sempre que podia, trazia um pouco desse leite da casa de suas patroas onde fazia faxina, junto com as revistas de onde a pequena recortava os “beijos” para a sua coleção. A bem da verdade, dona Laura nunca se preocupou isoladamente com cada um dos comportamentos estranhos da menina, até justificava-os: a mania de comer leite devia ser necesssidade do organismo, o leite é nutritivo; os “beijos”, por ela ser uma menina muito carinhosa, além de gostar de fazer coleções; a limpeza dos vidros, por que herdara da mãe a arte na faxina; a coleção de chapinhas de refrigerantes foi por causa da idéia infeliz do filho de 11 anos, Eraldo, que convencera a irmã de que o dinheiro do mundo acabaria, e que as benditas chapinhas seriam o próximo 'dinheiro', e desde aí a menina juntara toneladas delas, com o objetivo único de comprar um edifício cheio de leite em pó só para ela. Mas, quando dona Laura pensava que todos esses comportamentos estavam concentrados em uma única filha, isso a assustava demais.
Quando Nelma criou o costume de calçar os sapatos nos pés trocados, dia sim, dia não, mesmo achando que pudesse ser uma inteligente estratégia econômica da filha, para gastar igualmente a sola dos sapatos, dona Laura decidiu que o médico é quem deveria descobrir se a menina era doente ou não. E, mesmo à revelia do marido, arrumou a menina e levou-a ao doutor Josino, médico que atendia no fundo da farmácia da rua principal. Depois de ouvir o relato da mãe angustiada, doutor Josino calmamente explicou-lhe que crianças com a idade da menina possuíam um imenso mundo interior, e que nesse mundo havia toda sorte de coisas que os adultos não entenderiam, mesmo explicadas exaustivamente. Disse também que todos aqueles 'rituais' iriam desaparecer com a idade. Acrescentou que o problema de a menina urinar deveria ser tratado com tranquilidade, pois há crianças que de fato demoram muito para controlar o aparelho urinário.
Dona Laura saiu bem mais tranquila do consultório, e, sempre que alguém comentava qualquer coisa sobre os sinistros costumes da garota, ela respondia com a mesma frase: “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”. De fato, ela até colaborava com as manias excêntricas da menina. Numa festa junina da igreja, em que dona Laura se responsabilizara por uma barraquinha de docinhos, o preço do docinho era acrescido de uma estranha e sutil exigência: o freguês deveria escrever a palavra beijo num pedacinho de papel. Nelma ficou tão animada com a empresa que, à noite, quando chegou em casa, estava afônica devido à intensa divulgação que fizera da barraquinha da mãe. De tanto repetir “com a idade, isso desaparece... são coisas de criança”, dona Laura não se apercebeu que os costumes da filha, que eram ao todo onze, estavam sumindo um a um. A verdade era que muitos deles sumiam aos olhos de todos, mas não de fato. Nelma, conforme ia ficando mais velha, notava que devia ocultar seus hábitos dos demais, para que tivesse tranquilidade, sem ser alvo de chacota dos outros. Mas, quando se deparava com a palavra “beijo”, a menina não continha o impulso, e, disfarçadamente, destacava a página para, num momento mais propício, recortar e guardar mais uma peça do seu 'tesouro'. Com o dinheirinho que ganhava da madrinha (uma patroa de sua mãe que assumira as despesas com a menina), comprava uns pacotes de leite em pó, dos mais baratos, que só comia à noite, escondida de todos. Nelma manteve o costume de comer verduras, para “equilibrar os intestinos”, como dizia sua mãe, e beber muita água, “para fazer o milagre do leite”, como repetia o irmão Eraldo, se referindo à diluição do leite em pó no estômago da menina.
Dona Laura não media esforços em convencer a todos de que os antigos hábitos da filha foram, na verdade, muito benéficos, não só para a menina, como também para toda a família, e, numa ladainha cadenciada pela própria respiração, enquanto fazia suas tarefas domésticas, relatava os benefícios: “Come muita verdura, graças ao leite em pó”; “bebe muita água, graças ao leite em pó”; “não pisa torto, graças aos pés com sapatos trocados”; “os vidros da casa são tão limpos, o que virou orgulho de todos, e até os irmãos conservam essa boniteza”; “as cortinas de chapinhas são lindas, invejadas por toda vizinhança” (fazer cortinas foi a saída que Nelma encontrara para manter sua coleção do 'futuro dinheiro'), e a ladainha continuava... Mas, sempre que chegava na coleção de beijos, que já havia sido quadruplicada às escondidas, dona Laura parava, por não encontrar justificativa satisfatória, dava um suspiro, e dizia: “Nelminha sempre foi carinhosa demais, e seus lábios nunca conseguiriam dar todos os beijos que deseja”.
