segunda-feira, 16 de abril de 2007

Inscrições - Helena

Era impressionante o esforço que eu fazia
Para que não saísse a marca de batom,
Cuidadosamente carimbada
Pelos lábios de minha mãe,
No dorso de minha mão.
Era um ritual só nosso.
Ela se aprontava para o trabalho
E eu, ainda tão pequena,
Acompanhava todos os seus movimentos
Com a devoção de um torcedor na arquibancada.
Quando ela estava pronta,
Pegava minha mão esquerda
(a do coração, dizia )
E suavemente, ali,
Selava seus lábios em batom.
Chamávamos isso de
‘Beijinho pra marcar’.
Não se admitia a possibilidade
De minha mãe sair,
Pra onde quer que fosse,
Sem que deixasse registrada
A sua presença em mim,
Através das cores e perfumes
De seus mais variados batons.
Era tão lindo cheiroso e perfeito
O contorno de sua boca...
Essa cumplicidade era de tal
Relevância em minha vida,
Que eu zelava com fervor religioso
Para que a marca perdurasse,
Até o momento do retorno de mamãe,
Quando, orgulhosa, eu lhe mostrava
O cuidado que dispensara aos seus lábios.
Na sesta,
Eu deitava com as mãos pra cima
Segurando o espaldar da cama,
De modo a recordar , mesmo durante o sono,
Que ali havia algo precioso
A ser preservado.
Ao me dar banho, Rutinha já sabia
Da proibição de tocar
Naquela área sagrada.
E creio que,
Por mais respeito aos lábios de mamãe
Do que a mim,
Ela seguia as determinações
Com obediência canina.
Até hoje,
Quando olho minhas mãos,
Vejo a marca indelével
Da tatuagem feita pelos lábios de mamãe
Em minha alma.

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