A ÚMIDA HUMILDADE
A definição de humildade não é absoluta, pois, encontram-se diversas versões, até mesmo contraditórias, estando principalmente ligada a fundamentações religiosas. Não é uma prática, onde se decide: "a partir de hoje, vou ser humilde”. Não permite a afirmação: "sou uma pessoa humilde”. É uma postura que busca a manutenção do bem, sem proclamar resultados. É uma percepção exata de nossos atributos bons, que serão postos em prática, e maus, que serão evitados. Diferente da modéstia que faz com que neguemos nossos próprios valores, a humildade nos dá a dimensão exata, ou quase exata, dos mesmos nas limitações e no brilhantismo. Faz com que nos reconheçamos como parte de um bem e uma igualdade comum, permitindo o foco sobre os resultados, e não sobre a autoria dos mesmos. Aceitar o próprio brilho, sem vaidade, os defeitos, sem menos-valia, e o reconhecimento público de ambos, pode se considerar uma postura humilde.
Conhecida como “a virtude do bom senso”, sentimentos como: “sou melhor que…”; “sou pior que…”; “sou mais que…”; “sou menos que…” - e tantos outros, nunca irão emergir numa postura humilde, pois, a humildade não atribui a nós mesmos, em relação aos demais, quaisquer adjetivos comparativos, limitando-nos apenas ao reconhecimento de “sermos iguais”, e, tão somente, “sermos iguais”.
Numa hierarquia social, quando vemos alguém mais privilegiado se dirigir com igualdade a uma pessoa “comum”, temos tendência a chamar de atitude de humilde. Em contrapartida, se o contrário acontece, nossa tendência é olhar a atitude como abuso, ou petulância, quando na verdade ambas são atitudes igualitárias, e passíveis de refletirem, tanto a humildade, quanto qualquer outra intenção por detrás. A humildade não enxerga hierarquia ou desigualdade, seja num sentido, ou no outro.
Se me fosse permitida uma definição, eu diria que humildade é a virtude da "percepção", ou "não percepção” sobre nós mesmos, e sobre nossas capacidades e limitações; não enxerga a desigualdade; mantém claro nosso papel na busca da construção do bem comum; podendo brotar espontaneamente como fruto de nossa vivência… e ainda ousaria um exemplo (entre tantos outros): Madre Teresa de Calcutá
Por ser uma virtude, e intimamente ligada à auto-consciência, creio que a humildade seja necessariamente uma característica absoluta do indivíduo, e, não, que possa estar presente em alguns de nossos aspectos e atitudes, e ausente em outros. Por ser considerada “a virtude do bom senso”, podemos dizer que a busca pela manutenção da igualdade e bem comum, enquanto virtude, e pela auto-consciência, enquanto bom senso, gera em nós um terreno fértil e propício à subsequente e espontânea germinação da humildade. Importante lembrar que nada disso pode ser considerado, se não houver a existência do Amor como parâmetro primordial. (Helena Antoun)