Nelma era uma menina muito bonita - sua beleza era forte e simples. Aos doze anos, havia sido aprovada no concurso para o colégio público de melhor reputação de sua cidade. Sua madrinha não media esforços para dar à menina, bons estudos e formação. Núbia, a mais velha das irmãs, que eram quatro, desenvolvera uma caprichosa habilidade na arte de corte e costura. Nelma se mostrava extremamente talentosa, quando, ajudando a irmã, desenhava na hora, à medida que as freguesas de Núbia descreviam, os modelos a serem confeccionados. As freguesas adoravam a menina, e, através dela, se divertiam, tirando e colocando mangas, golas e adereços nas roupas. Sempre que definia um modelo, Nelma pedia que a freguesa escrevesse: “Para Nelma, um beijo de ...”. Todo dia Nelma levava o rodapé dos modelos para seu esconderijo secreto. Só Núbia percebia em silêncio que a irmã mantinha esse hábito.
Dona Augusta, madrinha de Nelma, tinha muito orgulho da menina e de sua aptidão para o desenho. Aos treze anos, Nelma ingressava num renomado curso de desenho artístico, ministrado nas instalações do Colégio Salesiano. Núbia já ganhava um bom dinheiro com as costuras (as patroas de sua mãe eram quase todas suas clientes), quando decidiu abrir um precário atelier, nos fundos da casa, para noivas e enxovais.
Dona Laura iniciou as arrumações da casa para os quinze anos de Nelma. Os cinco filhos mais velhos já estavam, de alguma forma, encaminhados na vida; restavam apenas Nelma, de quinze anos, e Edivaldo, de treze. Animada com a renovação da casa, dona Laura só falava nisso, dia e noite. Foi por essa ocasião que Nelma se interessou pela primeira vez por decoração, decidindo assumir parte do trabalho, se ocupando de uma poltrona velha e com o estofamento rasgado, que seu pai usava desde que parara de trabalhar, devido a uma injeção mal aplicada que imobilizara sua perna direita. Seu Haroldo torrava amendoins, fazia paçoca e pé-de-moleque, que entregava nas vendas próximas, e também trabalhava com as vizinhas, irmãs Alaíde e Adelaide, enrolando salgadinhos e docinhos que elas faziam para festas de casamentos e aniversários.
Nelma recolheu uma infinidade de calças e pernas de calças jeans que Núbia mantinha no atelier, por ter sido um presente oferecido pela vizinhança, por ocasião da descoberta de sua aptidão pela costura. Com esses retalhos, Nelma desenhou peça por peça de uma forração para a poltrona de seu pai. A capacidade de criação da menina era impressionante. Logo, logo havia uma série de papéis com os desenhos, cuidadosamente calculados, das peças necessárias à forração. A poltrona seria forrada em jeans. Os bolsos das calças seriam costurados nas laterais, para que seu Haroldo pudesse colocar os óculos, lápis e papel, revistas e jornais. Com as pernas das calças, seriam feitos dois travesseiros cilíndricos, presos por velcro nas laterais do encosto, para que a cabeça não quedasse em demasia para os lados, durante o costumeiro cochilo do seu Haroldo. Na frente do braço da cadeira, usando o cós de algumas calças, ela fez um bom e seguro suporte para o porta-cerveja de isopor, que o pai usava à noitinha enquanto assistia TV. Ficou perfeito! Núbia fez caprichosamente a costura, e tudo vestiu como uma luva. A capa e todas as peças eram removíveis para lavagem. Ficou realmente muito bonito, e foi a primeira criação daquela que, anos depois, seria uma conceituada arquiteta e estilista de interiores, com Coluna em duas importantes revistas. A casa realmente ficou muito bonita.
