quinta-feira, 22 de março de 2007

À Nara

Quanto prazer sentimos na “amizade de varanda”, aquela em que se deita na rede, ou se joga no chão, e se fala tudo o que passa pela mente e pelo coração. Aquelas conversas em que “o pensar” é mero instrumento de organização do “sentir”.... . E foi assim que Nara, minha grande amiga de salinha de chat, foi lentamente recolhendo recortes de minha falas em nossas infindáveis conversas pela madrugada adentro. Como um “cão farejador”, Nara juntava aquilo que se precipitava de mim para dentro de conversas sobre os mais variados assuntos. Nara é uma amiga virtual, nunca nos vimos e há cinco anos nutrimos um amizade que baila na superfície e profundidade do que há de sensível na nossa tão falha natureza humana. Um dia minha amiga me surpreende me enviando um email. Mas era um email diferente, por se tratar de um email para mim, e escrito por mim mesma. Ao ler aqueles fragmentos de minhas conversas, vi passar à minha frente toda a história da amizade de nós duas. Nara havia juntado trechos escritos por mim, e montado um arquivo a que chamara de “Pérolas da Claudinha” (Cláudia é meu nickname nas salinhas de chat). Agora vejo que, durante toda a minha vida, estive a cuspir os meus sentires através das palavras sem me dar conta disso. Eu abortava embriões de poesia e Nara saía a catá-los ainda pequenos, e os deixava em prateleiras a incubar, até que pudesse perceber em mim o preparo, o desejo de assumir a paternidade de meus órfãos. Ao me ver diante de tão surpreendente momento, pude perceber que, como mãe distraída, estive toda a vida abortando poesias sem me dar conta de meu próprio fruto. Quantos orfãos deixei pela vida? Quem sabe estão por aí fortes sadios.. quem sabe deixaram de ser embriões e se tornaram poemas nas mãos de mães zelosas?.
Nara me ensinou, eu agora não me ouço mais com meus ouvidos e cabeça, mas sim com meu coração – como sempre fiz com os outros.

Obrigada Nara, pela sua obstinação!

Helena
USA – Inverno 2005/6

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