A festa dos quinze anos de Nelma foi simples, mas bem farta. Seu pai trabalhara incansavelmente, enrolando docinhos e salgadinhos, que Nelma, sua mãe e as irmãs fizeram durante os meses que antecederam à festa. As irmãs Alaíde e Adelaide também, graciosamente, ajudaram no preparo das guloseimas, pois, sempre que havia festa, ambas renovavam a esperança de encontrar um 'bom partido'. Em toda a casa tinha bom gosto, simplicidade e estilo. Foi nesse dia que Nelma revelou à Raquel que mantinha sua coleção de beijos, e, tão logo pudesse, mostraria à amiga. Raquel era sua melhor amiga, e sobrinha de dona Virgínia, vizinha e madrinha de muitos dos irmãos de Nelma. Ao lado de Raquel, Nelma se sentia à vontade para revelar seus segredos e desejos, pois Raquel nunca fizera qualquer censura em relação à amiga.
Foi na festa dos quinze anos, a última vez que ambas se encontraram. A partir daí, se falavam por telefone, cada vez mais espaçadamente, e, quando Nelma foi fazer o curso profissionalizante de desenho técnico, em outra cidade, os contatos se tornaram mais raros ainda, e, na maioria das vezes, eram feitos por carta. Quando saiu da faculdade de arquitetura, Nelma já era estagiária de uma renomada revista de decoração. Seu projeto final fora premiado em três modalidades, além de ter sido publicado também em dez capítulos consecutivos na revista em que a moça trabalhava.
E ali estava ela - uma arquiteta bonita, competente, talentosa, mijona, com mania de comer leite em pó e colecionar beijos escritos. Por essas características excêntricas, Nelma acabava por se sentir uma ilha em meio a pessoas que interagem entra si. Uma ilha cercada de pessoas normais por todos os lados. Não fosse pela incontinência urinária, os demais hábitos poderiam ser contornados e até escondidos de alguém que convivesse com ela. Mas essa incapacidade de se manter seca em situações de expectativa impediu-a, até mesmo, de receber pessoalmente os primeiros prêmios de sua carreira. Nelma já havia tentado todo o tipo de tratamento com médicos renomados, mas todos foram unânimes dizendo se tratar de alguma reação de fundo emocional e, portanto, carente de tratamento psicoterápico, o que a moça não se negou a fazer, mas que também não deram resultados.
Foi quando, num fim de tarde, voltando do trabalho para casa, no assento do corredor de um ônibus lotado, foi surpreendida pelo grito de um rapaz de uns vinte anos informando a todos se tratar de um assalto, e empunhando uma arma de calibre trinta e dois. Nelma ficou estática. O rapaz estava a menos de um passo dela, e dava para sentir o hálito doente do assaltante. Num lapso de tempo, ouviu-se, vindo do fundo da veículo, a voz de um senhor de meia idade que se dizia policial. Neste momento, o assaltante olhou em volta, buscando alguém como escudo e passou os olhos por Nelma, que sentiu sua bexiga contrair e, imediatamente, retornar à condição normal, quando o bandido escolheu um rapaz de terno que sentava no banco ao lado. Naquele momento, Nelma se ausentou de tudo e penetrou num mundo totalmente seu e que, ao mesmo tempo, desconhecia. Viu toda sua vida passando pela tela formada pela traseira do encosto do banco da frente. Em menos de três segundos, ela era uma menina que chorava em sua cama, antes de dormir, por ter sido molestada por seu pai, enquanto o escutava falando com a mãe, sobre sua preocupação com a filha, que tinha a mania incontrolável de beijar a todos, e que isso poderia ser mal entendido. A mãe respondia que ela era apenas uma criança carinhosa, ao que o pai retrucava com o argumento irrefutável de que o mundo estava cheio de maldade.
Num retorno momentâneo ao interior do ônibus, Nelma lembrou-se de que, no dia seguinte, adquirira seu primeiro recorte de beijo do rótulo de uma lata de leite em pó. Sentiu uma imensa vontade de beijar o rapaz que estava sendo mantido como refém, quando a tela à sua frente, tornou a se abrir, e dessa vez trazendo a figura de seu irmão convencendo-a de que as tampas de refrigerante e cerveja seriam a próxima moeda em circulação, o que se tornou um bom pretexto para que Nelma fugisse para a rua, longe do olhar desconfortável do pai, a pretexto de catá-las. Novamente, de volta à cena do assalto, desejou ter todas aquelas chapinhas transformadas em moedas de ouro, para que pudesse tirar aquele rapaz de terno daquela situação desesperadora. Mas não conseguia fazer outra coisa, senão levar seu olhar novamente para o encosto de banco transformado em tela. Sentiu nitidamente a angústia, após ter sido visitada pelo pai, quando trocava de roupa para ir à escola. A opressão era tão aterradora, que a menina se impôs ao desconforto de calçar os sapatos nos pés trocados, para que pudesse concentrar sua atenção na desconsolação de seus passos, e fugir dos registros que se estabeleciam em suas lembranças.
Voltando à situação presente, Nelma olhava os sapatos do rapaz, e pensava em como invertê-los, quando viu uma poça de urina se formar ao redor dos pés do refém, que chorava como criança. Imediatamente, percebeu que ela mesma não estava se urinando. À medida em que a poça crescia, os olhos de moça subiam pelas pernas e o corpo do homem, até chegar ao rosto, que agora era o rosto de Nelma, apavorada e rendida por seu pai embriagado. Um estampido fez com que saísse de suas lembranças, e visse o assaltante cair ao chão, trazendo junto o rapaz de terno, que ainda chorava em desespero, ignorando os gritos e pisões que levava dos demais, que tentavam fugir, aproveitando o estado desacordado do ladrão. Nelma se jogou no chão junto ao homem que chorava, e, numa atitude de protegê-lo dos pisões, abraçou-o e beijou-o terna, profunda e longamente no rosto. O homem sorriu.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Baile da Vida – Helena

Você alguma vez viu como é um baile de carnaval de adolescente? Ou de criança? Ficam alguns sentados às mesas e uma grande roda de gente dançando no salão, e dando voltas. Certo? Quem não quer dar voltas, fica no centro da roda dançando. Eu acho que a vida é isso. E existem algumas atitudes que se pode tomar em relação à ela:
Você fica na cadeira o tempo todo, durante o baile, dizendo como cada um deveria dançar.
Você fica na cadeira, durante o baile, tentando criar coragem para entrar na pista, com medo de não conseguir. Quando entra, já é tarde, pois o baile está quase acabando, e você não consegue se ambientar. Você se sente inadequado. Sente-se o tempo todo deslocado, e, assim como os que estão na mesa, você passa a assistir o baile de dentro do baile - um espectador inserido no ambiente, mas sem influenciá-lo em absolutamente nada.
Você entra, mas a roda te arrasta. Você não consegue retomar o prumo. Se deixa levar. Vai até o final do baile tentando firmar o passo, se endireitar. Sempre que a orquestra muda para uma marcha-rancho mais tranquila, você acredita que vai se aprumar; mas não dá tempo. Antes que você consiga, vem de novo o sambão, e todos começam a pular e dançar, e você se desorienta novamente. E assim você vai, até o final do baile, sempre esperando a valsa de que precisa para fazer a sua dança.
Você vai, do início ao final do baile, girando na roda, sempre pelos mesmos lugares, sempre vendo as mesmas coisas, e criticando aqueles das mesas que não entraram na pista, dizendo que eles têm medo de entrar, que eles estão perdendo. Mas você não sabe exatamente o que eles estão perdendo. Por que a única coisa que você sabe é girar, girar, e repetir tudo sempre igual, até que o baile termine.
Você não fica na roda. Se mete no burburinho, no centro da roda, e fica ali, pulando, dançando, fazendo tudo quanto é loucura. Mas, quando menos espera, o baile acabou, e você não viu o pessoal das mesas, nem o garçom, nem bebeu, nem comeu, e não lembrou nem de fazer xixi. Aí, corre à fila do banheiro para ver se dá tempo, mas é tarde demais... tenta comer ou beber algo, não dá mais tempo. Dançou pra caramba, mas não viu nada do baile. Senta e fica olhando as pessoas irem embora e o baile acabar, com aquela sensação de perda de algo que você não sabe bem o quê, pois perdeu antes de ganhar. A orquestra? A orquestra seria aquela que dita as regras da dança: o Zeitgeist, a mídia, o padrão da época, o que está valendo, o que está em voga, os valores ...